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ABRE ASPAS

Cecília Amado: "Reggae está em todas as periferias da Bahia”

Cineasta conversou com A TARDE sobre o documentário dirigido em parceria com o marido Pablo Oliveira

Gilson Jorge
Por Gilson Jorge
| Atualizada em

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Cineasta Cecília Amado
Cineasta Cecília Amado - Foto: Raphael Müller | Ag. A TARDE

Poucos minutos antes do horário marcado para a entrevista com a cineasta Cecília Amado, no Centro Cultural Reggae, na Praça Jubiabá, Centro Histórico, sobre o lançamento do documentário Reggae Resistência, uma mulher desce com uma camisa preta, amarela, verde e vermelha e uma penca de chaves na mão. É Jussara Santana, coordenadora do Centro Cultural que, juntamente com o Bar do Wilson, na Rua das Flores, e o Negros Bar, na Rua Gregório de Mattos, herdou o legado deixado pelo antigo Bar do Reggae e, depois, pela Praça do Reggae, que há anos está abandonada. Jussara, que mantém contato com Cecília há algum tempo, aceitou abrir o local numa quarta-feira, em prol da divulgação do filme, que estreia nesta quinta-feira, 11, às 22h, na TVE, excepcionalmente em um dia de semana. A duas horas do pôr do sol e tendo os fundos da antiga Faculdade de Medicina, a Rocinha do Pelourinho e a Baía de Todos-os-Santos como cenário, Cecília conversou com A TARDE sobre o documentário dirigido em parceria com o marido Pablo Oliveira, que traz um panorama sobre o estilo de vida dos amantes do reggae na Bahia.

Como surge seu interesse pelo reggae? Você chegou a frequentar a cena aqui na Bahia?

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Eu nasci no Rio, sou uma baiana adotada, e não sou da música, sou do cinema. Comecei a fazer cinema com 18 anos. São 27 anos que eu só sei fazer cinema. Meu marido, sim. Ele é soteropolitano, a mãe dele é de Belém de Cachoeira, e ele passou a infância no Recôncavo. É apaixonadíssimo pelo reggae daqui e tinha esse desejo antigo, que é o desejo de muita gente daqui, de ver o reggae retratado no cinema, na televisão. O reggae está sempre marginalizado de alguma forma na mídia.

Pablo tinha contato com Edson Gomes no Recôncavo?

Ele conhecia como fã, éramos fãs. Mas foi ele que escreveu o argumento. Nós entramos no edital, ganhamos para desenvolver o argumento, mas não conseguimos fazer porque tínhamos outro projeto. E aí quando saiu o Bahia na Tela, aquele edital grande do Irdeb para fazer toda uma grade de programação da TVE com produtos originais de várias áreas, um dos temas que estavam sendo chamados era a cultura de matriz africana. E eu nunca gosto de ir no óbvio. Quando a gente pede um tema no edital, todo mundo vai fazer aquela mesma coisa. E eu falei que era a chance de falar do reggae, porque as pessoas não associam o reggae à cultura afro-baiana. E é uma peça fortíssima aqui na Bahia, de tradição no estado inteiro. Então, acho que agora é a hora de fazer esse filme. Outras pessoas também estavam desejosas. Era um desejo da TVE ter essa representação no canal.

Gerônimo conta muito bem essa história de como Gilberto Gil, voltando do exílio na década de 70, traz discos de reggae de Londres e o reggae encontra aqui um ambiente que o torna uma representação da juventude negra naquele momento. O reggae acabou virando sinônimo de festa. A gente fala ir para o reggae, como os paulistas falam em balada. Vocês trabalham no filme essa coisa da presença do reggae nas comunidades periféricas?

Jussara Santana, aqui do Centro Cultural do Reggae, que está nessa labuta, fala isso. O reggae está em todas as periferias da Bahia. A gente foi a Feira de Santana e lá há um movimento muito antigo, contemporâneo dos artistas do Recôncavo. Em qualquer lugar que você passa, em qualquer praia que você vá, em qualquer periferia, está tocando reggae em uma casa. Edson Gomes, você piscou está tocando uma música dele. Os outros artistas também. O filme fala disso. O reggae não só como a sua história para os artistas, mas como um estilo de vida, que vai além da música apenas. Porque é uma música de engajamento social muito forte, por isso tão marginalizada, uma música que vem sempre com um texto social, para mexer mesmo com esse público que é personagem dela, com os fãs de perfil popular, mas também com as elites que curtem reggae. Identificamos essa ligação das pessoas desde os primeiros artistas. A gente começa a nossa história com Gilberto Gil, que fala de Londres. Gil que conheceu Bob Marley, gravou na Jamaica. Lazzo que fez turnê com Jimmy Cliff vem trazer sua experiência. E ambos falam que se apaixonaram pelo reggae e gravaram reggae logo que o descobriram. Mas que não eram artistas de reggae. E a grande unanimidade é que o embrião desse ritmo na Bahia era o Recôncavo, através da figura de Edson Gomes, que ficou mais conhecido e trouxe o movimento para todo mundo, junto com Nengo Vieira, que foi quem apresentou o reggae para ele. Foi muito legal descobrir como pintou o início de algo que hoje é uma maneira de lidar com o mundo, a cultura reggae.

