CRÔNICA
Deliberações matinais
Confira a crônica deste domingo


São exatamente 9:13 da manhã, tomei meu primeiro café preto e, embora eu ainda tente entender o mundo ao meu redor, ele já está a todo vapor: a obra aqui do lado já começou, meu vizinho já está ouvindo sertanejo raiz, uma mãe do Instagram está desesperada com o enxoval da criança, enquanto o pai prefere deixar para o último mês (minha irmã grávida está ansiosa pelo mesmo motivo e me mandou isso), e vi uma notícia de que os arranha-céus vão terminar afundando Nova Iorque, será? Ou vai ser tipo Veneza que a previsão era de inundação, mas a cidade começou a secar? Esse raciocínio não faz o menor sentido, deixa para lá, eu não deveria ter entrado no Instagram tão cedo.
Enfim, a boa notícia é que acordei e estou de pé! No susto, é verdade, para uma reunião que não teve, isso também é verdade, porque é feriado na França e eu esqueci (não aguento mais essa brincadeira de fusos horários e calendários diferentes no trabalho, vou ficar louca). A má notícia é que tenho uma crônica para entregar hoje e ainda não sei por onde começar. Vou fazer outro café.
Meu contador me mandou uma mensagem, será que é problema? Eu nunca tive um contador e acho que tudo que envolve dinheiro vai dar em tragédia, então toda vez que ele fala comigo meu sangue gela. Na próxima encarnação gostaria de ser um gato de apartamento, para não ter que pensar em salário, ou de nascer num sistema solar onde a moeda de troca fosse a fofoca (de qualquer tipo, pessoal ou de gente desconhecida, fofoca institucional, intelectual, virtual, tanto faz) e onde todas as nossas necessidades básicas fossem garantidas. Trabalharíamos pelo prazer de construir coisas úteis e belas. Já ouço a galera gritar: comunista! Digo apenas que os defensores da renda básica universal não são necessariamente comunistas.
Por sinal, esses dias eu li uma carta endereçada a toda a Europa, escrita por um europeu radicado nos Estados Unidos, que se declarava a favor da democracia liberal. Até aí tudo normal, o que me chamou a atenção foi um argumento específico. Segundo ele, a democracia liberal demanda que sejamos capazes de conviver com pontos de vista diferentes dos nossos e que ele aceita a ideia de pessoas (não entendi se real ou hipoteticamente) desejarem matá-lo, contanto que sigam as leis e não levem a cabo seu desejo. Tudo bem, mas a minha questão é: as leis não são divinas ou naturais, as leis são feitas por pessoas, ou seja, elas podem se voltar contra qualquer um, a história está aí para provar. Visto que nos EUA ainda existe pena capital, será que estaria tudo bem para ele ser punido com ela, em nome dessas mesmas leis que hoje o protegem?
Não sei não, meu problema com os liberais é justamente essa ideia de que tudo irá se auto regular, através do capital, é claro, e que os direitos humanos são mais uma moeda de troca. Isso eu não consigo aceitar. Mas por que eu engatei nesse assunto mesmo? São 10:35 da manhã, a única coisa que ingeri até agora foram duas xícaras de café preto e já estou aqui filosofando sobre o passado e o futuro da humanidade. Depois fico me perguntando de onde vem toda essa minha ansiedade. Escrever é um processo interessante, quando você menos espera, ele te pega pelo pé e te leva a lugares imprevistos.
Fiz uma tapioca com requeijão e estou mais tranquila agora. Hoje não resisti ao café amargo e ao fluxo matinal da memória e do texto, mas da próxima vez vou comer direito e me preparar para falar de coisas mais alegres, prometo.