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Da peneira para o sucesso: a vida de um jogador na divisão de base

Lorena Murici*
Por Lorena Murici*
| Atualizada em
Edimundo (Bahia) e Ruan (Vitória) contam como começaram no futebol e dos anseios da base
Edimundo (Bahia) e Ruan (Vitória) contam como começaram no futebol e dos anseios da base - Foto: Felipe Oliveira | EC Bahia - Maurícia da Matta | EC Vitória

Muitas pessoas admiram e glorificam a vida de jogadores de futebol. Talvez pela fama, pelos altos salários e a vida agitada. Mas poucos conhecem o sacrífico e a luta de muitos meninos e meninas para chegarem no nível que estão hoje. Bem provavel que ninguém saiba, mas o camisa 10, capitão e craque da nossa seleção, Neymar JR., já desistiu de uma temporada na Europa por causa da saudade da família e dos amigos.

A vida dos garotos das divisões de base da Bahia não é muito diferente. Muitos, ainda meninos, saem da casa de seus pais no interior baiano ou em outros estados, após serem aprovados pela famosa "peneira" (o processo seletivo para entrarem no mundo futebolístico), para irem morar nos alojamentos disponibilizados pelos seus times e realizar o sonho de se tornar um jogador profissional.

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Seguindo o sonho

Ruan Levine Câmara Vitor herdou o amor pelo futebol do seu pai Sidney Mendes, 42 anos, que já jogou bola. Ao perceber que poderia mudar a vida da sua família com o futebol, Ruan decidiu seguir a carreira.

Ruan, hoje com 19 anos, foi aprovado em uma peneira promovida por Baiano, olheiro do Vitória na época, que indicou ele e mais 6 atletas para fazerem uma avaliação no clube. Levine foi o único aprovado. Saiu da casa dos pais, em São Sebastião do Passé, com 14 anos. Durante o processo, ele morou em três lugares diferentes até poder se mudar para o alojamento (que não podia abrigá-lo naquele tempo devido a sua idade): na casa de Edgar, seu primeiro treinador no clube, e de outros dois companheiros de equipe, que hoje não estão mais jogando no rubro-negro. "Sinceramente, não foi muito difícil porque era o que eu queria para minha vida. Segui meu sonho", afirmou o atacante sobre a saída de casa.

Sidney afirma que, como qualquer pai, ficou com receio de ver o seu filho saindo de baixo da sua asa, mas acostumou rapidamente porque era o sonho dele que estava se realizando. "A dificuldade é por causa da distância, o afago e o carinho que não posso mais dar sempre, e as resenhas, porque além de pai e filho, somos amigos", concluiu Mendes.

Ruan Levine, que virou Potó quando chegou ao Vitória (o apelido foi dado devido a uma queimadura feita pelo bicho do mesmo nome), passou por algumas dificuldades na adaptação, "às vezes eu faltava ao treino porque não tinha dinheiro para o transporte", comentou o atacante, que admitiu já ter pensado na possibilidade de desistir da carreira futebolística, mas ressalva "hoje não penso mais, faltam apenas alguns passos para o objetivo. Meu maior sonho é chegar ao profissional e ajudar a minha família, retribuir tudo que eles fizeram por mim".

Campeão da Copa do Brasil Sub17 em 2015, em cima do Botafogo, em pleno Engenhão, no Rio de Janeiro, Potó caracterizou essa conquista como o momento mais marcante da sua carreira no clube até agora. "Ser campeão do Brasil foi uma sensação única, diferente, muita emoção, ainda mais do jeito que foi. Estávamos em desvantagem e conseguimos virar e vencer nos pênaltis. É gratificante jogar aqui, em um clube grande como o Vitória. É uma honra vestir essa camisa", concluiu.

Imagem ilustrativa da imagem Da peneira para o sucesso: a vida de um jogador na divisão de base
Foto: Maurícia da Matta | EC Vitória
Ruan "Potó", hoje, joga na categoria Sub23 do Vitória

Orgulho da mãe

Na base tricolor, Edimundo Miranda dos Santos, o "Boca", desenvolveu seu amor pelo futebol enquanto assistia jogos pela TV, "desde criança eu via as partidas pela televisão e tinha vontade de, um dia, estar no lugar daqueles jogadores. Eu jogava em um time do interior, mas comecei mesmo com 12 anos", comentou Edimundo sobre o começo no futebol. O seu primeiro treinador no Bahia, Luciano Moura, falava que a boca dele era muito grande, e, ele acabou virando o Boca.

"A partir de uma peneira em Caraíbas, um olheiro do Bahia me chamou para jogar aqui", comentou o lateral direito que saiu de casa em Irecê para vir para a capital, atrás do seu sonho. Antes de ir para o alojamento, Boca ficou um tempo na casa de seu ex-empresário, para dar um tempo para se adaptar e fazer amigos. "No começo tudo me assustou. Era tudo diferente, as pessoas e seus estilos de vida. No começo foi bem difícil, mas Deus me deu força e coragem para seguir", declarou.

Para dona Clebia, 40 anos, mãe do Boca, foi muito bom ver que seu filho queria ser jogador, mas ela pondera "foi difícil vê-lo saindo de casa tão cedo, com apenas 12 anos. Sinto falta dele em casa. Talvez essa seja a minha maior dificuldade, a saudade dele, além do medo das viagens".

Além de toda a dificuldade de sair de casa tão cedo, qualquer jogador, seja ele brasileiro, espanhol ou japonês, tem a tensão e a expectativa de se estar na base de um clube. Tensão por estar em luta pelo seu futuro e expectativa pela esperança das oportunidades. "A minha maior dificuldade é a pressão de não saber se vai ser ou não um grande jogador", comentou Edimundo.

"Meu maior sonho é jogar no profissional do Bahia. É uma grande realização jogar aqui", apontou o jogador que conta com o apoio da mãe para seguir no seu objetivo. Já são 7 anos na divisão de base do esquadrão de aço, e nesse tempo todo, Boca apontou apenas um como o mais importante de toda a sua trajetória. "O momento mais marcante da minha carreira até agora foi a primeira vez que fui para uma competição como jogador da divisão de base do Bahia e vi a minha mãe toda feliz ali me vendo jogar. Não tem preço ver a felicidade da minha mãe", concluiu.

Imagem ilustrativa da imagem Da peneira para o sucesso: a vida de um jogador na divisão de base
Foto: Felipe Oliveira | EC Bahia
O lateral direito, Edimundo "Boca", está atuando pelo Sub20

*Sob a supervisão de Lhays Feliciano

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