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Karina Menezes: "O desafio da escola é virar um lugar em que se deseje estar"

Tatiana Mendonça
Por Tatiana Mendonça
| Atualizada em
A tese da pedagoga Karina Menezes sobre pedagogia hacker foi premiada pela Capes como uma das melhores do país
A tese da pedagoga Karina Menezes sobre pedagogia hacker foi premiada pela Capes como uma das melhores do país -

Como a Alice no seu País das Maravilhas, os hackers acreditam em seis coisas impossíveis antes do café da manhã: “1. Adultos aprendem brincando. 2. Trabalho e diversão não se separam. 3. Afeto e objetividade caminham juntos. 4. Diferença e igualdade são inseparáveis. 5. Ser hacker é um estado de espírito. 6. Tudo é possível dentro da P2H”, a Pirâmide da Pedagogia Hacker. Quem fez a lista e ainda descreveu o que é, afinal, essa tal de pedagogia hacker foi a pesquisadora mineira Karina Menezes. Desde cedo, ela se interessou por computadores, tanto que aprendeu a montá-los e desmontá-los e, em 2013, passou a integrar o Raul Hacker Club, em Salvador. Ali, começou a perceber que o ensino nesses espaços se dá de forma muito particular, num “contexto de aprendizagem caótico, fragmentado, pouco preocupado com a eficácia, com a eficiência ou com os resultados do processo educativo, se comparado ao cenário da educação escolarizada, mas no qual, a despeito de tudo isso, ainda se aprende”. Na sua tese de doutorado, Karina conversou com integrantes de 22 espaços hackers brasileiros para sistematizar esse processo educativo. E acredita que muito do que se vive ali pode ser levado para as escolas. A pesquisa, orientada pelo professor Nelson Pretto, na Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia, foi o único trabalho baiano na lista dos vencedores do Prêmio Capes 2019, que elegeu as melhores teses defendidas no país no ano passado. Para Karina, a premiação mostra que da ‘balbúrdia’ atribuída nos últimos meses à universidade brasileira brota, na verdade, “conhecimento inovador e de qualidade”.

Você pesquisou 22 espaços que reúnem hackers em várias regiões do país para construir o que chama de “pedagogia hacker”. Quais são as principais estratégias de aprendizagem nesses locais?

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Essa pedagogia tem como princípios o compartilhamento da informação, a troca de conhecimento, a ludicidade, a curiosidade, o gosto pelo desafio, a experimentação, o lidar com a diferença e com o inesperado. Em alguns momentos, tem a ver também com competição, mas não no sentido destrutivo, até porque essa competição se dá em equipes, de forma relativamente colaborativa. É uma competição que tem uma intenção que não é a vitória por si mesma, mas o resultado dessa vitória. O que essa vitória gera para o coletivo, para a sociedade, e não apenas para a pessoa em si. É uma competição não para ganhar uma medalha, mas para produzir um conhecimento.

E como essas práticas poderiam migrar para as escolas, para o ensino mais tradicional?

A tese central do meu trabalho é o engajamento. E engajamento é muito mais do que participação. É uma decisão. Então, qual é o desafio da escola? É virar um lugar em que se deseje estar. É isso que está faltando. As escolas precisam ter mais autonomia de gestão, para que possam tomar decisões junto com a comunidade. Nos hackerspaces, as decisões são tomadas coletivamente. E hoje os processos que nós temos nas escolas são basicamente políticas que vêm de cima, que se impõem, e os gestores têm que dar resposta a essas políticas que eles não pensaram. Os professores têm que dar respostas para o que não pensaram, porque eles não têm tempo e nem têm estímulo, o que acho pior ainda... Eles não são estimulados a sentar com a sua comunidade e descobrir, discutir o que a gente quer para essa escola. Acho que é um processo democrático que está faltando.

As escolas que têm bons índices de aprovação, que têm menos sofrimento docente, menos evasão, qual é o segredo delas? É alguma forma de engajamento que foi criado a partir de um processo que mantém os princípios.

Você falava de engajamento, e muitos jovens, por variadas razões, deixam a escola, especialmente no ensino médio. Essa ludicidade, a diversão indissociada do trabalho que você aponta como um marcador da pedagogia hacker, vai sendo escanteada ao longo do processo de aprendizagem.

