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"Redução da jornada pode elevar custos da construção civil", diz presidente do Sinduscon

Confira a entrevista com Eduardo Bastos, presidente do Sinduscon-BA

Divo Araújo
Por Divo Araújo
| Atualizada em
Eduardo Bastos
Eduardo Bastos -

A discussão sobre mudanças na escala de trabalho preocupa a construção civil em um momento de crescimento do setor na Bahia. Para o presidente do Sindicato da Indústria da Construção do Estado da Bahia (Sinduscon-BA), Eduardo Bastos, “uma mudança abrupta na jornada pode gerar aumento de custos, impacto na produtividade, atraso em entregas e até reflexos no valor final dos imóveis”. O dirigente defende que o debate ocorra “com responsabilidade, previsibilidade e diálogo amplo”.

Nesta entrevista ao A TARDE, Bastos explica que a construção civil baiana vive um cenário de expansão, com aumento de obras, lançamentos e vendas de imóveis, mas ainda enfrenta obstáculos históricos. Segundo ele, o setor precisa de “juros compatíveis com o mercado e segurança jurídica” para manter o ritmo de crescimento e ampliar os investimentos.

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Na entrevista, o presidente do Sinduscon-BA também fala sobre o “momento de escassez de mão de obra” enfrentado pela construção civil, os impactos da alta do petróleo nos custos das obras, os gargalos de infraestrutura no estado e os investimentos em inovação e tecnologia. Bastos ainda detalha os planos de interiorização da entidade e a expectativa para a próxima edição da ConstruNordeste, em Salvador.

Saiba mais na entrevista a seguir

O senhor assumiu a presidência do Sinduscon-BA em um momento de crescimento da construção civil na Bahia, que hoje é a quinta maior do país. Quais serão as prioridades da sua gestão para manter esse ritmo e ampliar a competitividade do setor?

A construção civil é um setor que impulsiona a economia no país, com geração de muitos empregos e renda. O Sinduscon da Bahia, por sua vez, aos 74 anos de atividade ininterrupta, tem exercido o papel de agregar toda a cadeia da construção - empresas, fabricantes, fornecedores, projetistas, bancos, governos, outras associações, concessionárias e sindicatos patronais - para fomentar o seu crescimento contínuo e defender as pautas que beneficiam as empresas e lutar contra as que podem prejudicá-las.

A construção civil responde por bilhões de reais em renda e massa salarial, mas ainda enfrenta dificuldades históricas de crédito, burocracia e juros elevados. O que precisa mudar no ambiente econômico para o setor conseguir crescer de forma mais sustentável?

Utilizo de dados recentes divulgados pelo Observatório da Indústria da Fieb (Federação das Indústrias do Estado da Bahia), para dar uma dimensão do que a construção civil representa no país e na Bahia. Iniciando pelo PIB, o setor representa 3,4% no país e 4,5% na Bahia. Com relação à geração da massa salarial, são R$ 104,5 bilhões no país e R$ 5,4 bilhões no estado. Em como um terceiro exemplo, cito a geração de empregos formais, 6,3% no país e 7,4% no estado. O que o setor precisa é mais de programas governamentais de obras, de juros compatíveis com o mercado e segurança jurídica para as empresas investirem.

O setor da construção civil enfrenta hoje o que muitos empresários já classificam como um “apagão de mão de obra”. Na prática, qual é o tamanho desse problema e o que pode ser feito para minimizá-lo, na sua avaliação?

A construção civil, assim como praticamente todos os setores produtivos, vive hoje um momento de escassez de mão de obra, mas esse é um fenômeno mundial e não uma realidade isolada do Brasil. O mercado de trabalho mudou muito nos últimos anos, especialmente após a pandemia, e setores que exigem atividade presencial, esforço operacional e formação técnica vêm enfrentando mais dificuldade para atrair e reter profissionais. No caso da construção civil, esse desafio se tornou ainda mais evidente porque o setor voltou a crescer, ampliando o número de obras, lançamentos e investimentos, ao mesmo tempo em que houve uma redução na oferta de trabalhadores qualificados. Hoje já encontramos dificuldade para contratar profissionais em diferentes áreas, desde funções operacionais até cargos técnicos e especializados.

