"Eu não me pressiono; não tenho data pra me aposentar", diz Ricardo, campeão olímpico de vôlei de praia

Publicado domingo, 14 de junho de 2020 às 06:00 h | Atualizado em 14/06/2020, 08:34 | Autor: Aurélio Lima

Aos 45 anos, o baiano Ricardo mantém a rotina de atleta de vôlei de praia. Atualmente vivendo em Orlando, nos Estados Unidos, ele acumula ainda a função de técnico e treina a dupla brasileira Larissa/Lili. Nessa entrevista para o A TARDE, o "Muralha" relata que mantém o preparo físico em casa nesse período de distanciamento social. Fala que a aposentadoria está fora de cogitação, por ora, mas admite que, quando ela chegar seu sonho é encerrar a carreira jogando uma partida com o filho, Pedro Henrique.

Você já começou a carreira de técnico com um desafio dos grandes, que é treinar Larissa e Lili. Como está sendo essa experiência?

É um desafio muito grande para mim. É bem desafiador treinar uma medalhista olímpica e Lili, que também é medalhista pan-americana. Mas eu já vinha treinando outros atletas, não no nível delas, desde quando eu me mudei para Orlando. Isso já vai fazer quatro anos. Eu sempre estive em competição como atleta, mas ao mesmo tempo treinando jovens e alguns atletas que jogam o circuito americano. Para mim é um início de uma transição de poder treinar atletas de renome, com uma experiência e uma bagagem muito grandes dentro do esporte. É uma troca de informações. Eu tenho uma experiência, uma vivência no vôlei de praia maior do que elas, mas acabo também ganhando novos modos de pensar.

Como foi a preparação para se tornar treinador?

Eu já vinha participando desse novo projeto com atletas iniciantes, até os 18 anos, alguns atletas também adultos que jogam competições aqui nos EUA. Vinha me preparando para isso, tenho estudado bastante aqui, tentando me qualificar. Aproveitando também desse momento de pandemia pra estudar um pouquinho mais. Estou vendo o lado diferente de todo esse processo e tentando tirar o melhor para colocar dentro dos meus treinamentos.

Em algumas ocasiões você já declarou que tomou gosto pelo vôlei de praia devido ao incentivo de seu primo, Paulão, que também é técnico. Mais uma vez Paulão serviu de inspiração para você?

Paulo sempre foi uma inspiração pra mim, como atleta e técnico. Ele mostra toda a qualidade que teve como jogador e que está tendo também como técnico, treinando grandes times, tendo sucesso. Um técnico que vem sempre somando para o vôlei de praia. Você tem que ter referências boas quando tenta ingressar no projeto. Eu tive vivência com vários técnicos e acabo tentando selecionar alguns pontos de todos eles, mas realmente Paulo continua sendo uma referência para mim dentro do esporte.

Agora como treinador, como analisa as chances das equipes de vôlei de praia masculinas e femininas do Brasil nos Jogos de Tóquio, em 2021?

Sempre acreditei no potencial do voleibol brasileiro em todos os ciclos olímpicos. E não é diferente nesse momento. O Brasil sempre, em todas as edições, trouxe medalhas olímpicas. É um dos esportes mais vencedores, se for contar pelo tempo de existência dentro dos Jogos Olímpicos. Foram poucas edições, mas ao mesmo tempo o Brasil trouxe medalhas em todas elas. Eu confio muito nos quatro times que vão representar o nosso país. Acho que com esse adiamento aí, teoricamente de um ano, por causa de todo o problema que o mundo tá passando, será importante. Os times ainda eram novos e vão ter um tempo maior para se preparar e evoluir para chegar nessa nova data ainda mais fortalecidos.

O que um atleta com a experiência de quatro Olimpíadas, como você, pode ensinar para tranquilizar jogadores ansiosos para voltar aos treinamentos e competições?

Não é tão fácil, mesmo tendo jogado quatro Olimpíadas. Vamos ter ai alguns atletas que vão jogar pela primeira vez os Jogos Olímpicos. Eu acredito que as comissões que estão ao redor desses atletas são experientes. Já passaram pelo ciclo olímpico e disputaram os Jogos também. Então, eles podem tranquilizar ainda mais. Acho que o treinamento, quando está sendo bem feito, dá uma tranquilidade muito grande ao atleta. A maturidade, o atleta já vem ganhando durante a corrida olímpica. Isso já um teste muito grande para os atletas manterem o foco e chegarem na Olimpíada ainda mais fortalecidos. São atletas experientes que vão jogar, principalmente no masculino. Temos dois atletas que não vão jogar juntos, mas por essa experiência de medalha olímpica podem ajudar ainda mais os outros dois: Álvaro e Evandro. No feminino, temos Ágatha, que participou de uma final olímpica. Ela vai jogar com Duda, que é uma das promessas do voleibol brasileiro. Do outro lado, tem Rebeca com Ana Patricia, uma dupla que está em um momento muito bom e ainda tem muito a crescer. Estão jogando muito bem, tanto no Circuito Mundial como no Brasileiro. Então a confiança é muito grande. Espero que todos eles estejam amadurecidos quando chegar a Olimpíada.

