CRÔNICA
Amiga do Ex
Quando nos separamos, havíamos mudado tanto, que a ideia de nos tornamos amigos me parecia inconcebível


Quando nos separamos, havíamos mudado tanto, eu e ele, que a ideia de nos tornamos amigos me parecia inconcebível. Ele não era uma má pessoa, não é isso, mas as mágoas de uma separação não são fáceis de superar e a amizade precisa de um terreno seguro para florescer. Ele não era mais um terreno seguro, não para mim.
Nos conhecemos no auge dos meus vinte e poucos anos, quando eu fazia intercâmbio em Londres. Na época, eu estava sofrendo de paixonite por um colombiano meio estranho e manipulador, que achava que se vestia bem e transava mal. Ele, por sua vez, era um cara francês de mãos gigantes e coração mole, que conhecia um bocado sobre comida, bebida e outras distrações menos lícitas.
Tínhamos amigos em comum, ele já tinha até ficado com uma amiga minha, mas ela terminou se enchendo da cara dele. Fora isso, não nos falávamos muito, até o dia em que nos encontramos no show de Chemical Brothers, numa boate badaladinha da cidade e, de uma hora pra outra, como costumam ser as coisas do meu coração, nos conectamos irremediavelmente. Eu passei a frequentar muito a casa que ele dividia com nossos amigos, assim como o quarto dividido com outro francês, com um beliche e uma cômoda, onde tínhamos que nos revezar para todo mundo poder transar em paz.
Esse tempo bom da vida em comunidade durou pouco. Quando eu menos esperava, já era hora de voltar para o Brasil, passamos uma última noite juntos e ele prometeu vir me visitar. Continuamos a conversar por Facebook e, embora em 2010 o Skype estivesse em alta, não era como estar a uma ligação de WhatsApp de distância. Ele veio para o carnaval e nós tivemos um verão incrível, ele prometeu que voltaria e voltou - um ano depois estávamos morando praticamente juntos em Salvador.
Como de hábito, o tempo passou voando e fomos novamente forçados a confrontar a realidade da distância. Dessa vez, eu me deslocaria para a Europa, mas para isso precisávamos de documentos e afins. Decidimos nos casar e o resto é história. Casei, vivi feliz por um tempo, mas odiei a França. Tudo parecia raso demais, alienado demais e eu sentia que não conhecia a pessoa com quem havia me casado, como se o lado francês dele tivesse ganhado espaço demais, uma vez na França. Nota de esclarecimento: a minha opinião sobre os franceses em geral não é muito boa.
Depois de cinco anos de casamento, terminei o mestrado, me separei e voltei para o Brasil correndo, como se estivesse sendo procurada pela polícia. Ele foi morar na Austrália e durante alguns anos não nos falamos muito, ele dizia sofrer demais e eu já estava feliz em outra relação.
No ano passado, ele finalmente me procurou com notícias sobre o processo oficial de divórcio e nós fomos obrigados a manter diálogo. Nos falamos por telefone uma vez e foi como se nunca houvéssemos deixado de nos comunicar, nos entendemos perfeitamente e até rimos de nossas antigas piadas internas. Passamos a nos falar também por mensagens e o sentimento de intimidade e confiança era o mesmo, ele chegou até a declarar: “Poxa, é agradável divorciar assim! Gostei”.
Eu também gostei. Devo admitir inclusive que não escolhi bem o marido, é verdade, mas escolhi muito bem o meu ex e acho até que podemos voltar a ser bons amigos.