Busca interna do iBahia
HOME > MUITO
Ouvir Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no X Compartilhar no Email

MUITO

Cenas contemporâneas: o teatro baiano na pandemia e agora

Dramaturgos baianos que criaram durante a pandemia avaliaram as transformações da cena e o retorno aos palcos

Vinicius Marques
Por Vinicius Marques

Siga o A TARDE no Google

Google icon
Ensaio do elenco 'Uma Leitura dos Búzios'
Ensaio do elenco 'Uma Leitura dos Búzios' - Foto: Tiago Lima | Divulgação

O teatro, definitivamente, é uma atividade que resume muito bem a arte do encontro. Essa produção milenar, no entanto, precisou se adaptar diversas vezes nos últimos dois anos por conta da pandemia da Covid-19, dando um novo sentido e uma atualização que talvez não pudesse ser imaginada por aqueles que a viam como uma linguagem mais purista.

Desde 2020, os espetáculos migraram para os palcos virtuais com o desejo de continuar contando histórias e se encontrando com o público. Agora, de volta aos palcos tradicionais, com o controle da pandemia, artistas e plateia retomam a “normalidade” do que um dia nunca pensaram que seria alterado.

Tudo sobre Muito em primeira mão!
Entre no canal do WhatsApp.

Alguns encenadores, no entanto, encararam a transição para o virtual com mais tranquilidade. Outros, acreditam que mesmo com a volta aos palcos tradicionais, ainda haverá espaço para o virtual. O diretor teatral Márcio Meirelles, que neste ano completa 50 anos de carreira, recorda que desde os anos 1980 se interessa pela mistura do teatro com o audiovisual.

A primeira experiência com essa combinação foi em 1982, quando colocou em uma de suas peças um vídeo previamente gravado, onde atores interagiam com uma TV. Desde então, ele vem pesquisando e trabalhando com essas linguagens.

“Gosto muito de cinema. Só não me interessa muito fazer cinema, ainda”, afirma. “Minhas peças levam muito do vocabulário do cinema para o teatro. Vocabulário que o cinema tem e que o teatro também tem, só que às vezes não usa, porque fica muito na linguagem dramática”.

Dois, três meses

Em 2020, antes de ser decretada a pandemia, Meirelles estava em cartaz com o espetáculo A Tempestade. "Começamos a conversar sobre o que faríamos e achamos que isso iria durar dois, três meses. Decidimos ensaiar uma peça para quando voltar já estrear e vimos que não íamos voltar tão rápido”, lembra.

Foi então que decidiu pôr em prática seus estudos sobre a presença virtual do ator, da tecnologia e do audiovisual no espetáculo teatral. O resultado disso foi a peça Os Fragmentos de um Teatro Decomposto’, que, segundo Meirelles, “traduzia muito bem aquele momento de isolamento e de desesperança”.

Era um espetáculo totalmente online, com cada ator na sua casa, utilizando alguns aplicativos que aproximavam as ideias e os cenários propostos.

Depois, realizou Palavras de Jó e o musical Sua Excelência Oscar da Penha, o Batatinha. Esse último foi gravado, utilizando seis câmeras e uma edição feita ao vivo, apenas com os cortes das câmeras.

“A gente faria aquilo todos os dias, ao vivo, mas era muito caro manter o equipamento, a equipe, tudo mais, e a produção não tinha esse recurso. Gravamos uma vez e reproduzimos algumas vezes”, explica Meirelles. O diretor fez, ainda, Os Três Pablos Guerreiros Contra o Dragão da Maldade e uma versão online do espetáculo Do Outro Lado do Mar, que recentemente voltou para o presencial, com uma montagem no Rio de Janeiro.

Atualmente, o espetáculo Uma Leitura dos Búzios, com direção de Márcio Meirelles, está em cartaz no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, com temporada até janeiro de 2023. “O fato do Sesc, o próprio Danilo Miranda me convidar pessoalmente para dirigir esse espetáculo em São Paulo, é um ato revolucionário. Um diretor baiano, um tema baiano, no centro de São Paulo, o principal projeto do Sesc desse ano com um elenco e uma equipe de criação com muitos baianos… É um mega espetáculo”, declara Meirelles.

Quem estava vindo de uma temporada bastante elogiada antes da pandemia com a montagem de Pele Negra, Máscaras Brancas, foi a atriz e diretora Onisajé, que também precisou mudar todos os planos para a obra. Naquele ano de 2020, ela estava com uma temporada da peça no Sesc Belenzinho, em São Paulo, depois do sucesso que foi em Salvador.

