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Ricardo Silva: “Entrar para história do Vitória é melhor do que ter dinheiro”

André Uzêda e Moysés Suzart, de A TARDE
Por André Uzêda e Moysés Suzart, de A TARDE
| Atualizada em

O Barradão é um cenário perfeito para um papo com o técnico do Vitória, Ricardo Silva. Enquanto ele falava com a equipe do Esporte Clube, a Toca ao fundo transmitia boas lembranças de superação ao ex-jogador, que completou 51 jogos no comando do elenco rubro-negro, seu primeiro clube como treinador profissional.

Na primeira sacudida que sofreu no cargo, contra o Corinthians de Alagoas, em março, foi na Toca onde começou a se superar, levando a equipe a reagir na reabertura do templo rubro-negro, na primeira fase da Copa do Brasil.

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Agora está nas finais sem levar nenhum gol neste torneio no Estádio Manoel Barradas. “Aqui só perdi um jogo, no Baianão, contra o Bahia. Mesmo assim levamos o Estadual”, recorda. Foram 14 partidas naquele gramado e muita história para contar... Ricardo Silva não esconde a vaidade. Antes da entrevista, mostrou-se preocupado com as fotografias para a matéria. "Vê se faz um tratamento na minha pele antes, viu? Quero aparecer bonito", brincou, em tom sério.

Falar dos sete meses de carreira como técnico é motivo de orgulho, merecido. Sabe de cor o número de vitórias acumuladas durante o percurso de treinador, iniciado em janeiro deste ano. Na conversa, adotou a alegria baiana, sem perder o estilo mineirinho de levar a vida. Nascido em Visconde de Rio Branco, a 292 km de Belo Horizonte, Ricardo se emociona quando lembra da antiga terra, da esposa Valéria e dos filhos.

Sem perder a calma, não foge das perguntas sobre sua relação tumultuada com o ex-diretor Mauro Galvão, da fama de "retranqueiro" atribuída a ele pela torcida e parte da imprensa e, claro, sobre a final contra o Santos, no próximo dia 28.

ENQUETE: Você aprova o trabalho de Ricardo Silva no Vitória?

*Colaborou Diego Adans

A TARDE - São 51 jogos como técnico efetivo. O que mudou em Ricardo?
Ricardo Silva - Sempre disse, desde o início, que todo dia vou treinar aqui como se fosse a última vez. Fiquei mais experiente e não existe mais aquele nervosismo de antes. Hoje aprendi a ouvir mais e a falar menos.

Neste tempo no comando, o que você pode considerar como acerto e erro?
Um dos maiores erros foi no início do Estadual. Errei demais no jogo do Itabuna e perdemos, talvez pelo nervosismo do começo da carreira. Já o maior acerto foi contra o Camaçari. Estava 1 a 0 e precisávamos ganhar para classificar. Mudei e empatamos. Pelo fato de ser um treinador novo na carreira, você é sempre alvo de duras críticas quando erra.

Isso incomoda?
Vocês [imprensa] têm o direito de cobrar e criticar. Mas fico chateado quando não me dão espaço para esclarecer. Contra o Grêmio, coloquei Vilson porque não tinha volante no banco. Também não admito que digam que meu time não tem esquema tático. O que me incomoda é que os repórteres que falam besteiras nem aqui no treino vêm...

Muitos acreditavam que você só ficaria até a final do Baiano. Você mesmo não sabia se continuaria no clube, não é?
Tenho mulher baiana, filhos baianos e já fui campeão baiano na base. Meu objetivo era ser campeão baiano pelo time profissional do Vitória. Quando conquistei, achei que havia cumprido meu papel. Minha esposa disse que eu já havia provado minha competência. Eu disse a Alexi Portela [presidente do clube] que já podia sair, pois o combinado era este. Mas Alexi confiou e pediu para continuar. Teríamos o Vasco pela Copa e não podia abandonar o barco. Ali foi minha prova de fogo. Quando o Vasco fez o terceiro gol lá, levantei as mãos para Deus e disse: ‘ Se tiver que ser treinador, vamos classificar. Se formos eliminados, deixarei de ser técnico’.

"A maneira que Mauro Galvão falava do meu trabalho me incomodava"

Imagem ilustrativa da imagem Ricardo Silva: “Entrar para história do Vitória é melhor do que ter dinheiro”
Foto: Haroldo Abrantes / Ag. A TARDE

Ricardo Silva em seu escritório, no Barradão

Tinha gente dentro do clube que não acreditava no seu trabalho. Isto também influenciou na sua decisão em permanecer?
Posso escutar sugestões de jornalistas, dirigentes e diretores. Mas quem coloca o time e muda sou eu. Não tenho a experiência de muita gente, mas tenho que ter personalidade [tom irritado].

Era Mauro Galvão?
A maneira que ele falava do meu trabalho me incomodava. Nunca vou deixar de ouvir as pessoas e aceitaria sugestões dele. Mas Mauro, depois dos jogos, nem me cumprimentava. Quando ganhava, não falava. Quando perdia, ficava com cara fechada. Isto me machucava muito.

Ele prejudicou você no clube?
Bem... [pausa]. Não sei se me prejudicou. Teve o lance da vinda de Carpegiani e eu sabia que eles eram amigos pessoais. Mauro estava certo que eu sairia no jogo do Náutico, pela Copa do Brasil. Mas vencemos e depois do jogo ficou aquela tensão. Mário [Silva, supervisor] e Alexi me elogiaram. O Mauro Galvão não me falou nada e eu saquei tudo. Aquele triunfo me salvou...

Suas vitórias aconteceram e Mauro perdeu força. Você venceu a quebra de braço?
Não sei... Pode ser que sim. Falo por mim. Minha esposa me aconselhou fazer meu trabalho e esquecer Mauro Galvão. Diziam até que ele queria ser treinador no meu lugar. Fiquei na minha. Quem faz o bem, colhe o bem. Quem faz o mal, colhe o mal...

