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Histórias nos bordados

Reflexões e alegrias refletidas nas obras das artistas baianas Milena Oliveira e Lia Gonzalez

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Por Muito

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Oxossi, bordado, Lia Gonzalez
Oxossi, bordado, Lia Gonzalez - Foto: Luiz Freire/Divulgação

Poucas possibilidades de expressão artística foram reservadas às mulheres em sociedades patriarcais e cristãs como a nossa. O modelo de educação feminina vigente até a primeira metade do século 20 incluía o aprendizado dos trabalhos de agulha: corte, costura, bordados e manualidades em tecidos, papéis e outros materiais mais frágeis, cujos produtos foram identificados pejorativamente de artes menores e artes decorativas.

O instrumental e materiais são portáteis, leves e facultam a manufatura em muitos lugares, principalmente nos cômodos sociais e íntimos da casa. Com isso, as mulheres, via de regra, conceberam obras fabulosas, seja repetindo com apuro técnico os padrões tradicionais, seja inventando novas formas e até técnicas diferenciadas. Pouco dessa produção sobreviveu para a apreciação posterior, não havia interesse na coleta e preservação, e tardou muito a galgarem o status de arte.

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O Instituto Feminino da Bahia, fundado em 1923/29 por D. Henriqueta Martins Catharino e Monsenhor Flaviano Pimentel, é uma rara instituição no Brasil que adquiriu sistematicamente, preserva, expõe e disponibilizava para pesquisa parcela significativa dessa produção. Desde a pandemia que a instituição impede o acesso ao acervo e à documentação.

Lia Gonzalez e Milena Oliveira pertencem a uma geração de mulheres isentas do aprendizado dos trabalhos de agulha, já haviam conquistado a liberdade de opção profissional, principalmente de rejeitarem o aprendizado das “prendas do lar”.

Milena expõe no Goethe-Institut Salvador/Icba, de 15 de março a 28 de abril de 2023, trabalhos que concebeu na reclusão da pandemia, traduziu em linha e agulha seus sentimentos mais profundos. Nunca tinha bordado na vida, apesar de as mulheres da família costurarem, lançou mão dessa técnica sem qualquer conhecimento prévio e, por isso, descondicionada da prática tradicional dos pontos e do repertório ornamental do bordado tradicional.

Foi impulsionada a adotá-lo como meio expressivo em função da clausura pandêmica da covid-19, dando à técnica uma conotação autoral, pois o resultado confunde-se com desenhos a nanquim e a lápis, em uma simbiose só distinguida quando diretamente visualizada, já que a reprodução fotográfica pouco alcança dessa sutileza.

Como no bordado tradicional, as cenas insólitas são desenhadas em papel manteiga e transferidas para os tecidos/telas com carbono apropriado, mas ao ferir e trespassar o têxtil, essa guia é alterada, tudo isso com a pretensão de “comunicar essa fragilidade, essa vulnerabilidade nossa, esses pequenos estranhamentos e imperfeições”.

São desenhos bordados que envolvem angústias, solidão, afetos e autoproteção. Penetrar nos delicados mosquiteiros de Milena é um encontro com a sua natureza introspectiva, melancólica, cumulativa da experiência de perda de sua mãe, em 2010, do enfrentamento de um câncer, e do desamparo de um isolamento involuntário, agonizante e cerceador do afeto do marido e familiares, que mesmo perto, longe deveriam se manter.

Os bordados desenhados de Milena possuem um contraste atrator, são leves e densos ao mesmo tempo, têm o peso da mudez interna, da crise existencial, do pensar a vida, da necessidade de cura, proteção e amor. Tais tormentos pode-se sentir nas demais obras expostas, em particular em um amontoado de travesseiros bordados, Camarinha (2021), em que o acúmulo e a desordem nos falam sobre a confusão de sentimentos e conflitos da artista.

Naturalização, de 2022, uma cama bordada sobre tela e lápis aquarelado, com as pernas para cima e coberta por mosquiteiro, também nos induz a pensar nas dúvidas e dilemas da existência, no desalinho, no desamparo e na prisão interior.

Um mosquiteiro físico, de filó, está pendurado na sala de exposições com muitas cruzes latinas bordadas em linha preta, foi peça de uma performance encenada na abertura da exposição, e diz das informações chegadas através das mídias, acerca do número assustador de infectados e mortos nos primeiros meses. A artista foi a primeira da família a ser infectada pelo Sars-CoV-2 em 2020, e amargou um severo e prolongado pós-covid-19.

