Editora baiana amplifica vozes de escritoras negras em podcast

Episódios já estão disponíveis em todas as plataformas digitais

Publicado segunda-feira, 21 de março de 2022 às 06:00 h | Atualizado em 21/03/2022, 12:01 | Autor: Álene Rios*
: Adriele Regine já divulgou mais de 500 autoras na editora Lendo Mulheres Negras
: Adriele Regine já divulgou mais de 500 autoras na editora Lendo Mulheres Negras -

Quantas escritoras pretas você já ouviu? É essa a pergunta que o podcast Palavra de Mulher Preta, da editora soteropolitana Lendo Mulheres Negras (LMN), propõe responder com várias indicações. 

Durante 30 dias, contados a partir do último domingo, dia 13 (que inclusive antecedeu os 108 anos de nascimento da escritora Carolina de Jesus, no dia 14 de março), o projeto vai lançar um episódio por dia contando a história de uma escritora negra. Dois terços das homenageadas são baianas e publicaram as suas obras de modo independente. 

As literaturas negra, indígena e asiática, para muitos, ainda são vistas como  nichos, e na ausência de incentivos por parte do poder público, iniciativas independentes acabam sendo responsáveis por impulsionar as obras literárias. 

De acordo com um levantamento desenvolvido pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea da Universidade de Brasília (UnB), mais de 60% dos escritores moram no eixo Rio-São Paulo. O panorama apresenta ainda dados sobre a literatura de 2005 a 2014 e aponta que, nesse período, 97,5% dos autores eram brancos.

Ao longo de quase seis anos, a mestra em estudos étnicos e africanos e coordenadora do podcast, Adriele Regine, já divulgou mais de 250 obras e mais de 500 autoras na editora Lendo Mulheres Negras, onde é CEO ao lado de Evelyn Sacramento, autora do livro Menina Nicinha. A iniciativa começou como um clube do livro, mas logo depois se tornou um projeto literário, se transformando em editora no último ano. 

Sete chaves

O propósito da LMN é possibilitar que as autoras sintam-se seguras para publicar suas obras e confortáveis para apresentar aquilo que guardam a sete chaves – mas principalmente a se verem como escritoras, por se tratar de um processo atravessado por questões de autoestima.

“O mercado editorial nunca conseguiu olhar para as mulheres negras e pensar nessa escrita, então, o que a gente quer muito fazer e temos trabalhado nisso desde 2016, é mostrar que a literatura negra pode ser o que ela quiser, pode ser terror,  ser ficcional, um romance água com açúcar, não precisa ser só dor, só narrativa de sofrimento”, defende.

Para além da divulgação do trabalho de diversas escritoras, o podcast quer fazer com que as pessoas conheçam, se interessem e estimulem a compra dos livros, peça importante para que o mercado editorial possa girar, uma vez que a falta de capital para investir em lançamentos é uma das principais dificuldades para as autoras.

“Tudo foi muito pensado e planejado para que pudéssemos justamente honrar os legados de autoras que vieram antes, que construíram toda essa base, esse caminho para nós, mas também possibilitar que mais pessoas conheçam mais autoras, diversas e da nova geração”, diz Adriele.

A cada episódio  o público conhece a história de uma escritora negra, como as  baianas  Juciane Reis e Jovina Souza; nomes consagrados como  Carolina Maria de Jesus e Jarid Arraes, e autoras internacionais, como Abi Daré e Françoise Ega. 

Confiança

As baianas Deisiane Barbosa e Mayne Silva estão entre os nomes que aparecem no podcast, autoras de Cartas à Tereza: fragmentos de uma correspondência incompleta e Sal, limão e afeto, respectivamente. Mayne sempre escreveu, mas não confiava que a sua escrita valesse uma publicação. 

Até entender a sua potencialidade,  passou por um longo processo guardando escritos desde 2014 até a publicação do seu livro em 2021.  Sal, limão e afeto está dividido em três partes: “sal” fala sobre ancestralidade, “limão” conta a parte das dores, suas e de outras mulheres, e “afeto” sobre o momento de acolhimento consigo mesma.

“Como tinha escritos, que eu falo que são as palavras ácidas, que são os desafios no mundo, essas questões sociais, eu tinha muita dificuldade, porque escrevia às vezes falando sobre os assassinatos de juventude, sobre coisas que eram muito duras, eu escrevia uma vez e não lia mais. Eu fui me empoderando, me apropriando, sabendo que  tinha a voz dessa ancestralidade, e também acolhendo essa dor, esse desafio que é colocar certas falas no mundo”, expõe.

Já a trajetória de Deisiane na literatura começou cursando letras vernáculas na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). Três semestres depois ela migrou para o curso de artes visuais, no município de Cachoeira, e por lá essa escolha  instigou ainda mais o seu processo criativo, a partir de novos exercícios de linguagem, como a carta. 

Hoje, à frente de uma editora independente artesanal, a Andarilha Edições, ela entende o livro como um objeto de arte cheio de possibilidades 

“Acreditamos que o fazer artesanal viabiliza, porque somos artistas independentes, não temos acesso aos grandes fazeres de gráficas e editoras. Sabíamos as técnicas de encadernação e começamos a acreditar que esse fazer possibilitaria uma produção mais imediata, e não só pelo acesso, mas também porque o fazer artesanal nos permite experimentar os livros enquanto formato”, revela.

Afeto

O livro Cartas à Tereza é estruturado em formato de carta, mas carrega uma narrativa que possibilita que a obra seja lida como uma novela, por exemplo. A narradora remetente vai escrevendo sobre seu cotidiano, a passagem do tempo, enquanto vive em uma casa à beira do desmanche total, pela qual tem uma relação de afeto e vai resistindo, além de refletir sobre outras questões, como estar no mundo, deslocamento e memórias.

A primeira temporada do podcast Palavra de Mulher Preta está disponível em todas as plataformas digitais de áudio, no canal do Youtube e no Instagram da editora Lendo Mulheres Negras, foi contemplada pelo Prêmio Riachão da Fundação Gregório de Mattos, por meio da Lei de Emergência Cultural Aldir Blanc, destinado pela Secretaria Especial da Cultura do Ministério do Turismo, Governo Federal.

*Sob supervisão do editor Marcos Dias

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