Além da temporada em São Paulo, a peça estava programada para uma temporada no Rio de Janeiro e outra em Brasília. “Foi uma grande frustração. Imagina que eram 10 atores, mais ou menos 16 pessoas viajando, e tudo isso já organizado, pensado, e que aconteceu não só com a gente, mas com a maioria dos artistas que estavam com projetos em circulação pelo país. Essa frustração já deu aquela sensação de ‘Para onde iremos?’”, lembra Onisajé.

Num primeiro momento, por possuir algumas gravações de outros espetáculos, Onisajé experimentou o fazer cênico revivendo essas peças em mostras que eram realizadas online. Em 2021, ela dirigiu Big Chop - Uma Ebó Feminegra, que para a diretora foi bastante complicado: “No momento da instauração da pandemia, eu não tinha a menor intimidade com a possibilidade de fazer teatro a partir da plataforma online, da gravação, por exemplo”.

Teatro político

Na época, ainda não existia vacina, então todos só se testavam e confiavam. De acordo com Onisajé, foi uma equipe pequena. Big Chopp, para ela, não era uma obra feita para o online, pois acredita que para o teatro político que faz, como a diretora descreve, a presença é muito importante. “É um quesito fundamental, pensando no Candomblé, que é uma religiosidade não da distração apenas, mas principalmente da materialização da nossa energia, no momento que estamos reunidas e reunidos. Foi algo muito complicado”.

Ela acrescenta que ainda hoje não consegue mensurar os resultados da obra, apesar de gostar da experiência: “Acho muito interessante, profundo. Acho que é uma forma também de fazer teatro”. A encenadora diz, ainda, que não caiu na ideia de que o teatro se perdeu ou acabou. Ela crê que os artistas podem se adaptar diante das dificuldades que surgem.

“Ali era algo muito maior, envolvia colocar a vida das pessoas em risco. A arte não vai morrer, ela vai encontrar espaço de existência. Eu consegui existir como artista durante a pandemia e a arte foi o que me salvou. Não só a mim, mas a muita gente, salvou da agonia e angústia que eram aqueles momentos”, garante.

Com uma expressiva experiência no audiovisual, a atriz, diretora e dramaturga Paula Lice conseguiu se adaptar mais rápido no online. Logo em maio de 2020 ela, junto ao ator Vinícius Bustani, migrou o espetáculo Criança Ferida para o universo virtual. Ela credita essa rápida transição ao fato de o ator estar em São Paulo junto ao irmão dele, Gabriel Bustani, que é cineasta.

“Foi incrível”, lembra Lice. “No final de maio a gente fez a primeira tentativa, teve muita presença virtual. Gente que acompanhou a peça pelo celular ou pelo computador ou pela TV mesmo e, depois disso, começaram a eclodir várias outras experiências, tanto de peças já montadas, que foram adaptadas para o virtual, em temporadas e apresentações únicas, quanto experiências que foram já criadas para o virtual”, acrescenta.

Dificuldades

Em 2021, ela estreou duas peças que foram criadas pensando no ambiente virtual: Pequenas Histórias de Impossíveis Amores e Kimera. No entanto, ela conta que as duas montagens foram marcadas por algumas dificuldades, devido ao surgimento da terceira onda da Covid. Ambas as obras tiveram de ser reformuladas.

"O principal, para mim, era proteger as vidas das pessoas envolvidas no projeto. A gente acabou assumindo que não teríamos uma qualidade boa de gravação, por exemplo, principalmente no Pequenas Histórias, porque cada um fez com o material que tinha em casa, com o que era possível”, conta.

Ela lembra também que, ao mesmo tempo que o distanciamento limitou a capacidade de produção, isso fez com que os artistas tivessem que criar estratégias criativas. Um dos exemplos que ela cita foi perceber que o virtual não anulou a manifestação da presença do público.

“Quando eu via as peças acontecendo ao vivo, para um grupo de pessoas que estava ali assistindo, aquilo potencializou um outro tipo de presença. A gente tinha uma movimentação no chat que não consegue acontecer, e não é para acontecer, ao vivo. Ao vivo, em geral, você quer plateias silenciosas. E as plateias do chat eram uma forma de manifestar contato, que estavam ali assistindo, estavam presentes de algum jeito”, destaca Lice.

Outro nome experiente com o universo virtual, o dramaturgo Daniel Arcades chegou a abrir uma empresa no meio da pandemia devido a tanto trabalho que estava produzindo. Junto a Thiago Romero e Laíse Castro fundaram a Dan Território de Criação, que virtualmente começou a desenvolver outros projetos que tivessem ligação entre o presencial, o online e a multilinguagem.

