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Igreja cristã inclusiva em Salvador acolhe pessoas da comunidade LGBTQIA+

Maria Clara Andrade
Por Maria Clara Andrade
| Atualizada em

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Andreia e Lanny: revelação e casamento | Foto: Felipe Iruatã | Ag. A TARDE
Andreia e Lanny: revelação e casamento | Foto: Felipe Iruatã | Ag. A TARDE - Foto: Felipe Iruatã | Ag. A TARDE

No último Censo, realizado em 2010 pelo IBGE, o número de brasileiros autodeclarados cristãos manteve-se em indiscutível predomínio: são 86,4% da população. Nessa estatística, dois grupos se mostram soberanos: católicos e evangélicos. Enquanto o primeiro vem perdendo ano após ano o seu número de fiéis, o outro engata em constante crescimento.

Em comparação com 2000 (ano do Censo anterior), a Igreja Católica perdeu 1,3% dos seus fiéis, com uma redução de mais de 1,7 milhão em números absolutos. Por outro lado, a religião evangélica saltou 61,45%. O próximo Censo, previsto inicialmente para este ano, sofre com incertezas do governo e ainda não sabemos se irá ocorrer. É provável que o número de evangélicos tenha crescido ainda mais, mesmo que ainda distantes de alcançar os católicos.

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Ninguém sabe ao certo as motivações de tal fenômeno, a nova onda de conservadorismo mundial pode ser uma delas. Mas, ao contrário do que é reproduzido pela igreja tradicional, novos grupos e congregações surgem para mostrar que há espaço para todos na religião evangélica. As chamadas igrejas inclusivas são, hoje, espaço de aceitação, não importando a sua orientação sexual ou identidade de gênero.

Em Salvador, a Igreja Cristã Contemporânea (ICC), primeira igreja Evangélica LGBT na cidade, completou um ano com sede na capital baiana, em maio. Antes disso, representantes da igreja realizavam encontros em salões de festa alugados, desde 2016.

Congregar

Fundada pelo pastor Marcos Gladstone, em 2006, a ICC nasceu por um desejo próprio do pastor em acolher homossexuais que, assim como ele, gostariam de exercer a sua fé. “Eu já era evangélico e sentia muita falta de poder estar congregando, de poder viver a minha fé nos moldes cristãos, eu não encontrava esse espaço, não havia lugar. Foi quando conheci a teologia inclusiva, que é essa teologia que acolhe todas as pessoas sem preconceitos de orientação sexual, de toda a sigla LGBTQIA+”, conta o pastor.

Além da igreja que fundou, o pastor também publicou um livro, pautado na teologia inclusiva, que se tornou best-seller entre o público cristão LGBTQIA+, A Bíblia sem Preconceitos. “O livro faz uma releitura das passagens bíblicas que usam para condenar a homossexualidade, mas que, na verdade, nunca foi condenada. A gente mostra, por exemplo, que houve erros de tradução, a gente mostra que houve manipulação da palavra de Deus”.

Para pastores da igreja tradicional, a teologia inclusiva é considerada um “engano”, como dizem artigos coletados em portais evangélicos. Já para os fiéis que não seguem os padrões de heteronormatividade, é a janela encontrada para viver em comunhão com a sua identidade e a sua fé. “Essa teologia inclusiva entende e tem as interpretações e as aplicações de que Deus ama a todos e não faz distinção de pessoas”, conta Rubens Lopes, rodoviário.

Rubens frequenta a igreja desde os 7 anos, quando a mãe se converteu: “Cresci aprendendo com as doutrinas, dogmas e costumes da igreja”. Hoje, aos 39, os ensinamentos cristãos continuam a reger a sua vida, sem que a sua orientação enquanto homem gay seja posta de lado.

Casamento

Em 2018, o casamento homoafetivo saltou 61,7% em meio ao receio do que estaria por vir com a iminente eleição do presidente Jair Bolsonaro. O medo, felizmente, não se consolidou. A união homoafetiva continua sendo um direito no país. Para o casal Ton Shübber e Jai Freittas, assim como para Andreia e Lanny Miranda, que já formalizaram a união no civil, agora falta mais um passo para o sonho se realizar por completo: a celebração religiosa de seus casamentos, adiadas por conta da pandemia.

Ton e Jai completam um mês de casados amanhã. Eles contam que possuíam vínculos com a igreja desde muito novos, mas, por conta de preconceitos vividos, ambos saíram de suas respectivas igrejas tradicionais.

Ao se conhecerem, reencontraram a fé guardada há muito tempo. “Tem dois anos que a gente se conheceu e a gente começou a frequentar a igreja juntos. Eu comecei a entender que realmente essa relação com Deus é individual, ela independe do que o outro disse a respeito”, conta Jai, 31 anos, professor de artes visuais.

Antes disso, Ton, que frequentou a igreja tradicional dos 10 aos 19 anos, tentou restabelecer o vínculo perdido com o espaço, mas o preconceito o impediu. “Em 2018, eu tentei retomar em uma outra igreja. Foi uma experiência boa, mas, em um momento, o líder me chamou e disse ‘você pode até continuar, mas você vai ter que repensar a sua sexualidade’, e como que se repensa a sexualidade?”, questiona Ton, 33.

Servir a Deus

As esposas Andreia e Lanny Miranda também reingressaram na religião evangélica juntas. Aos 43 anos, Andreia mantinha viva a vontade de servir a Deus, mas o medo de não ser aceita em uma igreja a impedia. “Como essa chama já estava acesa dentro de mim, eu comecei a orar, comecei a falar que eu queria servir a ele, que ele sabia o desejo no meu coração, mas que eu queria ir desse jeito que sou, casada com uma mulher”, conta, ao lembrar o momento em que Deus “se revelou” para ela.

Depois desse momento de oração, recebeu o convite de uma amiga que não falava há algum tempo, para ir em um encontro de casais na igreja. Compreendeu como um sinal. Iniciaram juntas uma nova jornada. “Eu já conhecia o evangelho, quem me trouxe na verdade de volta para a casa do Senhor foi a minha esposa. Porque ela se converteu e me resgatou”, diz Lanny.

Para Rubens, Andreia, Lanny, Ton e Jai, a religião é imprescindível em suas vidas, assim como ser quem eles são. “A gente quer provar que a gente não precisa provar nada para ninguém”, comenta Ton, e Jai complementa: “Mas a gente não fica tentando provar, a gente vai vivendo”.

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