Bankoma no Carnaval: A força do Tempo e da Alegria | A TARDE
Atarde > Muito

Bankoma no Carnaval: A força do Tempo e da Alegria

Desfile deste ano tem como tema "Njinjila Dya Mu Ukulu – Caminhos do Tempo"

Publicado domingo, 14 de janeiro de 2024 às 07:00 h | Autor: Gilson Jorge
Bira cortando pano para o abadá de 2024
Bira cortando pano para o abadá de 2024 -

Observado por dois visitantes piauienses, um grupo de quatro moradores de Lauro de Freitas começou a trabalhar, voluntariamente, na última terça-feira, no pátio do Terreiro São Jorge Filho da Goméia, iniciando a preparação das 3 mil fantasias do bloco Furacão da Alegria – Afro Bankoma, que desde 2000 desfila no Carnaval da cidade e no de Salvador.

No dia anterior, três mil metros de tecido chegaram de uma fábrica no Ceará, com um atraso de um mês, provocado pela falta de dinheiro da entidade. Com a liberação dos recursos do Edital Ouro Negro, na semana passada, a entidade pôde finalmente fazer a encomenda. Normalmente, o pedido é feito no início de dezembro.

O desfile deste ano, que inicia as comemorações pelo centenário de nascimento da fundadora do terreiro, Mãe Mirinha, tem como tema Njinjila Dya Mu Ukulu – Caminhos do Tempo, que vai ao Circuito Osmar na quarta-feira e no sábado de Carnaval.

Na Quarta-feira de Cinzas, o Bankoma desfila em Lauro de Freitas, quando é acompanhado também por moradores da cidade que não puderem desfilar em Salvador. O tema celebra os caminhos percorridos e traçados pela divindade Tempo.

São três mil foliões que saem no Bankoma, além da sua tradicional banda e um grupo de 80 bailarinos, sendo que cerca de mil abadás são dados como cortesia, principalmente, a integrantes de terreiros de Candomblé. Além do edital Ouro Negro, o bloco vai às ruas com apoio da Prefeitura Municipal de Lauro de Freitas.

Ritmo acelerado

Entre cuidados para imprimir um ritmo acelerado à produção das fantasias e atenção dispensada aos visitantes, a neta e herdeira espiritual de Mãe Mirinha, Mãe Lúcia [Mameto Kamurici] lamenta a recorrente dificuldade que os blocos afro têm de desfilar na avenida e aponta para a discriminação racial ao mencionar a falta de apoio privado.

"É uma luta para nós que somos dessa cor. A pele é esse órgão, o maior do corpo, que a gente não tem como esconder. E quando a gente se mostra, por conta do racismo, da intolerância religiosa, os obstáculos são muito maiores", afirma ela.

Outra dificuldade enfrentada pelo bloco foi a peça pregada pelo tempo, quando a região soteropolitana onde o terreiro se instalou virou o município de Lauro de Freitas, na década de 1960. "Somos um caso único, um bloco de Lauro de Freitas que desfila em Salvador", pontua a liderança.

Mas Mãe Lúcia não desanima. "O Bankoma é uma missão, de contar o que é um inquice [divindades banto equivalentes aos orixás dos nagôs], de falar da nossa própria história, é um presente dado por Martim", referindo-se a Martim Pescador, entidade cultuada na umbanda e no candomblé de caboclo, que funciona como mensageiro, levando as súplicas dos mortais às divindades do mar.

Missão

Os piauienses que observavam os voluntários no pátio dobrando os tecidos que saíam da sala de tecelagem do terreiro eram o líder espiritual e assistente social Cícero Cordeiro e o agente cultural Aerolino Ferreira, que viajaram do município de Floriano (PI), onde frequentam o terreiro Ylê Asè Babá L’okê, com uma missão definida: entender como funciona a organização do Bankoma para ajudar na fundação do primeiro bloco afro de Floriano que, esperam, desfile ainda este ano.

Cícero recolheu várias informações que lhe podem ser úteis no futuro. Ficou sabendo, por exemplo, que há dez mulheres do bloco trabalhando com costura, incluindo as duas que desde suas casas preparam as roupas da banda. Que além das fantasias, o pano é usado na confecção de bolsas e sacolas, e que o custo unitário do abadá fica acima dos R$ 300, mas que no último Carnaval o bloco não conseguiu vender por mais de R$ 250. Este ano, em função do centenário de Mãe Mirinha, os 100 primeiros compradores pagarão R$ 100. Depois, o preço volta a ser R$ 250.

Após ouvir explicações sobre as dificuldades enfrentadas pelo Bankoma, Cícero conta sua experiência no Piauí: "Os mesmos problemas que você já passou é o que a gente passa. Cerca de 80% da população do Piauí é preta e parda, mas só temos no estado um bloco afro, o Coisa de Negro. Agora, estamos tentando criar o segundo, o Baba L' Okê".