Recentemente, em cartaz em curta temporada na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, ele apresentou o espetáculo Árcade - Versos para Olhar o Tempo, que surgiu de “questionamentos sobre a nossa lógica de tempo, sobre as nossas ansiedades, sobre coisas que eu acho que tem tocado toda a nossa população por conta de como a gente tem sido atravessado, e eu acho que a pandemia acelerou muito isso”, explica. Arcades já escreveu mais de 30 espetáculos nos últimos 10 anos, e agora escreveu seu primeiro longa, Ó Paí, Ó 2, junto com Elísio Lopes Jr., Igor Verde e Viviane Ferreira.

De volta

Para o dramaturgo, diretor e ator, esse momento da volta ao presencial vai definir muitas coisas. Ele acredita que muito do teatro virtual irá permanecer, acreditando que é uma oportunidade para quem está longe ter acesso a obras de toda a parte do mundo. Ele ainda aposta numa incorporação da linguagem teatral em outras obras audiovisuais. “O audiovisual vai beber muito do teatro e o teatro vai beber muito do audiovisual. O audiovisual encontrou um formato industrial muito forte. A gente tem interpretações diferentes para o audiovisual, escritas diferentes, então, talvez o audiovisual também se abra um pouco mais para pensarmos na possibilidade de aceitar a interpretação mais teatral na câmera, aceitar um texto mais literário também, que são poucos os que fazem isso”, pondera.

Onisajé pontua que, recentemente, estreou o espetáculo 12 anos ou A Memória da Queda’, no Rio de Janeiro, e pôde iniciar o processo de pré-produção diretamente de Salvador, utilizando as ferramentas online, algo que ela acredita que ficará e poderá agregar no futuro.

Já Paula Lice conta que adoraria que nada daquele período permanecesse, no sentido de que foi tudo muito doloroso, mas acredita que houve aprendizados que valem a pena manter, como o fato de apresentar e assistir espetáculos de outros lugares de forma virtual.

“É muito bacana financeiramente, porque você pode cobrar ingresso por isso, e também para potencializar o público de outros estados, de outros países, essa diminuição das fronteiras, porque o teatro realmente é uma novidade, eu diria assim, para a internet. Isso já foi feito antes da pandemia, mas não da forma como a gente teve que aprender a fazer por conta da pandemia. Eu assisti coisas de outros estados, outros países, que foram bem interessantes”, diz Lice.

Para 2023, todos os encenadores destacam as mudanças governamentais que com certeza serão de grande importância. “Minhas maiores esperanças são o Ministério da Cultura de volta, e que as leis que seriam implementadas esse ano saiam, a Paulo Gustavo e Aldir Blanc, porque essa mobilização via fomento público é imprescindível para que o mercado se restabeleça”, destaca Lice.

Já Márcio Meirelles pontua que o novo governo tem a missão de reparar muitas coisas que foram danificadas, como o meio ambiente, questões relacionadas aos povos originários, respeito, cidadania, empatia e política social. “Tudo isso precisa ser reconstruído, recomposto, e as artes têm de ser retomadas como um fator de construção do imaginário, construção de identidade, mas também de fator econômico”, conta.

A encenadora Onisajé acredita que, apesar das mudanças que surgirão, o momento é “nebuloso”. Ela acredita que o cenário teatral profissional de Salvador e da Bahia como um todo estava muito vinculado à forma de distribuição e fomento via editais da Secretaria de Cultura do Estado (Secult) e Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb).

“O governo não mudou de legenda, mas a gente não sabe quais equipes ocuparão os espaços de Secult e Funceb, que são determinantes para pensar em 2023. Aliado a isso, há necessidade muito grande de pensar iniciativas públicas que considerem o fomento de maneira a não deixar os artistas na mão da iniciativa privada, que seleciona aquilo que quer e destrói, por invisibilidade ou mal financiamento, aquilo que não considera interessante”, pontua Onisajé

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.

Participe também do nosso canal no WhatsApp.

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Email Compartilhar no X Compartilhar no Facebook Compartilhar no Whatsapp

Siga nossas redes

Siga nossas redes

Publicações Relacionadas

A tarde play
Ensaio do elenco 'Uma Leitura dos Búzios'
Play

Filme sobre o artista visual e cineasta Chico Liberato estreia

Ensaio do elenco 'Uma Leitura dos Búzios'
Play

A vitrine dos festivais de música para artistas baianos

Ensaio do elenco 'Uma Leitura dos Búzios'
Play

Estreia do A TARDE Talks dinamiza produções do A TARDE Play

Ensaio do elenco 'Uma Leitura dos Búzios'
Play

Rir ou não rir: como a pandemia afeta artistas que trabalham com o humor

x