O novo diretor Carlito Carine foi um ganho para você, então?
Para o grupo todo. Mauro era muito na dele, né? Devagar... O Carlito é mais aberto, gosta de cumprimentar. Já esteve na minha sala, coisa que Mauro nunca fez.

E a Copa do Brasil? A imprensa sulista já aponta Santos como franco favorito...
Não tem favorito. Acho 50% de chances para cada. Não podemos temer ninguém. Rapaz, deixa o Santos achar que é favorito... Não são 11 contra 11 [risos]?

O Santos está renovando contrato com seus jogadores, certos da vaga na Libertadores...
Isso favorece muito nosso grupo. Deixa eles falarem o que quiserem. No jogo contra o Grêmio, vi as emissoras assegurando que eles venceriam o Vitória. Isso dá força para mostrar quem somos. Depois do jogo contra o Grêmio, saíram falando que dei um nó tático em Silas...

São dois jogos para o Vitória ganhar o primeiro título nacional. Muito ansioso?
Não. A Copa do Brasil é interessante para minha carreira. Desde o primeiro jogo, quando perdemos para o Corinthians de Alagoas por 3 a 1, eu balançava mais que aquelas varas de bambu [risos]. Depois de tanto sacudir e estar na final, outro dia o pessoal da ESPN veio me entrevistar e eu fiquei pensando: 'É... esse pessoal aqui comigo, quem diria. Quanta diferença'.

"Hoje, seria o Lee (o substituto de Viáfara na final da Copa do Brasil)"

Imagem ilustrativa da imagem Ricardo Silva: “Entrar para história do Vitória é melhor do que ter dinheiro”
Foto: Haroldo Abrantes / Ag. A TARDE

O treinador se emociona ao falar da esposa Valéria

O goleiro Viáfara não vai poder jogar. Já tem o substituto?
Temos o Lee e o Vinícius. Mas essa escolha não é só minha. Eu diria que essa escolha é 51% do do Luciano [preparador de goleiro] e 49% minha.

Mas hoje você decidiria quem?
Hoje, seria o Lee...

O que muda na sua vida, caso conquiste o título?
Acho que não muda nada.

Claro que muda, Ricardo!
…Isso vai depender de vocês me darem moral [risos]. Quando a gente é campeã começa a decolar, claro! Mas se for para ganhar a Copa e não ser mais treinador depois, eu prefiro ganhar a Copa do Brasil. Juro!

E como está sua cotação no mercado? Propostas?

Para falar a verdade, a minha ficha nem caiu. Estou super feliz agora que recebi um aumento do Vitória, e já vou adiantando que não é grande coisa, mas já dá para fazer um churrasco [risos]. Quero fazer um degrau por degrau.

Você enrolou e não respondeu sobre propostas...
Eu não sei bem, por que eu não tenho empresário. Soube que teve uma época que o Avaí me queria, depois que o Pequinho [Péricles Chamusca] saiu. Foi até a imprensa que disse.

Chegaram a procurar você?
Quanto a isso, deixa quieto [risos].

Vencer a Copa também o coloca na história do clube...
Ganhar a Copa é entrar para a história do Vitória, o que já é melhor do qualquer dinheiro. Se for para ser campeão e depois ir pescar lá na minha cidade, eu aceito.

Chega a ser uma obsessão?
Obsessão, não. Mas é um sonho ver o Vitória campeão. Acho que se conquistar o título posso falar para a minha esposa que vou embora pescar na minha cidade. Aposto que ela falaria: 'Está louco!'.

Parece que sua esposa tem muita influência na sua vida...
Eu nem quero falar... Ela realmente é a minha força [fala emocionado]... Ela é minha mulher, minha companheira, minha mãe, minha esposa e amiga. [pausa]... Devo muita coisa a ela, principalmente nos momentos mais difíceis. [Lágrimas dos olhos]. Nessa vocês me pegaram...

Como é sua família?
Tenho minha esposa Valéria e dois filhos. O mais velho é Ricardo, com 28 anos. E Breno, com 22 anos.

Jogaram bola?
Não, infelizmente. Até tentaram, mas não levam jeito. Um dos dias mais tristes foi quando tive que dizer a eles que era melhor estudar, porque não tinham muito talento [risos].

Você se mostra muito religioso. Qual sua devoção?
Eu não gosto muito de falar disso. É coisa minha.... Mas, vou falar para vocês uma coisa que vai acabar dando uma pista da minha devoção. No jogo que a gente ganhou do Corinthians [de Alagoas] eu vim caminhando com Alexi, Flávio [Tanajura, auxiliar], Ednílson [Sena, fisioterapeuta] e Luciano do Barradão até o Imbuí, na Igreja de Nossa Senhora Aparecida.

Mantém a raiz mineira?
Claro! Eu comecei jogando em Minas, em Visconde de Rio Branco, minha cidade. Tinha João Cigano e Zé Fogo, que me ensinaram muitas coisas. Lá sempre acompanham os meus resultados. É uma cidade pequena, todo mundo me conhece. Amo Salvador, mas o que mata hoje é o trânsito, e isso não tem lá. São minhas duas casas.

Então o Vitória tem um cantinho lá em Minas...
Ah, tem sim. A Rádio Cultura de lá tava querendo transmitir a final da Copa do Brasil. Eles me ligam direto. As vezes ficam sem muito dinheiro e só tão um toque. Aí eu retorno... Acima de tudo, se tornou um torcedor do Vitória? Sou Vitória. Respeito também o Bahia, onde comecei. Eles já ganharam o seu título nacional e chegou a hora de o Vitória ganhar o seu também. 

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