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Crônica: O Chalé de Clara

Bruna Castelo Branco

Por Bruna Castelo Branco

10/03/2020 - 13:36 h

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O Chalé de Clara
O Chalé de Clara -

O título aí em cima faz parecer que esse é um texto sobre Clara, mas não; é sobre David – e um pouquinho sobre Clara. Conheci David em janeiro. Pra conhecer David, fiz uma viagem de três horas de trem mais 14 horas de barco – poderia ter ido para alguma terra distante, dado a volta ao mundo, ido pra casa, no Brasil, mas não saí da Escócia. E tudo pra conhecer David. Nas 14 horas no barco (de avião seriam 50 minutos), enquanto ouvia Backstreet Boys no celular, choramingava discretamente de saudade das pessoas que visitei em dezembro e tentava ignorar o enjoo causado pelas ondas, eu ainda não sabia quem era David. Mas eu precisava conhecê-lo. Chegamos a Shetland – eu e outra doida que achou normal encarar uma viagem de 17 horas pra um lugar não tão conhecido assim – às 8h da manhã ainda era noite. Noite profunda, tudo escuro mesmo. Shetland é uma ilha escocesa que fica no meio do caminho entre o Reino Unido e a Noruega e ainda não sabe bem se é britânica ou norueguesa – na dúvida, penduram as duas bandeiras na rua; assim, ninguém fica chateado. É o território mais ao norte no Reino Unido, o que explica a escuridão opressora do inverno. Mas tudo bem, porque dali a dois dias iríamos conhecer David. Nosso primeiro dia foi um domingo e não tinha muito o que fazer. Na verdade, tinha era nada. Às 15h já era noite de novo e quase não achamos lugar pra almoçar em Lerwick, a capital da ilha. Éramos dois ETs exaustos perambulando ali naquela cidade onde todo mundo sabe quem é todo mundo. “O que traz vocês a Shetland no inverno?” Foi a pergunta que mais ouvimos. A gente se olhava, olhava pra chuva que não parava de cair e pro sol que já se punha e não tinha resposta pronta. “Conhecer David”, a eu do futuro diria pra aquela eu confusa que só conseguia pensar nas 17 horas de viagem de volta. Mas o ócio desse domingo valeu a pena. Percebemos que seria difícil circular na ilha por causa da chuva e do transporte público fraquinho. Decidimos procurar um guia. Depois de contatar alguns e quase infartar com os preços, ficamos entre dois, uma moça simpática chamada Catherine e um senhorzinho ex-médico que parecia conhecer Shetland de cabo a rabo. O senhorzinho cobrava menos. “E vamos de senhorzinho”, decidimos.O senhorzinho? Isso mesmo, David. David nos buscou de carro – decidimos que eu ia atrás porque não estava me sentindo muito conversadeira naqueles dias e a sociedade espera que quem sente na frente, converse – e nos levou pra ver uns penhascos. Antes disso, contou a história da ilha, inclusive umas mal-assombradas, as preferidas dos escoceses. (Um fato engraçado sobre David: ele parava o carro toda vez que contava uma história porque aparentemente não consegue falar e dirigir ao mesmo tempo). Almoçamos num hotel mal-assombrado, vimos as paisagens mais bonitas do mundo, mesmo que um pouco escondidas pela chuva e neblina, e quase fomos levadas pelo vento no alto dos penhascos. E fiquei feliz por estar em Shetland. No nosso último dia, depois de ficarmos presas mais uma noite na ilha por causa de uma tempestade, David nos chamou pra tomar um café. Depois, disse que tinha uma surpresa. Entramos no carro–fui atrás de novo, no meu lugarzinho silencioso – e fomos ao Chalé de Clara (olha ela aí!). Clara é uma inglesa de 89 anos que sempre faz tours com David.Um dia, Clara saiu andando alopradamente, se perdeu de David e achou uma casinha de pedra. Ela entrou na casinha de pedra. Dentro, viu um baú bem velho. Ela abriu o baú bem velho. Lá, tinha livros mais velhos ainda. Ela pegou um livro. O chalé não era habitado há mais cem anos, se me lembro bem. David abriu o baú. Nos mostrou os livros de páginas amarelas e capas que se descolavam. Explicou o que era cada cômodo, que na verdade era um cômodo só. E eu só conseguia olhar pro baú, pros livros e pra uma cadeira deixada lá num cantinho. E pensar nas pessoas que já passaram por ali. E naquela cadeira centenária. E em Clara, que aos 89 anos de idade passou 14 horas num barco porque, segundo David, queria viver uma aventura. E eu olhei pro baú, pros livros e pra cadeira. E pras paredes de pedra. Senti frio e pensei em como os moradores dali devem ter sentido frio também no inverno de janeiro. Tirei uma foto da cadeira, dos livros e do baú. E das paredes de pedra. David falava algo sobre o chalé. E fiquei feliz por estar em Shetland.

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