MODA
Baiana lança coleção na Semana de Moda Circular e Sustentável
Estilista Karol Farias estreia a marca Aobá Upcycling em Madri, com a coleção Regresso

O vestuário que escolhemos carrega inúmeros significados e ajudam a construir a imagem que pretendemos passar. Mas, da mesma forma que a moda conduz ideias, nossas escolhas também pode causar impactos ao meio ambiente.
Em um cenário em que as mudanças climáticas estão cada vez mais evidentes, é necessário repensar hábitos de consumo assim como as origens de determinado produto. É tempo de repensar a moda – indústria que só perde para o setor petrolífero como maior emissora de gases do efeito estufa – de forma mais consciente.
Somente na penúltima semana de março, a temperatura em alguns pontos da Antártida chegou a ultrapassar a média em 40°C; enquanto no Ártico esse número chegou a 30°C acima do comum, com ondas de calor sem precedentes, levando cientistas a alertaram para uma fase mais extrema do aquecimento global.
A indústria da moda precisa reduzir em até 50% as emissões de gases até 2030, período limite estabelecido pelo Painel do Clima das Nações Unidas (IPCC) para redução da temperatura do planeta, com o objetivo de não ultrapassar 1,5°C.
A estilista soteropolitana Karol Farias precisou passar pela moda linear e a moda rápida, fast fashion, para compreender os impactos causados pela indústria e transformar o incômodo em uma iniciativa que unisse o gosto pelas roupas à criação, mas sem contribuir com mais contaminação ao planeta.
Através da moda circular, conceito que se baseia na economia circular e desenvolvimento sustentável, ela criou a marca Aobá Upcycling, que fará a estreia da sua coleção Regresso durante a Fashion Revolution, movimento por uma moda mais justa na Semana da Moda Circular e Sustentável em Madri, na próxima segunda-feira, dia 25 de abril.
“A moda sempre representou, para mim, uma importante ferramenta de expressão de identidade. Então, mesmo estando desgostosa com a moda em alguns sentidos, desiludida da moda em alguns aspectos, digamos assim, sempre a achei muito importante para as pessoas. A gente tem essa necessidade de expressar nossa identidade e ela cumpre muito bem esse papel de expressão de identidade. Vejo muito também como expressão artística, porque a moda é uma linguagem”, explica.
Mais que tendência
O estilo Upcycling, presente na Aobá, não é simplesmente uma tendência, é um novo formato de se fazer moda que dialoga com a emergência do problema climático. O Upcycling é a utilização de uma matéria-prima que seria descartada para dar uma nova utilidade, criando um novo produto de maior valor agregado tanto estética quanto economicamente e que se difere do Downcycling – que seria, por exemplo, pegar uma blusa velha que você tem em casa e fazer de pano de chão – desse jeito, o produto criado tem menos valor.
Diferentemente da reciclagem, que utiliza processos químicos para a reutilização de matérias-primas, o Upcycling não chega a destruir uma matéria, mas sim a transforma em outra coisa, se apropriando e entregando uma nova utilidade.
Para se ter uma noção, entre os 9 looks que estarão na passarela, foram recuperadas 44 roupas de segunda mão. Com isso, se evitou emitir 393 kg de CO² (dióxido de carbono) e deixou-se de consumir 163.544 litros de água.
Aos 7 anos de idade, Karol já fazia roupinhas e ficava trocando o figurino das suas bonecas de papel. Na ausência do curso tão almejado onde morava, em Salvador, assim que pôde fez um curso de desenho industrial e design de produto, mas não deixou o sonho da moda adormecido. Em 2006, fez outra formação em desenho de coleção e estilismo, e participou de um concurso de moda pela primeira vez.
Quatro anos depois, a estilista voltou a fazer aula de modelagem e se inscreveu no Barra Fashion, ocupando a posição de finalista e, em 2011, venceu o concurso cuja repercussão abriu ainda mais portas na profissão. Antes de criar a Aobá Upcycling, Karol idealizou a T Camisetaria, em 2014, uma marca mais comercial, até começar a entender os processos da indústria e flertar com o Upcycling em 2018, com a marca Refazenda.
Origem
Um mestrado em 2019 a levou para a Espanha para estudar direção de empresas e trabalhar em um projeto de moda circular. Mas Karol, que sempre teve curiosidade em investigar as suas raízes, foi um pouquinho mais longe, ao noroeste do país europeu, para a comunidade autônoma da Galícia, origem dos seus avós que emigraram de lá durante a Guerra Civil Espanhola.
Foi a observação dos pontos em comum com o povo galego e baiano que inspiraram a coleção Regresso, que tem esse nome devido à sua viagem e traz elementos das duas regiões.
A vontade dos moradores da Galícia em manter o idioma nativo (o galego) presente, ainda que exista o castelhano, foi o que a fez passar uma madrugada inteira folheando páginas de um dicionário tupi-guarani até encontrar o termo Aobá, que significa roupa.
“Não apenas por esse resgate do nosso idioma ancestral, dos povos originários do Brasil, mas também pela compreensão, pelo meu entendimento de que são os povos originários que apontam esse caminho para uma convivência mais harmoniosa com o planeta, que é o que a gente está precisando”, diz a estilista.
A modelista Valda Oliveira é o nome por trás da confecção das peças que serão vistas em Madri. Para ela, é fundamental produzir e consumir com consciência. Valda e Karol se conheceram há 10 anos, quando ainda moravam na capital baiana. Juntas, elas já vestiram artistas como Daniela Mercury e Márcia Castro.
Ela vibrou quando recebeu a ligação da estilista para contar sobre o desfile, apenas um mês e meio depois da sua chegada em Lisboa. Antes da pandemia, quando Karol mudou para Espanha, as duas se despediram com o combinado de que iriam trabalhar juntas novamente: “Trabalhar na coleção Regresso foi estrear em grande estilo aqui, um prazer. E também um grande desafio pelo curto prazo que tínhamos. O reencontro foi alegre e de trabalho intenso”.
“Karol é participativa, cuidadosa, responsável, divertida. Essas características no dia a dia são vistas quando ela verifica comigo se é possível realizar aquele desenho, quando modifica algo para facilitar ou quando comemoramos mais uma peça concluída”, diz Valda.
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