Quando a gente fala de diversão, às vezes as pessoas imaginam que é algo supérfluo. Só que a gente aprende com essa pedagogia hacker que a diversão está ligada ao afeto, à afetividade, que é o que lhe direciona para algo, e isso está dentro de uma dimensão lúdica. O lúdico não é só brincadeira. O lúdico eu compreendo como toda uma ambiência que lhe motiva emocionalmente. Então, perceba, a diversão é só um aspecto do lúdico. Tem o desafio, o desejo de você realizar alguma coisa e, para isso, você faz até coisas chatas. Acho que é isso que falta um pouco na escola. É pensar que a gente precisa assumir as diferenças, assumir as identidades e assumir as afetividades. A gente sabe que tem professores específicos, gestores específicos, que conseguem fazer a diferença. Só que as escolas hoje, de modo geral, infelizmente, parecem tão opressoras. Parece que os estudantes, vários deles, estão ali porque precisam ir, os professores também. Não porque desejam. Quando a gente para para pensar na ludicidade como algo mais amplo, mais desafiador, mais afetivo – e ao mesmo tempo mais efetivo –, a gente já consegue ver outro ambiente de aprendizagem.

É algo que parece tão claro, mas ao mesmo tempo tão abstrato... Como é que uma escola se torna, na prática, mais afetuosa e mais engajadora?

Eu quero trazer o caso do Crianças Hackers, que é meu projeto do coração. O que a gente definiu ali? Primeiro: crianças e adultos aprendem juntos. Segundo: segurança não é brincadeira. Terceiro: de barriguinha cheia se aprende melhor. Quarto: a curiosidade é nosso guia. E quinto: todo mundo cuida de todo mundo. Então, quando a gente pegou esses princípios e se propôs a fazer atividades com crianças, a gente viu que é possível operacionalizar sem grandes sacrifícios, mesmo com grupos grandes, com 60 pessoas. Assim, se a escola consegue a partir de si mesma discutir e estabelecer coletivamente seus princípios e definir práticas coerentes com esses princípios, tem muita chance de dar certo, apesar de todas as dificuldades. As escolas que têm bons índices de aprovação, que têm menos sofrimento docente, menos evasão, qual é o segredo delas? É alguma forma de engajamento que foi criado a partir de um processo que mantém os princípios.

Que tipo de atividades vocês promovem no Crianças Hackers?

A gente começou com duas crianças, meu filho e um coleguinha. Eles montavam um quebra-cabeça e aí já estavam exercitando a paciência, a inteligência visual, espacial, a coordenação motora fina, a interação entre os dois. Depois, quando chegaram mais crianças, a gente passou a oferecer cinco atividades, para que elas pudessem se engajar de acordo com o interesse. Uma das cinco atividades é sempre um cantinho de leitura com uma almofada. A gente considera que o descanso também é uma escolha, além de ser uma necessidade. E aí a gente tem uma atividade principal, por exemplo, uma corrida de carrinhos movida a balão, e aí em outro canto tem massinha de modelar, em outro tem desmontagem e montagem de brinquedos, e mantivemos o quebra-cabeça. E aí as crianças vão se movendo e os adultos também. A gente fez um encontro na praça, em frente à sede do Raul Hacker Club, no Rio Vermelho, e foram umas 60 pessoas, entre crianças e adultos. A primeira coisa é uma roda de conversa para compartilhar os princípios.

É curioso porque essas atividades são analógicas, digamos, não têm relação com tecnologia digital, com computadores, tablets e celulares.