Imagino que vai dar muita audiência você formar dupla com o seu filho, Pedro Henrique. Já existe uma data para esse evento histórico?

Pedro está até comigo aqui, estamos treinando juntos. Devemos jogar algumas competições nos EUA, mas eu não tenho data ainda para encerrar a minha carreira como atleta. Quero aproveitar esse momento e curtir bastante com ele. Eu não sei se vou ter a chance de jogar no Brasil com ele, mas aqui nos EUA certamente vamos disputar alguns torneios. Enfim, eu não me pressiono nesse sentido de parar. Agora chegou o momento de eu tentar curtir um pouquinho e gostaria muito de, nesse fim de carreira, jogar com ele ao meu lado.

Qual projeção que faz da carreira de seu filho, superado por você em duas partidas no Circuito Brasileiro?

Foram dois momentos bem especiais para a minha carreira essas partidas. Difícil jogar contra um filho, mas ao mesmo tempo foi muito prazeroso, pois consegui notar o desenvolvimento dele. Isso me deixa muito mais tranquilo. A carreira depende muito mais dele do que propriamente de qualquer outra coisa que possa influenciar. Acredito que ele vem se desenvolvendo bastante. Depende muito das equipes que você monta, mas eu vejo potencial para ele ser um grande jogador. Não pressiono, sempre deixei ele muito à vontade para decidir o que gostaria de ser, qual carreira seguir, mas eu gostaria muito que ele pudesse ter sucesso dentro do esporte, independentemente de vir a ser campeão mundial ou brasileiro. Primeiro, que ele esteja feliz fazendo aquilo que gosta.

Vislumbra ainda mais adiante se tornar o treinador dele?

Eu acho que desafio na vida de um profissional é sempre bem-vindo. Ter a chance de treinar Pedro seria um desafio, assim como eu terei treinando Larissa, que é uma multicampeã e resolveu voltar a competir novamente. Não deixa de ser desafiador. Mas isso aí eu deixo muito a critério do atleta. Decidir se ele gostaria de treinar comigo ou não, independentemente se eu sou pai. Quando ele está aqui, a gente treina bastante juntos, tento passar muitas informações para ele e cobro bastante. E eu sinto que ele gosta disso. Enquanto ele estiver se sentindo feliz, competindo e me tendo ao lado dele, passando informações, vai ser muito gratificante.

Com 1,85 m, Lili é uma jogadora de grande envergadura. Pretende passar para ela a sua experiência de ‘Muralha’?

Lili é uma atleta que na maioria do tempo sempre foi uma bloqueadora. São muitos anos em que ela está nessa função dentro dos jogos, e isso facilita. A visão de cada atleta às vezes pode ser diferente, mas quando você pega certas informações e pode moldar para que durante o jogo se torne mais fácil, está retirando pontos dos adversários, isso pode facilitar. O mais importante é a troca de informações e deixar o atleta muito à vontade nesse sentido. O feminino é um estilo de jogo diferente, porém, acredito que o que é usado no masculino em alguns momentos pode ser positivo se usado também durante os jogos no feminino.

A Federação Internacional cancelou todas as competições deste ano. Qual o plano pra treinar as jogadoras?

Nesse início de nossa equipe, a gente tem só a pretensão de jogar as etapas aqui do Circuito Norte-americano, que a gente começou do início. Já fizemos uma primeira competição e elas foram campeãs. Futuramente, quem sabe, jogar torneios no Brasil. Em princípio, para essa temporada, a gente não tinha a previsão de jogar torneios internacionais.

O que tem feito nesse período de isolamento social para se manter em forma?

Eu tenho tentado me manter muito ativo. Já tivemos nos dois últimos finais de semana competições do vôlei de praia, mas ainda não retomamos, estamos procurando segurar ao máximo possível antes de voltar às quadras. Eu feito a minha preparação toda via internet, treinando com o meu personal. Mas aos poucos vou voltar aos treinamentos com bola.

Houve muitas perdas para você provocadas por essa paralisação? Você contabiliza também alguns ganhos?

Acho que todos tiveram perdas, principalmente em ritmo de jogo, alguns mais ainda pelo lado financeiro, competições que foram canceladas. Eu tentei equilibrar perdas de competições com ganhos de informações. Estou tentando me capacitar em outras ações, estudando muito pela internet. Aproveitando essa ferramenta para ganhar também conhecimento. Estudo, vejo vídeos, tento me qualificar.

Na sua opinião, o que ainda é possível recuperar no pós-pandemia e o que se tornou irreversível?

Só o tempo vai mostrar o que vai ser recuperado ou não. O mais importante é todos se manterem seguros e fortalecidos para poder retornar à vida normal. A perda todos tivemos, mas o tempo vai falar o que realmente houve de modo irreversível. Eu tento me qualificar como posso para melhorar nesse novo projeto. O que ficou de muito negativo foi o cancelamento de muitos eventos, falando do lado do vôlei de praia. Cancelamento de toda uma temporada, toda uma preparação voltada para as competições. Mas o mais importante é a segurança e espero que todos possam voltar fortalecidos

Qual é a principal diferença que você está sentindo na forma como os Estados Unidos enfrentam essa crise em relação ao Brasil?

