ESPORTES
Magic Paula: "Oscar é nordestino arretado. Vai sair dessa"

Mais novo nome no Hall da Fama da Federação Internacional de Basquete (FIBA), Paula Gonçalves, a Magic Paula, junta-se a importantes personalidades do basquete brasileiro como Hortência, Amaury Passos, Ubiratan Pereira e Oscar Schmidt. Com a experiência de ter participado de uma das gerações vencedoras do País, ela concedeu entrevista exclusiva ao A TARDE. No bate-papo, por telefone, falou, entre outros assuntos, sobre a nova conquista pessoal, a luta de Oscar contra o Câncer, o basquete brasileiro e os Jogos do Rio-2016.
Você acaba de entrar para o Hall da Fama. Como se sente?
Quatorze anos depois de ter deixado as quadras, é sempre um privilégio você ser lembrada, ser reconhecida, mas eu tenho a plena consciência de que tudo foi construído com uma equipe. Na verdade, eu estou indo representar o basquete feminino, as jogadoras, as comissões técnicas e a minha família, que foi muito importante nisso. Acho que sou uma representante do basquete brasileiro indo buscar um prêmio individual, mas que para mim faz parte de um trabalho desenvolvido junto com muitas pessoas.
A Hortência já estava no Hall da Fama desde 2007. Você tinha esse sonho também?
Não fazia muita expectativa, principalmente após tantos anos. Pensava: o que é meu, será... está reservado. Além disso, também sentia parte da conquista da Hortência.
Além de vocês duas, outros três brasileiros fazem parte desse seleto grupo: Ubiratan, Oscar e Amaury. Acha que a Janete merece um lugarzinho?
Claro. É uma indicação anual. Tenho certeza de que a hora dela vai chegar e não vai demorar muito mais, não.
Por falar em Oscar, como você recebe a notícia de que ele está com uma grave enfermidade? Já estava sabendo?
Até então, sabia o que vocês (imprensa) sabiam. Ouvia e lia as notícias pela televisão, jornais etc. Ele é muito raçudo. Eu que convivi com o Oscar na Record, fomos comentaristas nos Jogos de Londres 2012, sei o quanto ele é forte, para cima. Tenho fé em Deus que, mais uma vez, irá superar essa nova batalha contra o câncer.
O que ele significa para o basquete nacional? É o maior atleta da nossa história?
Oscar é único, singular. Sem dúvidas, o nosso maior representante nacional. Feliz por ser amiga dele. Como brasileira, sinto orgulho por ele ser um típico nordestino, daqueles 'arretados' (Oscar nasceu em Natal-RN), que encara qualquer dificuldade em busca de seus sonhos.
Você e a Hortência sempre brilharam juntas. Eram estrelas e jamais uma ofuscou a outra. Como foi administrar isso? Existia algum tipo de competição ou ciúme?
Ihhhh... (pausa). Faz tanto tempo isso... Estamos bem velhas já. Apesar de termos sido rivais de clubes, conquistamos importantes títulos representando o Brasil. Mas tivemos que administrar, sim, principalmente as vaidades. Se pudesse voltar no tempo, eu colocaria um ponto final nisso (rivalidade)... Perdemos muito tempo com isso.
Vocês são amigas? Se frequentam ou têm algum projeto em comum?
Não ando com a turma dela e ela não anda com a minha (turma). Cada uma segue seu caminho, tem seu estilo de vida. Não temos projetos e só nos encontramos em eventos em comum. É isso! (risos)
Por que o basquete feminino do País não manteve o nível de conquistas após sua geração?
Eu não avalio pontualmente. Acho que o basquete vem passando por um processo já há muito tempo. Nos últimos quatro anos tiveram muitas mudanças de treinador. A gente tem que pensar um pouco mais a longo prazo. Não dá pra ficar pensando só em agora. Que perca de todo mundo agora, mas daqui a quatro, oito e 12 anos a gente tenha uma geração competitiva como antes. Acho que está na hora de parar um pouco e rever como está sendo conduzido e ver que o importante talvez não é ganhar agora, mas conseguir formar uma geração competitiva.
Você deixou de jogar em 2000. De lá para cá, passou pela política, comentou a Olimpíada de Londres e desde 2005 tem o Instituto Passe de Mágica. Como tem sido sua vida depois que você deixou as quadras?
