CADERNO IMOBILIÁRIO
Morte de bancária reacende alerta sobre segurança em prédios
Especialistas dizem que, além de investir em tecnologia, o aparato humano é crucial

A morte por emboscada da bancária Rita Maria Brito Fragoso e Silva, 62, dentro da própria casa por um ex-prestador de serviço, há cerca de duas semanas, reacendeu o alerta em torno da questão da segurança nos condomínios. No residencial em que a vítima morava, no Itaigara, bairro nobre da capital baiana, não há portaria –, apenas câmeras de monitoramento interno.
A polícia apurou que o criminoso, que por duas vezes esteve no local fazendo trabalho de marcenaria, valendo-se dessa vulnerabilidade, além do fato de Rita viver sozinha, premeditou a ação. O ataque chocou por vários motivos: violência empregada, causa infame, fator surpresa, não chance de defesa. Ele acessou o edifício no momento em que um morador saía pelo portão.
Especialistas ouvidos por A TARDE chamam a atenção para importância dos cuidados com a segurança, a questão do investimento necessário, e o aumento das investidas criminosas de uma forma geral. De acordo com os analistas, para além da tecnologia, o aparato humano ainda é crucial. Ainda segundo eles, economizar nessa área pode representar mais chances de risco.
“A economia de alguns reais não paga a vida. Pessoas desavisadas acreditam que a atitude de economizar R$ 100 pode fazer a diferença, mas não lembram que podem ser elas as vítimas, ou a mulher, o filho. Segurança eletrônica é auxiliar da humana, sozinha ela não resolve. Às vezes nem o porteiro resolve”, diz o presidente do Sindicato da Habitação na Bahia (Secovi), Kelsor Fernandes.
Ainda de acordo com ele, apesar de “lamentável”, o caso de Rita, contudo, teria sido um episódio “isolado”.
“Um desequilibrado, com alto nível de deliquência, se valeu da ausência de um porteiro, capaz de barrar a entrada de alguém já não autorizado. E alguém que não imaginava foi desatento com o portão. É preciso muito cuidado, e a atenção de todos. Veja os casos de femicídio se repetindo todo dia, a vida humana perdendo o valor. Em última instância, o nosso lar é um local sagrado”, fala Fernandes.
Na última semana, a polícia de São Paulo prendeu uma quadrilha especializada em roubos a condomínios de luxo. Os três jovens, entre eles uma garota, tinham ‘boa aparência’. Usando roupas de academia, ela se ia até os endereços fingindo ser moradora.
Depois de algum tempo circulando pela área comum, voltava à portaria e liberava a entrada dos dois comparsas. O trio é acusado de, em dez meses, invadir mais de 30 apartamentos na capital paulista e saquear perto de R$ 1 milhão.
Aqui em Salvador foram registrados 37 roubos à residência em 2020, índice 57% menor que o verificado no ano anterior (64). Os dados, no entanto, são os últimos referentes a esse tipo de delito na capital.
A Secretaria de Segurança Pública (SSP) não explicou o motivo de não ter publicado a estatística de 2021, bem como deste ano. Os números foram solicitados à assessoria de imprensa nas duas últimas semanas.
Com cada vez mais casos de violência batendo à porta, o gestor de segurança patrimonial no Grupo Solução & Cia, Almir Serravale, pontua que “gasto com segurança não é custo, mas investimento”. Serravale atua no setor desde 2008, e possui experiência em grandes empresas. Atualmente é supervisor operacional em um condomínio de alto padrão no Horto Florestal, com quatro torres de 24 pavimentos, e mais de 800 unidades.
O efetivo lá é de três agentes de portaria mais dois vigias na ronda, com turnos de 12 horas a cada 36 horas, e ele diz que ainda assim a quantidade deveria ser maior. Na distribuição das tarefas, um fica no interfone, com ligações e liberações; outro no controle do acesso de veículos; e o último com o de pedestres. No local há catracas, eclusas e portões. Os outros dois vigias fazem ronda no perímetro interno.
Em sua avaliação, precisaria de mais três, ou até cinco trabalhadores por turno, “para uma segurança mais assertiva”, diz.
“Os condomínios querem reduzir custos, sem enxergar que se trata de investimento (em segurança). A criminalidade só aumenta, está sempre um passo à frente no modo de agir. Eles estudam a burla. Isso sem contar os condôminos que não colaboram, e a todo custo querem burlar as regras, o regimento interno, fragilizando segurança de todos”.
No caso do Itaigara, Serravale acredita que “um funcionário no edifício inibiria” a ação do meliante. “A vulnerabilidade facilitou o ataque. Nem a câmera foi capaz de detê-lo. A pessoa usa máscara, boné, óculos. A presença humana ainda faz a diferença”, afirma.
Síndico profissional responsável pela administração de nove empreendimentos, sendo sete residenciais e dois comerciais, João Xavier destaca que a segurança em condomínios deve ser composta do “tripé” colaborador bem treinado, auxílio tecnológico, e a consciência de todos os moradores.
“Segurança nunca é feita por um elo só, mas uma engrenagem que precisa rodar. A participação dos condôminos no processo é fundamental. Tem gente que às vezes reclama de ter de baixar o vidro do carro, acender a luz interna para identificação pelo porteiro, mas expõe toda a vida em redes sociais na internet”, diz.
“As câmeras são um auxílio, mas o morador precisa comunicar à portaria a data de chegada de um visitante, de um prestador de serviço, informar número de identidade (RG), horário de entrada e saída desse funcionário, a data final do serviço”, fala Xavier.
“Evento carona”
Em um dos residenciais ele conta que criou uma “vaga de segurança”, na qual um morador que chegue e estacione no local está “sinalizando que algo está acontecendo”, e que a polícia deve ser acionada. E diz que veículo de prestador de serviço nunca deve usar vaga de garagem de morador, apenas a área de carga e descarga, “e acompanhado”.
“É muito comum, por exemplo, o furto de equipamento de combate a incêndio, como mangueira, esguicho e luminária de emergência. Em um residencial tivemos um prejuízo de R$ 45 mil de uma vez só, e depois ficamos sabendo que esse é um foco, o furto desses materiais. Ele tinha parado o veículo próximo ao local”.
O aumento nos casos de violência levou o condomínio administrado por Fabiane Oliveira a reforçar e divulgar, no grupo de Whatsapp dos moradores, e através de avisos nos elevadores e dependências comuns, avisos com regras para um maior cuidado com a segurança. Entre as dicas estão a atenção ao sair e chegar pelo portão de pedestre. “A regra é nunca liberar o acesso de estranhos, evitando o chamado evento carona”, diz.
O mesmo vale para veículos. Uma das mensagens fala que, durante os segundos de portão aberto após a entrada do veículo, o morador deve aguardar o completo fechamento do mesmo, até seguir para a vaga de estacionamento; e para desconfiar se outro carro entrou no mesmo acionamento. A mensagem diz ainda que descuidos “fragilizam a segurança de todos”.
O condomínio conta com estrutura de portaria remota 24 horas, ou à distância. Durante o dia trabalham Sheila, supervisora do local, e um auxiliar de serviços.
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
Participe também do nosso canal no WhatsApp.
Compartilhe essa notícia com seus amigos
Siga nossas redes
