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A arte em expansão pelo corpo da palavra

Artista Deisiane Barbosa se vale da potência das palavras nos processos de criação de experimentações poéticas

Priscila Miraz*
Por Priscila Miraz*

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Cartão-postal 13 de maio une texto e fotografia
Cartão-postal 13 de maio une texto e fotografia - Foto: Divulgação

Deisiane Barbosa é um corpo-casa tentacular caminhando em expansão/retração, equilíbrio proporcionado pela palavra aberta, pelas agulhas que costuram livros, pela coreografia de seu corpo em performance coordenada por sua voz que recita, pelos pés que levam até tão longe as histórias de Terezas e as vozes múltiplas escutadas na sombra da amendoeira da casa de seus avós, casamendoeira, casa-livro-dança-atelier-residência artística (@casamendoeira), que tem no corpo de Deisiane a possibilidade de caminhar pelo mundo e de recebê-lo em seu território, o Povoado do Cruzeiro: “Não há percurso que eu trace/ onde eu não leve a casa nas costas”, diz Deisiane em seu livro de poesias Desavesso, de 2016.

A palavra escrita, a palavra recitada e desenhada pelas mãos e pelo corpo que performa é a inflexão que articula essa movimentação intensa da artista múltipla, que redireciona os passos andarilhos nos processos de criação de livros expandidos, videoperformances, fotografias, instalações, cartas em trânsitos inusitados pelas ruas e casas desconhecidas em suas intervenções urbanas.

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Impossível pensar a produção de Deisiane sem se deparar com a necessidade de complexificar e problematizar as distintas narrativas que se vinculam à condição de contemporaneidade das artes.

A historiadora da arte Andrea Giunta afirma que se a arte contemporânea é arte do presente, é um presente atravessado pelos rastros de tantas outras temporalidades num fluir desorganizado que cria espaços para uma relação singular do artista com o próprio tempo, aderindo e tomando distância desse presente.

O ser com-tempus – estar com o próprio tempo – é integrar-se na vertigem do acontecimento e percebê-lo no próprio movimento que o faz existir, utilizando-se dessa maneira dos problemas da contemporaneidade artística presentes nas relações com as linguagens, estratégias de comunicação, técnicas e materiais, assim como com os temas e problemas desse presente eivado de temporalidades distintas.

Dessa maneira, Giunta interroga a arte na América Latina a partir das tensões específicas do mundo contemporâneo, sustentando a invalidez do antigo sistema centro-periferia, propondo a noção de “vanguardas simultâneas” para analisar obras a partir de uma lógica global, mas que se ativam em situações específicas das diversas realidades dos territórios latino-americanos.

Nascida em São Félix, Deisiane explora as muitas possibilidades de criação com o território em seus trabalhos, assinalando esse outro elemento fortemente presente nas artes contemporâneas em relação com o tempo. Tempo-território-palavra podem, então, ser mobilizados como os eixos de aproximação às experimentações poéticas múltiplas, práticas pautadas por um gesto de transversalidade que desafia categorias estanques e rótulos muito definidos dessa artista que transita pelo Povoado do Cruzeiro, Cachoeira, São Félix, Feira de Santana, Itaparica, Salvador, Olinda, Recife, Salgueiro, Serra Talhada e Angola.

Nesse sentido, o trabalho Cartas à Tereza pode ser uma forma de entrarmos em contato com a densidade expansiva da produção da artista, pois é uma produção extensa quando pensamos em suas várias formas, suportes e linguagens como pesquisa acadêmica, performance, livro, instalação, e-book, vídeo e dança, mas também em sua duração, já que Cartas à Tereza é um projeto que completa uma década em 2022.

Conto fantástico

A primeira Tereza surgiu em 2011. Em um conto fantástico escrito em forma de carta, uma moça se desmancha pelo desfiar de uma trama, como se fosse tecida em crochê. Em 2013, se torna a performance A moça que desfiou, apresentada na III Mostra de Performance – Imagem e Identidade da Escola de Belas Artes da Ufba.

A partir desse primeiro exercício, Tereza permaneceu como personagem-destinatário de Deisiane, que deu continuidade às cartas e procurou outras Terezas, criando para isso um processo artístico de pesquisa, de criação de arquivo de memórias para tantas mulheres Terezas destinatárias das cartas-expandidas.

