CADERNO IMOBILIÁRIO
Mais de 25% dos imóveis na Bahia estão desocupados
Censo apontou que número de domicílios não ocupados tem crescido no estado

A cada dez anos, os Censos são feitos e, com frequência, mostram mudanças na população. Desta vez, depois de 12 anos sem o levantamento, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou para uma novidade nas moradias baianas: o número de domicílios não ocupados tem crescido no estado. Eles correspondem a 25,79% dos imóveis particulares. É como se, em um prédio com 100 apartamentos, 25 deles estivessem vagos ou sendo usados apenas ocasionalmente. As explicações para isso podem ser várias, entre elas, especialistas citam a popularização dos aplicativos de locação por temporada e mudanças pós-pandemia no comportamento dos moradores e proprietários.
Supervisora de Disseminação de Informações do IBGE na Bahia, Mariana Viveiros explica que os imóveis não ocupados se dividem entre os vagos – aqueles que por algum motivo não têm alguém morando – e os de uso ocasional, que são usados eventualmente, como um sítio, uma casa de veraneio e até apartamentos para locação por até 90 dias, as chamadas temporadas. Na Bahia, esses domicílios, segundo o Censo de 2022, somam aproximadamente 1,8 milhão de imóveis, enquanto os ocupados permanentemente representam 6,8 milhões (74,01%).
Entre os dois Censos anteriores, em 2000 e 2010, era como se os domicílios não ocupados de um prédio com 100 unidades somassem apenas 18 apartamentos. Nesse período, eles não mostraram grandes variações, saíram de 18,08% em um ano para 18,76% dez anos depois. Foi no Censo de 2022 que esse número cresceu, com uma diferença de sete pontos percentuais quando comparado à pesquisa anterior.
Usos ocasionais
Entre as casas de veraneio, sítios, apartamentos para locação temporária e outros imóveis que são usados ocasionalmente, o crescimento nos últimos 12 anos foi de 3,2 pontos percentuais ou 341.491 unidades no estado. A casa da aposentada Juciara Nascimento na praia de Subaúma, no município de Entre Rios, é uma delas.
Juciara mora em um apartamento no bairro de Itapuã, em Salvador, mas adquiriu a casa de veraneio no Litoral Norte há oito anos, para passar alguns finais de semana e feriados com a família unida perto da praia. Nos outros períodos, o imóvel costuma ficar fechado, mas sob a vigilância da irmã de Juciara, que mora ao lado. O imóvel nunca foi alugado, mas a aposentada já está pensando nessa possibilidade.
“Nunca pensei em vender essa casa. Na verdade, quero vender outros imóveis que tenho em Fazenda Grande II e na Liberdade. Esses têm aluguel fixo, mas acaba dando muito trabalho. Antes, era meu marido que administrava, depois que ele faleceu tive que tomar as rédeas, mas elas dão muita dor de cabeça. Quero ficar só com a que eu moro e a de Subaúma”, planeja Juciara.
A aposentada não conhece o Airbnb e nem outras plataformas de aluguel por temporada, mas ela já sabe que esse será o tipo de contrato na locação da casa de praia dela. A supervisora do IBGE acredita que foi justamente a popularização desses aplicativos que ajudou a espalhar a ideia da temporada como uma possibilidade para proprietários de imóveis e que consequentemente contribuiu para o aumento do número de imóveis de uso ocasional.
“Não conseguimos mensurar quanto isso influenciou, mas, com certeza, ter uma plataforma disseminada, que organiza e facilita toda a transação faz muitas famílias que antes nem pensavam em alugar por temporada passar a cogitar. Sempre tivemos aluguel por temporada, mas não nessa intensidade”, afirma Mariana Viveiros.
Apesar de ter suas ressalvas a esse tipo de aplicativo, José Alberto Vasconcelos, que é dono de imobiliária e segundo vice-presidente do Conselho Regional de Corretores de Imóveis da Bahia (Creci-BA), não tem dúvidas que eles trouxeram mudanças para as moradias e seu mercado.
“Sem dúvida, o Airbnb e seus similares deram uma multiplicada no mercado. As pessoas passaram a alugar mais, levantou-se essa ideia, impulsionou mais. Em contrapartida, já ouvimos também muitas queixas principalmente pela falta de humanização, porque a locação é uma administração e um contrato que não são tão simples", avalia o corretor.
De acordo com Vasconcelos, o mercado de locação vive um bom momento para os proprietários, com preços elevados e escassez de unidades disponíveis. Apesar disso, o corretor revela que existem muitos imóveis fechados sem uso, aqueles que são classificados como domicílios vagos e que nos últimos 12 anos tiveram um crescimento de 3,8 pontos percentuais ou mais de 480 mil unidades.
É o caso, por exemplo, de uma casa que Juciara tinha na Ilha de Itaparica. Por conta das condições do imóvel, a família não usava nem eventualmente e ele acabava ficando fechado. A aposentada conta, no entanto, que, por conta disso, a propriedade acabou sendo vítima de furtos e vandalismo e hoje é praticamente o apenas o terreno.
Segundo o corretor, na maioria desses casos, os imóveis vagos acabam não sendo alugados por receio do proprietário. As principais preocupações, de acordo com ele, são a inadimplência e a conservação da propriedade.
“Realmente dá medo porque não é um contrato simples e não é uma venda, que se encerra em poucos dias. Mas, com uma imobiliária de confiança esse receio é superado, porque tem profissional fazendo vistoria do imóvel e a taxa de inadimplência, aqui na minha imobiliária por exemplo, é menor do que 2%”, afirma”
Mas, assim como existem situações semelhantes à de Juciara e de proprietários com receio da locação, a supervisora do IBGE cita também casos que se tornaram comuns durante a pandemia. “Em Salvador, por exemplo, tivemos muitas pessoas que, nesse período, fizeram uma troca de imóvel, geralmente foram passar um tempo em outra cidade, e não retornaram. O domicílio daqui, então, acabou se tornando não ocupado”, explica.
Ainda segundo Mariana, apesar do aumento, Salvador, por ser uma cidade turística, sempre teve um percentual relevante de imóveis não ocupados. No Censo 2022, foram contabilizados mais de 250 mil domicílios nessa categoria, o que representa 20,8% da cidade e um crescimento de mais de 10 pontos percentuais em relação ao levantamento anterior.
As cidades litorâneas, com perfil de veraneio costumam, segundo a supervisora do IBGE, apresentar maiores índices de imóveis não ocupados. É o caso, por exemplo, do município de Saubara, que tem apenas 32,52% de seus domicílios ocupados, menor taxa do estado. Logo em seguida aparecem Mata do São João (52,31%) e Itaparica (45,92%).
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
Participe também do nosso canal no WhatsApp.
Compartilhe essa notícia com seus amigos
Siga nossas redes
