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Ademir da Guia: 'O futebol brasileiro está feio de se ver'

Diego Adans

Por Diego Adans

01/09/2014 - 16:30 h

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Ademir da Guia
Ademir da Guia -

Na última terça, o Palmeiras celebrou seu centenário. Na pomposa festa, um ex-jogador foi especialmente homenageado pela torcida e diretoria: Ademir da Guia, o 'Divino'. Aos 72 anos, o carioca concedeu entrevista exclusiva ao A TARDE. No bate-papo, por telefone, o ex-meia falou, entre outros assuntos, sobre a emoção de ter se tornado o maior ídolo da história palmeirense, além de recordista de jogos com a camisa do clube paulista. Foram 901 partidas e 153 gols. Apesar da fala mansa, o Divino não poupou críticas ao atual momento vivido pelo Verdão e pelo futebol brasileiro. Revelou ainda ter ficado "bastante decepcionado e triste" pelo vexame da Seleção Brasileira na Copa-2014 e que está na contagem regressiva para a inauguração do novo estádio do Palmeiras, a Arena Palestra, o que deve ocorrer até o fim do ano.

Antes de seu início como jogador, você esperava um dia se tornar o maior ídolo de uma torcida estimada em 10,6 milhões de pessoas (pesquisa Ibope divulga há quatro dias)?

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Antes de responder sua pergunta, vou contar rapidamente a minha carreira, está bem (risos)? Comecei no Bangu aos 19 anos. Depois de uma excurssão que fizemos para Nova York, nos Estados Unidos, o Palmeiras se interessou por mim. Em agosto de 1961, assinei contrato com o Verdão. Assim que cheguei, peguei, de cara, aquele time que havia sido campeão (Paulista) em 1959 com Valdir, Djalma Santos, Chinesinho, Zequinha, Geraldo Scotto, Américo, Carabina, Julinho, Vavá, Romero... Só craque! Quer melhor recepção do que essa? Depois, aí vou ser sintético: ganhei cinco títulos brasileiros (Taça Brasil de 1967, Robertão de 1967 e 1969 e Brasileirão de 1972 e 1973), um Rio-São Paulo (1965) e cinco Paulistas (1963, 1966, 1972, 1974 e 1976). Foram 16 anos de vida dedicados ao Palmeiras, de onde não saí mais. No estádio novo, haverá um memorial em minha homenagem. Não há um lugar que eu vá, que um torcedor do Palmeiras me veja e não venha falar comigo. Mas, não fiz isso sozinho. Tive amigos em campo que me ajudaram bastante. Por isso, agora posso te responder: estou emocionado com tamanho carinho. Jamais esperaria tanto.

Na década de 1960, o Palmeiras era tão forte que fazia frente ao Santos de Pelé. Como eram aqueles confrontos?

Eles tinham uma grande equipe, com um ataque com Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Não era fácil. Cada clássico era aguerrido, estádio lotado... Era realmente complicado. Sinto falta de não ter jogado ao lado de Pelé. Só contra. Agora, teve um clássico em que dei uma 'caneta' no Rei. Posso me orgulhar disso. Depois do jogo, Pelé veio me entregar o prêmio de melhor jogador da partida. Mas, depois, já em outro jogo, ele devolveu a 'caneta' (risos). Eram encontros memoráveis...

O Palmeiras é o único time brasileiro que ficou conhecido pelo apelido de Academia, devido ao nível do futebol apresentado. Você participou da 'Acadêmia', apelidada assim em 1965 e, novamente, em 1972. O que fez daquele Palmeiras ser tão diferente dos times que atuam no país hoje em dia?

Nós mostrávamos um futebol acadêmico, com gols, toque de bola, jogo ofensivo e bons resultados. Por isso, surgiu esse apelido. Hoje, não! Você vê times com três, quatro, cinco volantes! Jogadores que erram passes de um metro. Não dá! O futebol brasileiro está muito feio de se ver. Você vê um time ou outro que é bom. O Cruzeiro (líder da Série A), por exemplo, é a exceção. A primeira Academia surgiu no Torneio Rio-São Paulo (em 1965 e durou até 1969). Nós jogávamos no Maracanã contra as equipes do Rio e eles exaltavam nosso futebol. Já a segunda Academia jogou mais tempo junta (até 1976). Em 1972, nós conquistamos os cinco títulos que disputamos. A Academia entrava e era sempre favorita. O Cruzeiro de hoje em dia está assim.

O Palmeiras conquistou o título Paulista em 1976 e, no ano seguinte, você se aposentou. Coincidentemente, o clube viveu um jejum até 1993. Por que o Palmeiras ficou tanto tempo sem título após sua geração?

Na verdade, não foi só o Ademir que parou. Vários jogadores também. Vou listar: o Dudu (volante), Leão (goleiro)... Praticamente todo o ataque parou. Ficou um Palmeiras diferente até voltar a ser uma grande equipe, na época que chegou a Parmalat (patrocinador, em 1992). Nesse 'intervalo', faltou contratar os jogadores certos. Diretores e técnicos precisavam de uma melhor visão.

Curiosamente, de 1993 para cá, a situação se manteve irregular. Apesar da conquista da Libertadores de 1999, o Palmeiras vem de anos difíceis com dois rebaixamentos (2002 e 2012)...

