ESPORTES
Baiano conta como o nosso judô fez história
Em inesperada entrevista exclusiva, concedida a bordo do vôo que o trouxe de volta a Salvador, A TARDE conversou neste domingo, 17, com o vice-presidente da Confederação Brasileira de Judô, Marcelo França Moreira, que fez parte da comissão técnica da equipe.
A conversa rendeu uma análise da performance brasileira que resultou na primeira medalha individual feminina do País em jogos olímpicos, de Ketleyn Quadros, e as medalhas de Leandro Guilheiro e Tiago Camilo, os únicos brasileiros com duas medalhas olímpicas no judô, ao lado de Aurélio Miguel.
Para Marcelo, houve crescimento do judô brasileiro. Se na última olimpíada levamos duas, nesta foram três medalhas de bronze. “Tem gente que pergunta por que não ganhamos ouro, que seria fácil, mas não é assim. Esta foi uma olimpíada com a maior distribuição de medalhas. O Japão, por exemplo, que na última ganhou oito, desta vez também levou três. A França, um dos países que mais investem no esporte, quase não classificou”.
Se não deu para o ouro, apesar da tranqüilidade, determinação e técnica da equipe, como ele ressalta, a explicação pode ser difícil de ser encontrada. “Não digo que é sorte, que não acredito nisso, mas digo que no dia que você está lutando você tem que estar iluminado. Nossos atletas passaram um período de 12 dias treinando no Japão e estavam preparados técnica, psicológica e fisicamente”, acredita.
Para ele, a equipe cumpriu (com a exceção do ouro) as metas estabelecidas: fez mais lutas e classificou mais pesos do que em Atenas e ainda subiu ao pódio no feminino. Para isso foi determinante o apoio proporcionado por toda a comissão técnica, em especial os técnicos Luiz Shinohara e Rosicléia Campos. “Luta hoje não é mais você e o adversário, é estratégia”, garante Marcelo. O desenvolvimento técnico e estratégico do grupo, aliás, é aposta de rendimento ainda melhor em Londres.
E talvez com a presença de mais um baiano, seu filho, Michel França, de 24 anos. “Já era para ele estar nessa, disputou seletiva do pré-olímpico. O que aconteceu? (Falta de) Disciplina. Ele tem um dom, tem judô bonito, foi o único do Brasil que já derrubou Leandro Guilheiro. Se ele for determinado agora, tenho certeza que estará na próxima”, aposta Marcelo, orgulhoso, ao falar do filho campeão, ganhador do Troféu Brasil em 2007.
Enquanto espera por Londres, os próximos quatro anos serão de muito trabalho na Bahia. A experiência das Olimpíadas vai ajudar no treinamento com a equipe do Estado, que atualmente conta com apoio da Sudesb, através do Faz Atleta.
Os 22 atletas contemplados estão divididos entre futuros integrantes de equipe de base e os adultos, que já estão treinando para participar de um Grand-Prix no Rio de Janeiro no final do ano.
“Se no Brasil tem jeitinho, na Bahia tem jeitão. O atleta precisa saber que para chegar lá ele tem que esquecer as festas baianas, as micaretas, as belíssimas praias. Não tem domingo, não tem feriado”, avisa.
E acrescenta que, para materializar ainda mais rápido a pretensão de ter um baiano subindo em um pódio olímpico, é necessário mais que patrocínio. “A Bahia precisa de um centro de treinamento de excelência, as universidades precisam criar centros de pesquisa e investir em trabalhos científicos, tudo para buscar alto rendimento dos atletas”, almeja o baiano.