Esse cenário exige uma reação conjunta do setor produtivo, das entidades de classe, das empresas e também do poder público. Precisamos investir fortemente em capacitação profissional, qualificação técnica e formação continuada, principalmente para jovens que estão entrando no mercado de trabalho. É fundamental mostrar que a construção civil moderna oferece oportunidades de crescimento, renda e desenvolvimento profissional.

Ao mesmo tempo, o setor precisa acelerar investimentos em inovação, industrialização e novas tecnologias para melhorar a produtividade, que ainda tem índices muito baixos no Brasil. Não podemos depender exclusivamente de aumento de mão de obra para crescer. O futuro da construção passa por processos mais industrializados, digitalização, uso de inteligência de dados, automação e métodos construtivos mais eficientes.

Também é importante aproximar mais as empresas dos centros de formação técnica, universidades e programas de aprendizagem, criando uma conexão mais forte entre educação e mercado de trabalho. O Sinduscon-BA vem acompanhando esse debate de perto e entende que enfrentar o apagão de mão de obra passa necessariamente por três pilares: qualificação, tecnologia e produtividade. Se o Brasil quiser continuar crescendo na construção civil de forma sustentável, precisará tratar esse tema como prioridade estratégica, porque a falta de profissionais qualificados já começa a impactar prazos, custos e a capacidade de expansão do setor.

O avanço do trabalho informal e das pequenas reformas mudou a dinâmica do mercado da construção civil. Como o setor pode enfrentar esse cenário e manter a competitividade?

O Brasil ainda é um país com muita desigualdade, com exceção de alguns bolsões de riqueza, a renda da população é muito baixa. É inevitável que haja as pequenas construções e reformas informais, cabe aos órgãos competentes fiscalizar, não temos dados de que haja um crescimento descontrolado. O Sinduscon-BA fomenta e apoia a legalidade no setor.

O setor teme impactos de propostas como o fim da escala de trabalho 6x1. Qual é a avaliação do senhor sobre essa discussão e quais efeitos uma mudança desse tipo poderia trazer para a construção civil?

A construção civil, por exemplo, possui uma dinâmica operacional muito própria, com cronogramas rígidos, prazos contratuais longos e uma cadeia produtiva extensa, que envolve desde fornecedores até trabalhadores diretamente ligados aos canteiros de obras. Uma mudança abrupta na jornada pode gerar aumento de custos, impacto na produtividade, atraso em entregas e até reflexos no valor final dos imóveis e serviços.

A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) tem se posicionado sobre o tema, destacando que setores produtivos como a construção civil, serão muito prejudicados com mudança da escala e principalmente com redução da jornada de trabalho, se preocupando com a realidade econômica do país. O Brasil ainda enfrenta desafios de produtividade e competitividade muito diferentes de países desenvolvidos que discutem redução de jornada em outro contexto econômico. Também existe preocupação com efeitos indiretos, como aumento da informalidade, redução de contratações e insegurança jurídica para as empresas. O setor entende que é legítimo discutir modelos de trabalho mais modernos e equilíbrio nas relações trabalhistas, mas isso precisa ocorrer com responsabilidade, previsibilidade e diálogo amplo com todos os envolvidos.

Defendemos que seja um assunto para ser discutido em 2027, com mais profundidade, estudos técnicos e participação efetiva dos setores produtivos, para que qualquer eventual mudança ocorra de forma equilibrada e sustentável para trabalhadores, empresas e para a economia do país.

O Sinduscon-BA tem ampliado o diálogo com startups e incentivado a inovação e o uso de novas tecnologias. Quais caminhos podem acelerar a modernização da construção civil baiana?

O Sinduscon-BA defende fortemente a pauta de novas tecnologias e inovação na construção civil, temos uma Diretoria com esse tema, temos o HUB da Construção no 7º andar da nossa sede com 31 startups e temos programas em andamento com o Senai/Cimatec. Além disso, em 2025 fizemos a nossa primeira missão à China e neste ano estamos apoiando a segunda missão, que será realizada pela nossa Cooperativa da Construção, a Coopercon.

Que outros desafios o setor da construção civil enfrenta neste momento?