Não há passeatas do Sindicato dos Bancários e de outras classes profissionais que não toquem uma música ao menos de Edson Gomes. Ele acabou criando esse vínculo com os trabalhadores...

É, a nossa abordagem é toda sobre o quanto o reggae acaba se tornando uma música de resistência através de suas mensagens. Edson sempre ficou nessa luta e por isso teve dificuldade na sua manutenção no mercado. Há um conflito com as gravadoras, com o grande mercado da música, que sempre deseja música de protesto. Ele diz que faz a música da favela, o que ele vê no dia a dia, as pessoas com quem ele convive. Ele diz que fala do que ele sabe falar. E as pessoas se sentem totalmente representadas. Ele tem uma quantidade enorme de sucessos e um baú de músicas que ele ainda não gravou em 50 anos de carreira. Ele coloca isso que todas são músicas bem dançantes, mas quando o público se dá conta começa a ouvir a letra, que bate fundo porque ele está ali, relaxado. Não é que seja uma estratégia, é porque ele é esse cara mesmo.

Em Salvador, além do Centro Histórico, você destacaria bairros onde vocês perceberam uma força maior do reggae?

Hoje em dia você tem um movimento maior na Suburbana. A gente não fala da cena contemporânea apenas. Não dá conta. Mas no subúrbio ferroviário o reggae é muito forte, assim como aqui no Centro Histórico. E em Itapuã também. A gente trata no filme desse tripé, Salvador, Feira e Recôncavo. Tem a Orquestra de Reggae de Cachoeira trazendo novos talentos, com gente jovem. La tem essa coisa única, o Reggae Recôncavo é considerado um gênero. A gente traz muito o movimento de Salvador a partir dos anos 90, a época de ouro, com a Rocinha, com o chamado Neo Reggae, Adão Negro, Diamba, Mosiah Roots, um movimento que trouxe o jovem universitário também para cá. E a gente passa por Feira de Santana. Tem essa brincadeira de onde o reggae começou. Tem Jorge de Angélica e Dionorina, que são artistas contemporâneos de Edson Gomes e Nengo Vieira, falando que eles estavam juntos, descobriram e se apaixonaram pelo reggae juntos e que em Feira surgiu uma cena muito forte. Mas precisaria de uma série para dar conta da diversidade do reggae. Jussara tem um cadastro de mais de 100 artistas de reggae atuando na Bahia. E se a gente vai para o interior, fora os lugares em que a gente esteve, ainda tem artistas de reggae em Serrinha, Alagoinhas...

Como está a presença feminina no reggae? Pode mencionar algumas cantoras?

Sim. O reggae é uma cena mais masculina, como outros gêneros musicais. Mas há mulheres também. Inclusive no próximo dia 27, Jussara promove aqui no Centro Cultural um show só com meninas cantando Bob Marley. E tem a juventude. A gente teve a oportunidade de entrevistar Riane Mascarenhas, que é baixista, de Cachoeira, que está aí cantando com Pali, uma argentina que tem uma banda chamada Pali Fem. Tem a Joh Ras, que a gente descobriu em Feira, também jovem, fantástica. Quando abre a voz traz muita vivência. Elas estão envolvidas com a história do reggae e não vão deixar cair a peteca, ainda mais agora que as mulheres estão conquistando um espaço maior em todo lugar, graças a Deus.

Se a gente quiser sintetizar o legado do filme, como você o definiria?

Nosso objetivo é uma homenagem. E quando a gente faz uma homenagem, ainda mais depois dos anos que a gente passou, e que perdemos artistas do reggae como Tim Tim Gomes, que era assim uma unanimidade, a gente tem que falar de emoção e o reggae pode ser sintetizado com muitas coisas. O reggae está associado à marginalidade, associado às drogas, tudo de ruim a mídia associa ao reggae. E raramente o reggae é associado à emoção. A oportunidade de a gente se emocionar com o reggae, além de dançar, de curtir, de vibrar, o filme traz essa sintonia com pessoas que com muita frequência se emocionam com o reggae. Os fãs, que se emocionam com o reggae no seu dia a dia, não só os artistas, não só o grande público. Quem está ali no radinho, que tem uma roupa de reggae, que tem sua banda de reggae e se emociona no dia a dia. É a possibilidade de dar um outro olhar, talvez por a gente não ser do reggae.

Quando o filme será exibido pela TVE? Depois vocês vão a um festival...

Na quarta-feira, 10, tem a pré-estreia, que a TVE está promovendo, tem um debate com artistas. Dia 11, quinta, aniversário da morte de Bob Marley, considerado o Dia do Reggae, o filme estreia na TVE às 22h. No dia 12, sexta, será exibido às 21h30; dia 14 às 17h e dia 20 de maio, sábado, às 20h. No final do mês de junho o filme vai ser exibido no festival InEdit, em São Paulo.

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