De classe média, nasceu em Jacobina, mas logo mudou-se para Salvador. Seu apego a arte foi muito precoce e incentivado por seus pais, pois reconheceram seu talento no desenho e na pintura, ambos com profissões distantes do fazer artístico, tiveram sensibilidade em estimulá-la.

Bacharela em Artes Plásticas, encontrou soluções autorais no atelier de cerâmica da Escola de Belas Artes da UFBA, sob a orientação do professor Eriel Araújo. Aí desenvolveu peças tridimensionais com figurações conformadas através da gravura ponteada com a agulha, cujo resultado final se dá através de esmaltamento, ressaltando os diminutos pontos.

Permeio é um desses trabalhos cerâmicos em que sua imagem fotográfica, transferida por pontilhamento, funde-se com a de sua mãe. Está prestes a ingressar no acervo do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, por indicação do curador e crítico de arte Paulo Herkenhoff, depois de conhecer seu trabalho na Alban Galeria, responsável por negociar suas obras.

Aos 34 anos de idade, Milena desponta com grandes possibilidades de afirmação profissional entre a leveza e densidade de sua poética reflexiva.

Autodidata

Apesar da insistência de sua mãe, exímia praticante do bordado tradicional, para que aprendesse a bordar, Lia Gonzalez nunca se interessou em aprender, como também não aprendeu a cozinhar, foi funcionária pública na Secretaria de Segurança do Estado da Bahia. Há dez anos começou a fazer customização em roupas, bordava camisetas industrializadas, um bordado livre dos pontos e do repertório tradicional, e é autodidata em todas as atividades.

Adquiriu um CD intitulado Pirata, de Maria Betânia, cuja capa e encarte são ilustrados por um bordado do grupo Matizes Dumont, ficou com esse bordado na cabeça, e tempos depois começou a fazer o bordado livre, influenciada pela técnica da família mineira. Inclui na sua temática os orixás, escreve e publica, em uma dialógica assim explicada: “Eu, às vezes, bordo o que escrevo, ou escrevo a partir do que bordo”.

Constrói narrativas em que natureza e orixás se integram em um colorido simbólico. Prefere o linho e tricoline 100% algodão, as meadas de linhas de algodão, produzindo seus próprios matizes, paleta de cores frequentemente composta nas meadas que produz.

As encomendas partem majoritariamente do público feminino por indicação de outras clientes, ou por conhecerem através das redes de relacionamento da Internet (Instagram e Facebook). Sentiu dificuldades na representação da figura humana, rosto em especial, procurando saná-las através da repetição de modelos, por isso sente a necessidade de fazer cursos.

Ela desenha antes em papel manteiga, porém considera os seus desenhos infantis, mas é nesse caráter em que reside a espontaneidade e vivacidade dos seus bordados.

Percebe que o desenho, que considera deficitário, e aí atua um conceito da forma realista como modelo, toma formas mais aprimoradas no ato de bordar, atribui isso a uma mágica e é nessa mágica que somos agraciados com cenas vibrantes, identificadas com a visão romântica da natureza onde vivem os deuses que nos proveem de felicidade. Remetem ao paraíso rural e a ingenuidade das crianças. Ela considera seus bordados como os de crianças, ou seja, iguais as composições infantis.

Existe neles uma determinação madura, de uma mulher nascida em 1964, que aprendeu a bordar, bordando ao tempo que prenhe da memória visual dos fazeres de sua mãe.

Tanto borda roupas femininas quanto almofadas e painéis, assinados com o próprio bordado. Nos painéis, suas criações descolam-se do suporte útil, mas ser belo também corresponde a uma utilidade.

Lia não se queixa de falta de trabalho, não dá conta de tantas encomendas, obtendo um rendimento extra importante. Os motivos podem ser sugeridos por quem encomenda, mas frequentemente a artista fica livre para as escolhas.

Não tendo aprendido os pontos tradicionais, desenvolveu sua própria técnica e estilo a partir da prática e com ela materializa suas ideias. O avesso dos bordados desagradaria sua mãe. Mas explica: “Os nós estão aparentes, assim como os nós que temos na psiquê e na vida”. Para Lia, “a arte adia o fim do mundo”.

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