Nossa concepção de tecnologia é ampliada. Porque tecnologia é o humano, são as produções humanas que você consegue replicar. Tecnologia não é só os artefatos digitais. Por exemplo, você tem tecnologia na culinária. Você tem os artefatos, a panela, o garfo, tem os temperos, os insumos, e quando você junta isso em processos, você tem uma tecnologia gastronômica. A gente combate um pouco esse excesso de tecnologia digital. A gente tenta evitar que nossas crianças fiquem restritas ao tablet, ao computador, ao celular... Não que elas não usem. Mas elas usam com a nossa mediação, a nossa presença, a nossa intervenção. Nos encontros, começaram a aparecer crianças bem pequenas, de 2 anos, e aí a gente colocou uns bloquinhos de armar para os bebês. Era muito engraçado porque você via uma avó com um bebê e depois um menino grande lá sentado para montar... A vivência intergeracional é muito interessante, e falta isso nas escolas. A escola acaba sendo um mundo à parte do mundo, quando a gente para para pensar. Nós tivemos que dar uma pausa no Crianças Hackers, mas a gente quer voltar mantendo a frequência dos encontros abertos uma vez por mês. Nosso sonho é esse.

Havia essa ideia de que os computadores iriam revolucionar as escolas e a educação, e parece que isso ainda não aconteceu. Não é incomum chegar a uma escola pública e ver os laboratórios trancados... Como fazer com que a tecnologia digital seja, de fato, vertente de mais conhecimento, nas instituições públicas e também nas privadas?

As pessoas esquecem que toda nova solução traz novos problemas (risos). De modo geral, trazer tecnologias para um local em que as tecnologias não são ainda parte daquela cultura é trazer problema. Não que não deva ter, porque se hoje a gente precisa de computador para ter acesso a conhecimento, todos temos direito a computador. Se nós precisamos de celular para ter acesso à comunicação, todos temos direito ao celular, a um plano que se possa pagar. Só que esse processo desconsiderou o fator mais importante, que é o fator gente. Isso que você falou, dos laboratórios fechados, é isso que acontece. Os alunos não têm acesso. E por que isso acontece? Porque não teve um momento de mobilização entre gestão, entre estudantes, para se entender a implicação daquelas máquinas ali dentro. O que pode ser feito com elas, o que não pode ser feito. No fim das contas, quem responde por tudo é o gestor. Uma máquina quebrada, uma máquina que some, cai no CPF de uma pessoa específica, com uma vida específica. As polícias são pensadas sem implicar o coletivo. E aí você tem o gestor que prefere deixar fechado, por receio. Então, assim tem um problema que é realmente de fortalecimento das pessoas. Assim como os gestores e professores precisam confiar nos estudantes, os gestores públicos também têm que confiar nos gestores escolares, criando mecanismos de proteção e de formação.

Isso que as pessoas chamam de balbúrdia não é balbúrdia. É conhecimento humano. E a gente cresce com isso.

Os cursos de programação para crianças estão se popularizando, como se elas devessem aprender essa nova ‘língua’. O que você pensa desses cursos? Eles se aproximam da pedagogia hacker?

Gente do céu! Quando surgiu a máquina de escrever, tinha curso de digitação. Todo mundo fez, poucas pessoas usaram, muita gente ganhou dinheiro. Depois, quando saem os computadores, surgiram vários cursinhos de informática – aprenda DOS, aprenda isso, aprenda aquilo. Muitas pessoas fizeram, poucas pessoas usaram. E os cursinhos de programação acho que vão pelo mesmo caminho. Eu ainda não vi nenhum curso dizendo assim: aprenda a programar para entender como o mundo funciona. Esse é hackerista. O que eu já vi é curso querendo ensinar a programar para ter um lugar no mercado de trabalho. Hoje, tudo que a gente usa tem programação por trás, e a gente não sabe como funciona. E quando a gente não sabe como a coisa funciona, a gente pode ser controlado por ela. E não vi ainda nenhum curso, nenhum, que se preocupe em mostrar as implicações sociais por trás do conhecimento tecnológico que está ensinando. É joia, é importante aprender a programar para desenvolver aplicativo, mas acho que não é suficiente. A gente quando é hackerista quer realmente saber como é uma coisa funciona. E aí a gente se pergunta: será que ela poderia funcionar de outro jeito? E se a gente criar um jeito novo, a gente vai compartilhar.

O primeiro hackerspace brasileiro foi criado na Bahia, em Arraial d’Ajuda, por Regis Bailux, como você conta. E entre os membros do Bailux Hacklab estavam índios pataxós. Como acontecia essa troca?