A partir do mês de fevereiro, quando iniciaram os conflitos no Oriente Médio e, o consequente aumento dos preços do petróleo, de imediato muitos fabricantes começaram a reajustar as suas tabelas, alguns justificáveis outros não. Isso impacta diretamente no custo das obras e serviços, pois em geral trabalhamos com contratos de longo prazo e com planejamento, não conseguimos absorver aumentos nos percentuais que estão sendo impostos. Os contratantes têm que ter sensibilidade para aceitar discutir o reequilíbrio financeiro de contratos. Outros dois desafios, que não são tão novos e que têm impactado o nosso setor, são os valores das taxas cartorárias, já estamos dialogando com o TJ/Ba e a morosidade da Coelba em atender as ligações de energia das obras. Temos reclamações de todo estado. A esperança é que a nova presidente, Fabiana Lopes, para quem desejamos sucesso na gestão, mantenha o diálogo com o setor a fim de eliminar os gargalos.

A ConstruNordeste, que será realizada em agosto, se consolidou como um dos principais eventos do setor no país. Qual o papel da feira na atração de investimentos e no fortalecimento da cadeia produtiva da construção no Nordeste?

De 12 a 14 de agosto nós realizaremos a 4ª edição da ConstruNordeste, que já se consolidou como o maior evento do setor no Norte/Nordeste e o maior realizado no Centro de Convenções de Salvador. Nesses três dias reunimos toda a cadeia da construção, de estudantes a profissionais, de fornecedores a instituições bancárias. Além da exposição de produtos, temos eventos paralelos, que geram conteúdo e trazem discussões aos temas atuais e de interesse do setor. Com essa iniciativa, fomentamos e fortalecemos toda a cadeia da construção.

O mercado imobiliário vem mostrando sinais de aquecimento, com crescimento nas vendas de imóveis em Salvador e em outras cidades do estado. Como o senhor avalia o momento atual do setor e quais são hoje os principais desafios para manter esse ritmo de crescimento?

O mercado imobiliário no estado está bem aquecido, tem muitas obras em execução e também diversos lançamentos acontecendo, uma prova disso é o Salão Imobiliário da Ademi que está acontecendo em Salvador de 6 a 21 de maio e o Salão Imobiliário de Vitória da Conquista, que acontecerá na próxima semana, de 22 a 24 de maio, estamos apoiando ambos. Os desafios principais do segmento imobiliário são os juros altos e o aquecimento da

Qual a expectativa de público, volume de negócios e impacto econômico da 15ª Feira de Imóveis de Vitória da Conquista para a região?

A Feira de Imóveis é um evento de enorme relevância para Vitória da Conquista e toda a região e já está na sua 15ª edição. Ao longo dos anos, já se consolidou reunindo grandes marcas do setor com ofertas de seus produtos imobiliários e oportunidades de financiamento da Caixa. Este ano, esperamos receber cerca de seis mil visitantes, com mais de quatro mil imóveis ofertados e uma expectativa de mais de 300 unidades vendidas, gerando acima de R$ 70 milhões em negócios. Além disso, o evento vai impulsionar a geração de emprego, renda e fortalecer toda a cadeia produtiva da construção civil na Bahia.

Durante sua posse, o senhor defendeu a ampliação da presença do Sinduscon-BA no interior do estado. Como promover essa interiorização em uma Bahia com 417 municípios e realidades tão distintas?

Nosso maior desafio é vencer as dificuldades de logística e de deslocamento no estado. A Bahia é um estado imenso que tem sofrido com limitações de infraestrutura e uma malha aeroviária muito limitada ou até mesmo inexistente, que dificulta a integração regional. Mesmo assim, entendemos que essa aproximação é estratégica para o futuro da construção civil baiana. Queremos um Sinduscon-BA cada vez mais conectado com todo o estado, atendendo as demandas locais e ajudando a impulsionar o crescimento do setor em diferentes regiões.

Para concluir, o senhor participou de quase três décadas de diferentes gestões do Sinduscon-BA. O que pretende manter das administrações anteriores e o que deseja imprimir de novo na entidade?

O Sinduscon é uma organização viva e dinâmica, que ao longo dos seus 74 anos tem acompanhado a evolução do mundo e do setor. Com muito trabalho e responsabilidade, teve gestões comprometidas, que imprimiram um ritmo de crescimento contínuo e harmônico. Estou no Sinduscon desde 1998, passei por oito gestões, aprendi muito com todos que convivi. O meu papel como presidente é dar continuidade a esse crescimento, ampliar os serviços, o quadro de empresas associadas para fortalecer e solidificá-lo como representante legítimo do setor da construção.

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Tags

construção civil jornada de trabalho mercado imobiliario

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