A principal diferença que eu noto é a questão cultural. Os EUA são um país preparado para a guerra, para tudo. Então, eles já passaram por muitos momentos difíceis. As pessoas se unem muito, principalmente quando acontece uma dificuldade como essa que o mundo está passando. Aqui, cada estado tem suas leis, então eles conseguem ir moldando cada ponto. Aqui na Flórida, não fomos afetados com a força tão grande quanto a que estamos vendo no Brasil. Então, isso facilita, tanto que muitas coisas aqui estão voltando à normalidade. Com restrições, mas a vida voltando.

Nos EUA, o governo abre parques e academias. Isso tem facilitado a preparação sua e de sua equipe?

Os parques públicos ficaram abertos para que as pessoas pudessem fazer atividades. As academias voltaram com algumas limitações. O máximo de 25% a 30% da capacidade normal de pessoas treinando. Estão voltando aos poucos com uma certa segurança. Mas eu ainda estou tentando me manter seguro em casa. Acho que num momento como esse é preciso ter mais paciência para voltar com uma segurança maior.

Quando esse período de isolamento passar, você acha que será necessário acelerar os treinos e até queimar etapas para colocar as suas atletas prontas para os torneios?

Estamos muito tranquilos porque o nosso início seria mais pra jogar nos EUA. As competições aqui acabaram tendo etapas adiadas, outras prorrogadas. Eu vejo a chance de começarem antes do que no Brasil. Para as competições maiores, então a gente vai ter um tempo maior para a preparação. Já tínhamos iniciado praticamente dois meses de treinamento, até o início de todo esse processo de você ter que se resguardar. Também é preciso voltar com segurança física para não ter uma lesão. Novamente do zero ou com 40%, 50%. Vai depender muito de quais serão os pontos que vamos ter como meta.

Você acha que a Olimpíada será igual para todo mundo, isto é, todos vão estar igualmente preparados?

Eu acho que vai ser bem diferenciada, uma Olimpíada de superações. Isso vai dar um brilho maior, por todo o processo que nós passamos em 2020. As pessoas vão acabar levando isso como algo a mais para dentro dos Jogos Olímpicos em 2021. Espero que seja um sucesso como foram todas as edições, com quebra de recordes, pessoas se superando. A melhor coisa feita foi o adiamento. Se forçassem a realização este ano, creio que seria um fracasso em termos de conquistas de quebras de recordes e tudo mais. Os atletas não dariam o seu melhor.

Você foi a quatro Olimpíadas e trouxe três medalhas (ouro em Atenas-2004, prata em Sydney-2000 e bronze em Pequim-2008), além de inúmeras conquistas como ter se tornado o segundo jogador que mais venceu etapas do Circuito Mundial na história, com 56 medalhas de ouro. Ainda vai surgir um novo Ricardo? Você apostaria em quem como um futuro sucessor?

O esporte promove sempre superações e quebras de paradigmas. Acredito que vai surgir um atleta para superar todas essas marcas. Eu gostaria que fosse um brasileiro. Mas acho que são momentos distintos, épocas distintas. Eu tive a chance de ter alguns parceiros e com todos eles conseguir conquistas. Isso para você manter uma sequência de vitórias, com times diferentes, se torna mais difícil, pelas transformações do esporte. Tive momentos muito bons com Emanuel, Zé Marco, Loiola, Pedro Cunha, Márcio. Fui vencedor com todos os parceiros, e isso deu a chance de ter esses números tão marcantes.

E a família? Conseguiu reunir toda nos EUA?

Posso dizer que sou um sortudo nesse sentido. Estou procurando aproveitar esse momento para ter todos eles perto de mim. Todos reunidos nesse momento de pandemia. Só meus pais que estão em Salvador e não tenho como ir visitá-los nesse momento, porém, sei que eles estão em segurança. Quando tudo isso passar, eu vou estar perto deles novamente. Eu me acostumei todos esses anos com a ausência, e eles também. Hoje podemos usar um pouco dessa tecnologia para tentar matar um pouco da saudade. O abraço vai ter de ficar um pouquinho mais para a frente.

Qual aprendizado você tira de toda essa situação?

Particularmente, tenho pensando muito e vendo que a vida tem mostrado o quanto nós somos frágeis. Principalmente num momento em que as pessoas precisam se unir mais. É preciso deixar de pensar muito na individualidade e tentar pensar mais no coletivo. Acho que tudo o que nós estamos passando agora é para refletir e ver que a vida poderia ser muito mais simples se pudéssemos nos ajudar. É o momento de você estar com seus familiares, poder viver mais perto deles, se cuidar mais. São coisas pequenas que se tornam grandes. Eu vivi muito tempo viajando, competindo, e hoje estou tendo a oportunidade de estar perto deles, e entender muito melhor cada um. Respeitar mais a individualidade de cada um. A vida tem me mostrado novos caminhos.

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