Tereza surge inventada e se multiplica ganhando traços biográficos de pessoas próximas, como da avó da artista. É um projeto que desborda os limites do livro, da página impressa, configurando uma obra que não pode ser plenamente compreendida se nos restringimos apenas à estrutura de um suporte específico.

O processo de Deisiane pontua muito bem o que afirma a pesquisadora argentina Florencia Garramuño, que, partindo da literatura latino-americana e brasileira, explora o conceito de arte inespecífica e aponta para como a estética contemporânea está atravessada por diversas propostas não classificáveis, e que em muitos casos o nomadismo e o movimento constante pelos espaços, lugares e subjetividades, afetos e emoções resultam em operações que se expandem em explorações literárias que justapõe ficção e fotografia, imagens e memórias, autobiografias, e-mails, cartas, vídeos, ensaios, textos documentais, pesquisas acadêmicas.

Na exploração poética de Deisiane com as Cartas à Tereza, além da performance A moça que desfiou (2013), surgem ainda o vídeoarte Os dias circulares; a vídeo-carta 23 de janeiro; a publicação da série de cartões-postais Cartões postais à Tereza/caixa de entrada, que une texto e fotografia e que incluía em sua execução a distribuição dos cartões nas caixas de correio; a intervenção urbana/instalação Cadê Tereza?, que se desdobrou em um banco de dados virtual em que foram catalogados vários perfis/personagens Tereza; a intervenção urbana com a série dos Cartões-postais à Tereza/Cachoeira.

Em 2015, foi publicada uma edição independente de 100 exemplares de Cartas a Tereza: fragmentos de uma correspondência incompleta, um livro-objeto produzido artesanalmente.

Em 2021, Cartas à Tereza teve uma segunda edição, revista, ampliada, primeiro em e-book e depois numa edição impressa, projeto que teve apoio financeiro do Estado da Bahia através da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Programa Aldir Blanc Bahia) via Lei Aldir Blanc.

Em meio a essas produções, a artista também inicia seu trabalho como editora independente com a Andarilha Edições (https://andarilhaedicoes.com.br/), se especializando em pequenas tiragens feitas à mão.

Deisiane é poeta do chão que dança as outras possibilidades da matéria com corpo e voz emprestadas das coisas do mundo. Nas conversas com as tantas Terezas, a artista cria todo um espaço-tempo acessado pela palavra-corpo-casa em sequências de ações que imaginam as possibilidades da vida em estado de arte: “23 de janeiro,/ Tereza, preciso viajar. faz tempo, aprontei uma mala e a deixei ao canto do quarto. álbuns, cadernos, cartas, roupas guardadas no esquecimento, peles deslembradas do corpo./ é que não sei partir em desordem. simplesmente partir. largando tudo revirado ~ seguir com tudo revirado no avesso./ há tempos estou a um passo de ir, à espera do caminhão sempre vindo. esgotei da espera. já desfolhei não sei quantos calendários e ainda agora não soube ao certo um novo paradeiro”. O passo, o caminho, a viagem, as malas, a espera pela viagem, a volta e todas as emoções e sensações que estão atreladas ao movimento aparecem mobilizadas como potencialidades através das hibridizações de seus trabalhos.

Erranciar é um método de vivência artística em que Deisiane utiliza a lomografia [espécie de movimento dentro da imagem fotográfica e que, no vídeo, faz uma sobreposição de movimentos lentos] para captar os movimentos que nos aparecem em videoperformances, como em casamendoeira, um palimpsesto/ ação 1 (2022), em que o corpo da artista investiga os silêncios, a voz, a narrativa em seu corpo no gesto de fricção com o corpo da casa.

Esse seu projeto atual, casamendoeira, já é um longo processo de reforma da casa de sua infância em que muitas das relações familiares, das intimidades dessas relações, da casa em si que estão já nas Cartas à Tereza, toma novamente o movimento expansivo agora como espaço para abrigar uma residência artística. É também parte dessa ação a publicação do livro casamendoeira, em processo de edição no momento.

Deisiane dá, assim, continuidade às conexões entre diferentes campos da estética, transgressões de fronteiras, de limites de campos que propiciam cada vez mais novas formas de organização do sensível em busca pelos entrecruzamentos como uma condição de possibilidades, de horizontes para as práticas contemporâneas que aborda a literatura como um campo que não se fecha em si mesmo, mas que se movimenta em direção de tudo o que lhe é estimulante, tendo no corpo da artista um ponto de mutação.

*Doutora em História Cultural e professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) | [email protected]

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