É triste, muito difícil... É lamentável você ver hoje uma criança chorando quando tem uma derrota que pensava que deveria ser um triunfo. Com o novo estádio, acho que vai melhorar. Além disso, o Ricardo Gareca (atual treinador) precisa mostrar para o que veio. O time poderia ter aproveitado melhor a pausa na Copa, ter treinado mais.

Antes de a Copa do Mundo começar, você disse em entrevista à ESPN que estava confiante no hexa. Afirmou que Felipão tinha "uma defesa e um meio de campo muito bons". Só o ataque que precisava de "algo a mais". Foi surpresa a vexatória derrota (7 a 1) para a Alemanha?

Nem me lembra disso! Foi uma surpresa muito desagradável. Eu esperava que o Brasil chegasse à final. Mas, foi ficando notório a cada jogo que faltava algo à equipe. Normalmente, o time se encaixa durante a Copa. No caso do Brasil, foi o contrário: ele se perdeu durante o Mundial. Nem um time de várzea toma tantos gols daquele jeito.

Após a Copa, a CBF demitiu Felipão, trouxe novamente Dunga e anunciou Gilmar Rinaldi como coordenador da Seleção. O que se esperar?

Não gosto de julgar ninguém. Dizer que Felipão foi culpado? Não sou disso. Agora, espero que Dunga e Gilmar façam um bom trabalho. Falaram em trazer um técnico de fora para treinar a Seleção. Não concordei, porque acho que aqui no Brasil temos treinadores capacitados. O que eu espero agora é que haja uma verdadeira mudança no futebol do país.

Então, você compartilha da opinião de boa parte da imprensa que afirma que estamos vivendo uma crise técnica?

Sim. Eu acho o seguinte: mudou muito. Tenho falado isso para outros jornalistas e volto a dizer: antigamente, se jogava um futebol mais técnico. Depois, os treinadores resolveram mudar a maneira de atuar. Tiraram os pontas, que eram a alegria do futebol, tiraram os meias... Então, a beleza do futebol ficou em segundo plano. O que mais predomina são as defesas e o futebol mais feio. Hoje, eu acho que o futebol brasileiro passou a se preocupar mais com a defesa, com o 'não levar gols'. Com esse tipo de coisa, ficou um futebol mais defensivo, mais pegado, mais de choque... E assim tem sido: campeonatos fracos tecnicamente.

Você também entende que o Campeonato Brasileiro está aquém do que poderia ser?

Claro! Os clubes do Rio, por exemplo, não estão bons. Aqui em São Paulo, um ou outro está bom. No Rio Grande Sul, também. Aí, no Nordeste, os clubes já iniciam a disputa brigando para não cair. Amigo, eu sou da época que o Bahia... O Bahia bateu o Santos! O Santos de Pelé! Foi o primeiro campeão brasileiro (1959), foi à Libertadores.... Vi o Vitória bater na trave em 1993. Porém, diante do Palmeiras, seria difícil vencer mesmo (risos). Então, ainda espero ter a chance de rever grandes times, grandes torneios de volta.

Qual foi sua grande alegria e a maior frustração na carreira?

Alegrias? Foram muitas. As vitórias, participar de uma Copa (1974), conhecer o Brasil todo, o mundo também... Joguei no Palmeiras por 16 anos. Foi uma vida de alegria. A decepção? Ih, moleque (risos)! Peraê (sic)! Não tive muitas oportunidades na Seleção, pois havia muito craque naquela época. (Ademir atuou 14 vezes pela Seleção. Disputou apenas uma partida em Copas do Mundo, em 1974, quando o Brasil já estava desclassificado, na disputa pelo terceiro lugar contra a Polônia).

É consenso que você foi um dos maiores camisas 10 da história do futebol brasileiro. Este número representa realmente um jogador diferenciado?

A camisa 10 foi marcada por craques, mas isso passou. Antes, os titulares jogavam de 1 a 11. Hoje, não. A mística da camisa 10 não acabou, mas não é a mesma de antigamente. Hoje, tem time por aí em que jogador veste a camisa 99, a 63, 75, 86... Por aí vai.

A Arena Palestra está quase pronta. Faltam detalhes. Você gostaria de jogar lá?

Sim, seria uma honra.

Está em forma? Aguentaria os 90 minutos?

Deixa eu te contar uma coisa, um episódio recente. Eu fui bater um pênalti num jogo, uma brincadeirazinha entre amigos. Aí, pensei: 'será que eu bato?' E olhe que eu treino pênalti! Fui lá e bati, mas a bola foi na trave e voltou. Eu fiquei chateado. Aí, meu amigo chegou e falou: 'Não, Ademir, você bateu bem'. E eu: 'bem?! Tem que fazer o gol, pô!' Aí, eu pensei: é melhor jogar com a garotada mais jovem, porque ela fala assim: 'Ademir, deixa nós corrermos e você fica só pensando o jogo'. Dessa forma, eu chego em casa sossegado! Não jogo mais com os velinhos, não (risos)! Por que eu penso que estou bem e, no outro dia, acordo todo dolorido, coluna doendo... Então, na inauguração, posso entrar para bater um pênalti. Dessa vez, não irei vacilar (risos).

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