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Grafite: Eder Muniz condensa em livro três décadas de arte urbana em Salvador

Gilson Jorge
Por Gilson Jorge
| Atualizada em
Eder explica que sua ambição é tornar o livro uma espécie de bíblia do grafite soteropolitano
Eder explica que sua ambição é tornar o livro uma espécie de bíblia do grafite soteropolitano - Foto: Divulgação|

Por volta dos anos 2010, os grafites de Eder Muniz no Centro de Salvador chamaram a atenção de duas pessoas que depois seriam importantes em sua trajetória artística. O designer Rafa Moo, então um adolescente de escola pública, estava vidrado nos desenhos de diferentes artistas que via nos muros do Santo Antônio, a caminho da aula.

E a então urbanista norte-americana Carly Fox, que veio a Salvador em um programa de intercâmbio da Associação Cultural Brasil-Estados Unidos (Acbeu), ficou impressionada com a cultura do hip-hop e do grafite na cidade, que, a seu ver, demonstrava a energia política e de resistência urbana que não enxergava mais em seu país.

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Como atividade acadêmica do intercâmbio, fez uma pesquisa sobre a experiência do Salvador Grafita, programa realizado pela prefeitura municipal que buscava substituir o pixo pelo grafite.

Rafa terminou a graduação em belas artes na Ufba com um trabalho de conclusão de curso (TCC) que era um livro sobre o trabalho de Eder Muniz. Carly e Eder começaram uma relação amorosa e ela o levou a seu país junto com outro grafiteiro baiano, Dennis Sena, para palestras em universidades e trabalhos em murais.

Cena

O casal iniciou o projeto de um livro sobre a cena de grafite na Bahia, que acabou parado por um tempo. Eder retomou o livro, que será lançado no próximo dia 8 de abril, com o título Ruas Salvador: liberdade clandestina, que traz um panorama do grafite e do pixo na cidade entre as décadas de 1990 e 2020 em 400 páginas.

“O livro começou a partir do meu contato com a pesquisadora Carly, que me entrevistou. A gente começou a se relacionar e eu propus que a pesquisa virasse um livro, comigo fazendo uma ponte entre a academia e os artistas”, explica Eder, que assina os grafites como Calango.

Parado desde 2010, o projeto foi retomado no ano passado quando Ricardo Cavalcanti, da produtora RCD, consultou Eder se ele tinha algum projeto inscrito em editais pela Lei Aldir Blanc. “Falei que tinha o livro, mas que precisava atualizar entrevistas”.

Um desafio foi abarcar os painéis que surgiram ao longo dessa década em que o projeto esteve parado e contemplar também a crescente produção feminina. “Na época, não havia tantas mulheres participando da cena”, diz.

Além disso, Eder se preocupou em contar a história da nova geração de pixadores. “Tem livro que faz distinção entre pixo e grafite, mas o pixo é a raiz do grafite”. E uma entrevista foi puxando outra: “Sentimos a necessidade de ouvir a velha escola”.

Bíblia

Eder explica que sua ambição é tornar o livro uma espécie de bíblia do grafite soteropolitano, destacando que se trata de uma edição bilíngue, português e inglês. Um sonho para o qual contou com a participação da Editora Gris, comandada pelo amigo Rafa Moo e por sua sócia Lara Perl.

“A gente pensa no livro como um objeto de estudo de importância nacional e internacional e como registro de obras que são efêmeras”, afirma Lara.

Eder pontua que não há muitos livros do gênero publicados na cidade e destaca Grafitti Salvador, de Bárbara Falcon e Ana Carolina Garcia, como outra referência na área. Carolina, aliás, é uma dos seis fotógrafos contratados para registrar os grafites no livro.

“Há outras obras, mas sem a fala do artista, do pixador, do grafiteiro”, diz o organizador do livro, que espera ajudar a preencher o que considera uma lacuna na produção editorial na cidade.

O livro apresenta biografias e entrevistas com mais de 40 artistas e fotos de seus trabalhos. Estão presentes nomes como Tom PPL, Mina, Marcelo Verme, Ananda Santana e Scank, que foi morto a tiros em fevereiro do ano passado enquanto desenhava um mural na Avenida Garibaldi.

Uma tragédia que mostra como o grafite ainda está sujeito à violência e à estigmatização mesmo depois do reconhecimento internacional de nomes como o do próprio Calango, e da reputação como arte que leva governos e empresas privadas a investir em arte de rua como forma de valorização urbana. Desde o ano passado, a fachada da sede de A TARDE, por exemplo, conta com um desenho feito por Kobra.

Vítima da Covid-19, Flos, ou Flávio Oliveira, teve seu trabalho incluído no livro de Eder como homenagem póstuma ao artista, que, além dos desenhos no Carmo, era um militante da arte e dono do bar Oliveira’s.

Arte política

Para Carly, que lançou a semente do livro depois de sua primeira visita a Salvador, fica a concretização de um projeto que registra a militância artística nas ruas da capital baiana. “O hip-hop nos Estados Unidos ficou muito comercial. Em Salvador, vi uma arte política, que precisava ser mostrada lá”, define a ex-urbanista que hoje atua na defesa dos direitos de trabalhadores rurais estrangeiros nos Estados Unidos.

No campo das ideias, Rafa Moo considera que o livro é importante para estreitar o diálogo entre os grafiteiros e a sociedade: “O livro serve para que as pessoas possam compreender melhor o trabalho desses artistas e valorizar o trabalho deles”.

O livro, que vai custar R$ 120, começa com um texto de apresentação da cidade do Salvador escrito pelo poeta James Martins. E tem, ao final, um texto do rapper Virus. Em tempos de pandemia, uma forma de tentar contagiar o público com a pulsante produção de arte de rua da velha Cidade da Bahia. O lançamento acontece dia 8, às 20h30, no canal @livroruasalvador, com uma live reunindo Eder Muniz, Ricardo Cavalcanti, Roca Alencar, Carly Fox, Carol Garcia, Lara Perl e Rafa Moo, da Editora Gris.

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