CRÔNICA
A Bela mais tarde
Confira a crônica da Muito deste domingo, 10

Duas vezes e meia balzaquiana, Lídia vinha andando, serelepe, pensando em qualquer coisa, menos nos galanteios que recebia quando jovem, sepultados faz algum tempo. Eis que, ao passar por um boteco desses com mesas no passeio, recebeu um alegre “I love you!” de outro coroa, mais moço e ainda bonitão, vestindo uma camisa do Bahia. Sorriu, fez sinal de positivo e seguiu caminho. “Linda!”, gritou o torcedor. Ela sorriu de novo e repetiu o gesto com o polegar.
Ia entrando no carro quando o cara bradou: “Vou tomar um banho e volto! Venha ver o jogo comigo! Vamos namorar!” – Tá bom! Deu partida e foi pra casa mais faceira que antes, não porque tivesse a intenção de atender ao convite nem pela lisonja de um anônimo, ressuscitada do milênio anterior. Somente encantada pelo alto-astral da situação, Coroa de Pernambués, cheia de graça, se fazendo do nada, à toa como tantas coisas belas.
O marido brincou: “É pra eu me preocupar?” – Não, não fui assistir ao jogo com ele, engraçadinho! Entretanto, ficou pensando, uma vez que nossa língua contempla o modo subjuntivo: Vai que eu aparecesse, déssemos uns amassos ali mesmo, durante o Ba-Vi, e depois PT, saudações? Num acontecimento sem vergonha e sem hífen, inconsequente, libérrimo, simplesmente bonito de se viver?
Teve experiências assim na juventude, breves e felizes, mas sem a percepção de seu significado. Parece que só as rugas compreendem o que não se deslinda quando somos jovens, vida correndo sem a necessidade de contemplação. Me espantou certa vez, ainda novinha, quando li alguém dizendo que as personagens de Romeu e Julieta não deveriam ser interpretadas por adolescentes, como no filme de Franco Zeffirelli que vi umas 20 vezes, porque só atores mais calejados seriam capazes de transmitir a dimensão daquela tragédia. “Como assim, dois velhos fazendo Romeu e Julieta?” – me perguntei, perplexa.
Existe, portanto, a camada da vida que é experimentada, ponto. E uma diversa, constituída de vivência e reflexões. Sempre, ou quase sempre, posterior, a não ser que o elemento seja um pensador que se ocupe em abstraí-la, dissecá-la ainda em carne viva, sangue pulsante jorrando. Prerrogativa de poucos, ou maldição; será que um organismo em pleno vigor quer lá saber de se autopsiar?
Lídia me ligou pra contar do gatão de meia-idade com camisa do Bahia e o pedido de namoro, como era de praxe em nossa adolescência, mas sem o ritual que se dava então: o cara anunciava a um amigo que estava a fim da menina; o amigo revelava o desejo a uma amiga da menina; uma rede se formava em prol do romance; o pedido só se concretizava mediante a certeza de que a resposta seria afirmativa. Burocracia retada. Costumamos, porém, guardar com carinho o que nos compõe.
Não era pra eu ter elucubrado tanto! – me disse Lídia quando lhe enviei o rascunho desta crônica. Ah, minha amiga, agora o que foi seu me pertence, faço dele o que quiser, assim como os leitores interpretam como querem os textos que expiramos. Fiz da sua experiência uma oportunidade de arrebatamento, instante de suavidade, polegar afirmando frescor raro e inesperado. Seu, meu, de nós todos, dedão contente por um encontro fortuito com outro ser humano querendo namorar, o que só se realiza entre dois (ou mais).
E como agora Gil Bakunin, o gato, se acomodou entre mim e o teclado, me vejo na impossibilidade de ir adiante nas filosofices. Tô aqui na ginástica entre letras e partes de corpo peludo e urgente, e se não respeitar a medida certa de carinhos, levarei uma zunhada merecida. Momento de poesia árdua, localizada em algum lugar entre afagos e garras.
Achei tão inspiradores a Lídia que vem e que passa e o Tom & Vinícius torcedor do Bahia! Mas vai que o bonitão só queria se dar bem como macho, da mesma forma que fez quando rapaz, as garotas fascinadas sendo tachadas de fáceis. Agora você estaria de igual para igual, e fique sabendo que as coisas mudaram, na marra. Mané I love you.
De todo modo, foi um momento poético. Capaz de você nunca mais me contar nada, querida amiga, porque vou fazer render. Nem poderia – já se foi desta dimensão, arrastando levemente a perna direita, vítima da falta de vacina contra a paralisia infantil, enquanto eu tive a bênção de pais que me garantiram membros saudáveis, só marcados pelos tantos tropeços e arranhões felinos.
*ró-Ã é autora de Dor de Facão & brevidades
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