O Bailux é uma junção de Bahia com Linux e começou com o Regis, que também participa da pesquisa. Ele conta que leu um texto que falava sobre software livre e aí teve um insight de criar um espaço que lidasse com esses saberes livres em Arraial. Ele se aproximou dos pataxós e começou a trabalhar com metarreciclagem, pegando aquele material tecnológico, aqueles artefatos que foram jogados fora, para poder então trabalhar com programação, desenvolver software e fazer as máquinas funcionarem. Eles criaram no território pataxó a Varanda Cultural, que era um espaço de tecnologia, a partir da metarreciclagem dos pataxós. Ele também criou uma rede de casas que lidam com tecnologia sustentável, com permacultura. Imagine que o Jurgen Boltz, um hacker do Vale do Silício, escolheu Arraial d’Ajuda para mostrar que era possível, sim, modificar solos. Olha que coisa hacker, eu até arrepio! O cara sai do Vale do Silício, trabalhando com tecnologia digital, de ponta, para vir trabalhar com a terra. E dizendo o que essa tecnologia pode melhorar a vida das pessoas a partir da terra. É lindo a gente saber que o primeiro hacker club veio da Bahia, não é? E o interessante é que o Regis não fez isso por conta do movimento de hacker clubs. Quem criou o primeiro inspirado por esse movimento foi o Garoa, que fica em São Paulo. É o primeiro hacker club urbano do Brasil. Mas o primeiro, primeiro mesmo, do Brasil, é daqui.

Você falou muitas coisas positivas sobre os hackers, mas ainda há um imaginário coletivo que os associa a algo bem negativo, não?

Quando eu comecei a fazer as palestras, lembro que perguntava assim: quem aqui tem medo de hacker? E muitas mãos se levantavam. Ultimamente, as pessoas têm respondido que não. Tem se disseminado essa visão mais positiva, de que são pessoas que usam seu conhecimento para produzir mais conhecimento e compartilhar.

Sua pesquisa venceu o Prêmio Capes de Tese 2019. Foi a única escolhida entre as universidades baianas. Como foi para você receber essa indicação num momento de crise para a pesquisa brasileira? A pedagogia hacker também ensina a contornar a falta de dinheiro e a como se mover nesse cenário?

Bom, primeiro a gente não desiste, né? Diante de um desafio, a gente busca mais engajamentos e tenta encontrar nosso objetivo pelas brechas. A gente busca aliados. Porque a gente precisa ter clareza que nem todo mundo é do mal, sabe? A gente tem que olhar assim no entorno e buscar as pessoas que nos fortalecem. É assim que um hackerspace vive na verdade. Nós somos poucas pessoas, mas a gente confia uns nos outros. Num momento como esse, a gente precisa olhar para o lado e saber quem são aqueles colegas com os quais a gente pode contar para se fortalecer, para não deixar morrer as coisas que são imprescindíveis, os aspectos formativos que são essenciais. Confesso que acho tanto arriscado quanto necessário receber a premiação nesse momento. É necessário porque a gente tem percebido amplos ataques à universidade como um todo, a Bahia em especial; vira e mexe nossa Ufba aparece sendo citada como balbúrdia, como confusenta, como isso, como aquilo. E educação hacker é isso mesmo, é bagunça, é caos, mas ela funciona exatamente porque ela reconhece o humano que existe no humano. Nós não somos homogêneos. A premiação mostra que a gente consegue, sim, produzir conhecimento inovador, diferenciado, de qualidade, que leva em conta os aspectos humanos na sua totalidade. Mostra que a gente está no caminho certo, sabe? Mostra que isso que as pessoas chamam de balbúrdia não é balbúrdia. É conhecimento humano. E a gente cresce com isso. Agora, por que eu acho arriscado? Porque é uma tese que é da área de educação e não fala especificamente de escola pública. Mas a educação que acontece num hacker club é uma educação aberta. E a gente precisa que os mantenedores da escola pública, gratuita e de qualidade para todos percebam isso. Não se trata de voluntariar pessoas para a escola. Não é isso. Se trata de investir nas pessoas que fazem educação. Se trata de confiar nelas. E de realmente garantir condições para que elas possam trabalhar. Isso tem a ver com liberdade. Com autonomia. E acho que isso está faltando nas escolas.

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