HABILIDADES PRECIOSAS
Cursos de lapidação e joalheria atraem interessados no mercado
Oferecidos pelo Senai, os cursos são realizados na nova sede do Centro Gemológico na Bahia (CGB)
Ao voltar da Califórnia, em 2015, o fotógrafo Mairton Neves estava tão convencido de que tinha encontrado o caminho das pedras na sua vida profissional que vendeu seu automóvel, um Fiat Dobló 2009, que usava no trabalho, para pagar os quatro módulos dos cursos de lapidação e joalheria oferecidos pelo Senai e também para equipar o ateliê que montaria em sua residência na Ribeira.
Seu objetivo era se aperfeiçoar numa atividade que ele começou a desenvolver nos Estados Unidos, onde teve contato com a lapidação e também fez colares para vender nas praias gringas.
No Brasil, uma de suas invenções foi um anel com dois corações, batizado de Enamorados, que bem poderia ser usado como imagem de status de relacionamento nas redes sociais.
Pode-se pressionar o objeto para que os corações fiquem unidos, símbolo de compromisso, ou deixá-los apartados, em sinal de solteirice. O elemento que orna o anel, madrepérola, veio na bagagem da Califórnia.
“Esse anel me rendeu um prêmio numa feira com ex-alunos do Senai”, lembra. A feira foi realizada em 2019, no auditório do antigo Centro Gemológico da Bahia (CGB), que funcionava no Carmo.
O material do ano foi importado, mas a expansão do setor de mineração na Bahia está criando também a expectativa de desenvolvimento de uma cadeia produtiva local de joalheria e ornamentos.
Há duas semanas, Mairton, agora professor do Senai, iniciou um ciclo de aulas para uma turma de 11 alunos que querem se dedicar à atividade, profissionalmente ou como hobby.
Apoio
Desde o ano passado, os cursos do Senai para esse setor acontecem na nova sede do CGB, que funciona no Pelourinho, no prédio que abrigava o Instituto Mauá. Responsável pela certificação de pedras preciosas no estado, o CGB está recebendo apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) para equipar o imóvel.
Há, inclusive, o projeto de construção de uma mina modelo em um dos andares e a expansão do ensino, com módulos de cravação, gemologia, artesanato mineral e design de joias.
Mas isso ainda está no papel. Por enquanto, os cursos se limitam a lapidação e joalheria, ambos nas opções básico e avançado.
O estado da Bahia é o maior produtor nacional de quartzo rutilado, uma pedra muito valorizada nos setores de joalheria e polimento. As principais jazidas se encontram no município de Novo Horizonte, na Chapada Diamantina.
E se as grandes mineradoras dominam a produção de diamantes em Nordestina, em Pindobaçu, a exploração de esmeraldas está a cargo da Cooperativa Mineral da Bahia (CMB), que até lançou uma revista trimestral no ano passado. A Bahia está em segundo lugar na produção nacional de esmeraldas.
São os rejeitos da produção de algumas empresas que acabam sendo doados ao Centro de Gemologia da Bahia e utilizados como matéria-prima desses alunos.
Pedras que por alguma razão acabam não tendo muito valor comercial para exportação, mas que divididas em inúmeros micropedaços são suficientes para ornar anéis e pulseiras criadas por alunos do curso.
Investimento
O valor de cada módulo varia de R$ 800 a R$ 850, esse último é o valor do módulo avançado de joalheria. Pode-se parcelar no cartão de crédito. Para quem tem condições de arcar, é um investimento que vale a pena, segundo dados fornecidos pela organização.
“Cerca de 80% dos ex-alunos conseguiram ocupação. Os alunos tendem a montar seus próprios negócios”, afirma a coordenadora de cursos do Senai, Isaura Malaquias.
Ainda assim, muita gente que procura essa formação não está jogando todas as fichas nesse mercado de trabalho. A pediatra Thairi Paranhos, que trabalhou diretamente no combate à Covid e teve que se isolar do contato social, começou a produzir miçangas em casa como forma de passar o tempo durante a pandemia para depois presentear colegas de trabalho. Leu sobre os cursos do Senai e decidiu se inscrever.
“Eu sempre gostei de arte, mas minha vida foi outra coisa. Não sei se vou dar continuação, até porque é difícil montar essa estrutura em casa. Vai depender de como eu avance no curso e ache que vale a pena, de como vai ser esse dom”. Por enquanto, vai lapidando peças e também o próprio talento.
Mais decidida a investir na área, a advogada Brisa Gonçalves Cruz diz que está se sentindo como um pato na lagoa ao fazer as peças, pelo seu amor às artes e porque na infância usava muitos adornos. “Quando eu era criança, parecia uma cigana, com vários anéis, colares”, brinca a advogada, que chegou a pensar em cursar artes plásticas.
Seguiu no direito, mas permaneceu com uma lacuna. Com base na experiência da cunhada do seu pai, que tinha feito o curso do Senai, decidiu se matricular também. Brisa adora fazer o acabamento das peças. Segundo testemunho do professor, foi a mais rápida entre os alunos no polimento.
Ela gostou de trabalhar com prata, mas não muito com cobre. “Enferruja cedo e não fica com uma aparência muito bonita”. Um detalhe é que os alunos são responsáveis por levar o metal a ser fundido. Como o ouro é muito caro, quase todo mundo opta por comprar prata mesmo.
Mais informações sobre os cursos podem ser obtidas no site curtaduracaosenaiba.com.br.
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
Participe também do nosso canal no WhatsApp.
Compartilhe essa notícia com seus amigos
Siga nossas redes




