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CAPOEIRA ANGOLA

Livro resgata convivência de Mestre Gildo Alfinete com Mestre Pastinha

Título do livro é Capoeira Angola Mundo Afora – Uma Jornada com o Mestre Pastinha

Gilson Jorge
Por Gilson Jorge

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Ssguidores dos mestres jogam capoeira há 40 anos no Terreiro de Jessus, no Pelourinho
Ssguidores dos mestres jogam capoeira há 40 anos no Terreiro de Jessus, no Pelourinho -

No final da década de 1950, quando o adolescente Edson Arantes do Nascimento, apelidado de Pelé, começava a encantar o mundo com seu futebol, um baiano seis anos mais velho do que ele, Natalício Neves da Silva, começou a ser tratado nas ruas de Salvador como Pelé da Capoeira e Pelé da Bomba, por sua extrema habilidade com a luta e por trabalhar como bombeiro.

Se o Pelé do futebol teve como grande parceiro na conquista das Copas de 1958 e 1962 um anjo das pernas tortas chamado Mané Garrincha, aqui na Bahia quem se reunia frequentemente com Pelé da Bomba para jogar pernada na Rua do Cabeça era Gildo Lemos do Couto, o Mestre Gildo Alfinete, que, assim como o amigo, era discípulo do Mestre Pastinha.

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Ambos deixaram um legado por escrito. Em 2010, Natalício lançou em parceria com o artista visual Sante Scaldaferri a biografia O Pelé da Capoeira, pela Editora Vento Leste. No final do ano passado, os escritos de Mestre Gildo Alfinete, morto em 2015, foram publicados pelo seu irmão Genésio Lemos do Couto, o mestre Genésio Meio-Quilo, um executivo que também é capoeirista.

O título do livro é Capoeira Angola Mundo Afora – Uma Jornada com o Mestre Pastinha, lançado pela Barro de Chão Gráfica e Editora. "Desde a sua diplomação com Mestre Pastinha, em 1963, meu irmão começou a colecionar fotos e registrar os momentos que ele tinha com o mestre", explica Genésio.

Os registros de Mestre Gildo se intensificaram em 1966, quando ele viajou a Dacar, no Senegal, acompanhando o Mestre Pastinha no Festival de Arte Negra. "Ele registrava os ensinamentos que ouvia até em guardanapos, quando estavam em um restaurante", pontua o irmão.

Slides

O material fotográfico feito por Gildo Alfinete gerou dois carrosséis de slides que ele usaria depois da morte de Mestre Pastinha, em 1981, em palestras. "Em muitos momentos, quando havia perguntas da plateia, ele se emocionava e chorava, pelo amor que tinha a Pastinha e à capoeira", diz Genésio.

Empresário, Gildo nunca manteve uma academia própria de Capoeira, mas decidiu financiar projetos que beneficiassem jovens que não tiveram a oportunidade de estudar com o Mestre Pastinha.

Depois que Gildo morreu, seus familiares encontraram em seus aposentos mais de três mil fotos feitas em suas andanças com o Mestre Pastinha, além de um caderno manuscrito do Mestre com seus ensinamentos.

Depois de três anos de seleção do material, Genésio se reuniu com o filho de Gildo, Lucas Couto, e com seu outro irmão, Genaldo Lemos do Couto, ex-presidente da Assembleia Geral da Federação Nacional do Culto Afro-Brasileiro, que assinou o prefácio do livro de Mestre Pelé da Capoeira.

Em outubro de 2021, a família decidiu, então, publicar o livro. "Aconteceu uma coisa interessante: por quatro noites seguidas sonhei com meu irmão cobrando o livro. Aí, decidimos acelerar a publicação", afirma Genésio.

Toda a tiragem do livro foi doada a quatro entidades para que a venda seja revertida em seu benefício. São elas: Centro Cultural e Social Grito de Liberdade, Associação Cultural Nacional Capoeira Origem Angola, Centro de Prática e Pesquisa N'Golo Capoeira Angola e Associação Brasileira de Capoeira Angola (ABCA), que funciona no Pelourinho desde 1993, quando houve a reforma do Centro Histórico de Salvador e é presidida por Mestre Pelé da Bomba.

A ABCA, que fica na Rua Maciel de Baixo, nas imediações da sede dos Filhos de Gandhy, vende berimbaus, atabaques, agogôs e outros instrumentos ligados à prática da capoeira. O local funciona como um centro de difusão informal de conhecimento sobre a luta. Sempre chega alguém interessado não apenas em comprar produtos, mas tirar dúvidas sobre a arte que Mestre Pastinha ajudou a divulgar mundo afora.

Berimbau

Moradores de Morro do Chapéu, na Chapada Diamantina, Flávio Evangelista, 22 anos, e sua companheira, Marcela Carneiro, 22, grávida de cinco meses, praticam Capoeira Angola, respectivamente, há quatro anos e há um. Antes de vir a Salvador na semana passada para uma temporada de férias, a dupla pesquisou na internet onde encontrar material para praticar a luta e encontrou a sede da ABCA.

Antes de decidir pela compra de um berimbau, Flávio pergunta ao Mestre Pelé sobre a pertinência do uso de cordão para amarrar o abadá da capoeira. "Não se usa cordão, a gente usa um lenço", explica.

São quase 15h de uma quarta-feira e o mestre tenta convencer o jovem casal a voltar no fim da tarde para pegar uma aula com ele. "Nós estamos em Cajazeiras e não queremos voltar muito tarde", replica Flávio.

Mestre Pelé aponta para o próprio braço esquerdo onde está o seu relógio de corda e sugere que ele nunca lhe foi roubado porque a malandragem respeita quem está usando roupa de capoeirista.

Ainda não é dessa vez que o casal se convence a ficar até mais tarde, mas o berimbau foi adquirido e viaja para Morro do Chapéu. Mesmo grávida, Marcela vai tirar proveito do novo instrumento. "A capoeira é saudável", argumenta. Abram a roda que os ensinamentos de Mestre Pastinha continuam sendo anotados.

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