Bastante atribulada. Penso somente no Instituto (Passe de Mágica) que desenvolve o Projeto Plataforma 2016 com recursos incentivados. Basicamente, tem como foco o apoio aos atletas de ponta das modalidades boxe, remo, taekwondo, esgrima e levantamento de peso, e recebe o patrocínio da Petrobras. Não é um programa de fomento, de descoberta de talentos, mas de aposta em atletas que possam competir em alto nível.
Por que ficou tão pouco tempo no Ministério do Esporte?
Já faz dez anos, prefiro não comentar... (pausa, seguida de respiração profunda). Tudo bem, vou ser breve. É simples: fui como referência técnica, porém, quando vi que teria que ser política, não aceitei. Não é meu campo, não faço politicagem. Não quero isso para minha vida.
Já pensou em treinar equipes? Ou em ser dirigente de um clube ou da CBB?
Não penso. Meu negócio é gestão desportiva, nada de quadra. Já deu.
Dá para viver do esporte olímpico no Brasil?
Hoje, dá. O investimento que se tem no esporte é bem grande. Antigamente, nossos salários nem se comparam aos atuais.
A mentalidade do dirigente esportivo mudou desde a época em que você competia?
Acho que eles (dirigentes) estão andando a passos bem lentos. Não se parou, porém, caminhou-se pouco.
Quais os problemas da política de esportes no Brasil?
A falta de projetos e a continuidade dos raros que surgem. Há projetos bons, que são colocados em prática e, de uma hora para outra, somem. Este é um grande problema. Sofremos também com a falta de incentivo da iniciativa privada. Poucas empresas investem no esporte amador, por exemplo.
Carlos Arthur Nuzman (presidente do Comitê Olímpico Brasileiro) afirma que a construção de centros de treinamento e a contratação de técnicos estrangeiros são essenciais para a nossa evolução. Concorda?
Acho que o esporte brasileiro precisa valorizar mais o profissional que está aqui, na iniciação, na formação. A gente fala em formar atleta, mas esquecemos desse importante profissional de educação física. Sobre o técnico estrangeiro, acho mais legal ir lá onde o treinador está, conviver no dia a dia dele. Não sei se o cara vem para cá e nos dá o caminho das pedras. Mas acho que o vaivém é importante. Eu sou a favor dos centros de treinamento, mas pergunto: teremos profissionais para captar talentos?
O que você faz hoje como atividade física?
Hoje, prezo pela qualidade de vida. Minhas atividades são apenas caminhadas e pilates. Apenas isso.
Você foi uma atleta que treinou e jogou muito, sempre em um ritmo muito forte. Hoje, 13 anos depois de sua saída das quadras, sente dores ou tem alguma sequela?
Graças a Deus não sinto nada. Apesar de todo sacrifício diário nos quase 28 anos, valeu a pena por ter essa boa qualidade de vida atualmente.
Você ainda sente que há uma diferença muito grande da maneira que é tratado o esporte masculino e feminino, independentemente da modalidade?
Não mais. Acho que as coisas estão evoluindo o bastante para se equacionar qualquer tipo de possível diferença que pudesse existir. Atualmente, não vejo mais diferença.
Qual é a sua opinião sobre a Rio-2016? Cite os prós e contras sobre esse megaevento que o Brasil sediará.
Todos têm batido na tecla do legado e, quando falam nisso, pensam em ginásios. Mas existem vários tipos de legado, como a questão de políticas públicas voltadas para o esporte, do esporte dentro da escola. Isso é legado social. Acho que temos uma grande oportunidade para rever a política esportiva, não é só chegar lá (em 2016) e ganhar medalhas, mas discutir o que vai se deixar. Qual é a cultura, a mentalidade que vamos deixar para o brasileiro? Temos que focalizar este momento.
Vê possibilidade de medalha para a Seleção feminina de basquete?
Eu acho difícil. Podemos até conseguir se nesses últimos três anos tirarmos o atraso. Mas o basquete masculino tem mais chances. A equipe é muito boa e tem um treinador competente. Eles estão à frente da seleção feminina.
* Colaborou Diego Adans.
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