Uma dificuldade compartilhada entre o bloco baiano e o emergente é a falta de recursos. "Patrocínio zero. Ou você tira do próprio bolso ou não acontece. Teve agora a Lei Paulo Gustavo, mas nenhum terreiro foi contemplado", lamenta Cícero.

O piauiense também aponta a importância dos blocos afro para combater a intolerância religiosa: "Eu sempre tive essa ideia de desconstruir a imagem negativa que o terreiro tem através da cultura. O preconceito existe porque as pessoas são ignorantes".

Nação Bantu

O terreiro São Jorge Filho da Goméia, de nação bantu, localizado na Rua Queira Deus, em Portão, foi fundado há 75 anos, e é da mesma tradição espiritual iniciada por Joãozinho da Gomeia, o mais famoso babalorixá do país, que mantinha um terreiro na Rua da Gomeia, no bairro de São Caetano.

Joãozinho era o pai de santo de Dona Mirinha, que após a mudança de Joãozinho para o estado do Rio de Janeiro, transferiu o terreiro para uma roça de sua família na região conhecida como Portão, antes da fundação do município de Lauro de Freitas. À época, o terreno pertencia a Salvador.

"A mudança foi, digamos, uma fuga. Vir para um lugar mais distante para, entre aspas, não incomodar", afirma Mãe Lúcia.

Mãe Mirinha era amiga íntima do escritor Jorge Amado, que sobre ela escreveu no livro Bahia de Todos os Santos: Guia de ruas e mistérios: "Mirinha, tão carregada de responsabilidades, é pessoa das mais amáveis e simpáticas que eu conheço. Sendo uma rainha da Bahia, é modesta e simples”. E indicava como encontrá-la: “Mirinha reina mais além do aeroporto, sobre as praias maravilhosas e as margens civilizadas do Rio Joanes... ela receberá o visitante com um sorriso e uma palavra de amizade".

Também próximo de Jorge Amado, Joãozinho da Gomeia, nascido em Inhambupe (BA), tornou-se um pai-de-santo respeitado em todo o país na década de 1940. O líder religioso também ganhou fama como exímio dançarino.

Em 2021, o governo do Rio de Janeiro estabeleceu o 27 de março como o Dia Estadual de Conscientização contra o racismo religioso como Dia Joãozinho da Gomeia.

A referência a São Jorge no nome do terreiro é fruto do sincretismo religioso imposto pela Igreja Católica. Quando Mãe Lúcia assumiu o terreiro achou por bem manter o nome tradicional.

"Mãe Mirinha era uma mulher à frente do seu tempo. Ela veio do Rio de Janeiro e foi iniciada aqui", relata a kota Géssica Neves, bisneta da matriarca.

Tradição

O Terreiro São Jorge Filho da Goméia caracteriza-se também, tradicionalmente, pela ação social. No barracão onde se realizam as cerimônias religiosas também são oferecidos cursos de dança e capoeira. Ainda hoje, há pessoas que batem à porta na hora do almoço em busca de uma refeição. Algumas ações que trazem o espírito implantado pela matriarca.

"Antes da emancipação de Lauro de Freitas, Mãe Mirinha ajudava as pessoas na busca de emprego, encaminhava candidatos", afirma Géssica, ressaltando que, no início do terreiro, a vizinhança tinha que se deslocar até o centro de Salvador para resolver questões burocráticas.

E era Mãe Mirinha que se deslocava para pedir ao poder público investimentos em saneamento, saúde e educação. "O pessoal dos ônibus já a conhecia e ela entrava à vontade, porque todo mundo sabia que ela ia fazer isso", afirma Géssica.

A ampla roça onde está o terreiro tem, além do barracão e da tecelagem, o Museu Coletivo Mãe Mirinha, com peças ligadas aos cultos afro-brasileiros.

O museu é chamado de coletivo porque, em decorrência de questões com herdeiros, os itens utilizados pela fundadora do terreiro estão dispersos.

Como a existência do museu foi uma contrapartida do processo de tombamento do terreiro pelo Ipac, em 2004, a solução encontrada foi manter uma sala com objetos de culto doados por diferentes pessoas.

Uma das principais coleções são máscaras trazidas de Angola por Mãe Lúcia, em diferentes viagens ao continente africano. "Fui lá buscar traços de nossa língua, de nosso lar. Muito triste fiquei porque não encontrei muita coisa. Triste, mas emocionada", descreve a mameto, referindo-se à cultura bantu.

Diferente da música A Felicidade, de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, no Bankoma as coisas não se acabam na Quarta-feira de Cinzas. Depois de encerrados os festejos na capital, o bloco afro da vizinha Lauro de Freitas faz os seus festejos em casa, para os seus.

Dona Guiomar Lima, 76 anos, uma das voluntárias da costura, por exemplo, aproveita esse dia para sambar e lembrar da juventude. "Eu pulava muito Carnaval, saía em vários blocos. Hoje não dá mais", declara a dama da velha guarda, pouco depois de mostrar aos piauienses o jeito de dobrar a fantasia. O axé não tem fim.

Publicações relacionadas