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Marcelo Brazil descobre novos trabalhos do pai, o artista Lenio Braga

Desde os anos 1990, o pesquisador e professor de música divulga obras dispersas do pai

Vinicius Marques
Por Vinicius Marques
Além das telas, Lenio fez painéis, esculturas, fotos e roteiros
Além das telas, Lenio fez painéis, esculturas, fotos e roteiros -

Durante as décadas de 1950 e 1960, o artista plástico paranaense Lenio Braga fixou residência em Salvador e atuou intensamente numa época em que as artes na Bahia estavam em transformação. Ainda hoje, passeando por Salvador e algumas cidades do interior, é possível encontrar seus trabalhos.

Desde os anos 1990, o pesquisador e professor de música no curso de teatro da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Marcelo Brazil, registra e divulga obras dispersas do pai, que também conta com um museu virtual colaborativo: leniobraga.com.br.

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Atualmente, Marcelo está passando uma temporada na capital baiana, como parte de um estágio de pós-doutorado na Universidade Federal da Bahia (Ufba). Aproveitando a oportunidade, tem dado continuidade à pesquisa e alimentação do museu que está no ar desde 2014.

Essa não é a primeira vez de Marcelo na Bahia. Em 1990, quando decidiu iniciar uma pesquisa sobre a obra do pai, esse foi o primeiro destino do professor, que na época morava em Recife (PE).

“Meu pai faleceu muito jovem, com 43 anos, eu era muito criança e tenho poucas lembranças dele. Eu tinha entre 6 e 7 anos, e lá pelos anos 1990 comecei a buscar e conhecer um pouco mais da obra dele. Fui conhecer as obras do interior, os painéis de rodoviária, a Capela de Itapetinga”, lembra.

Atualmente, é possível encontrar mais de 20 artigos dedicados às diversas obras do artista que atuou em diversas frentes. Produzia pinturas, desenhos, gravuras, painéis, esculturas, fotografias e chegou até a editar livros e escrever roteiros para cinema.

Todas as linguagens

Recentemente, Marcelo encontrou 10 documentários em que o pai criou a abertura. Ele não fazia ideia de que o pai também havia trabalhado nessas obras. “Ele tinha uma abertura para todas as linguagens”, conta. Para Marcelo, é sempre uma surpresa se esbarrar com algo novo que o pai criou.

Foi há pouco tempo também que ele descobriu um acervo de painéis feitos por Lenio Braga em parceria com Udo Knoff, todos na Bahia. “É um material importante para a Bahia e as pessoas não conhecem”, lamenta.

“Já trabalho há tanto tempo nessa pesquisa e não tinha ouvido sequer falar. Esses painéis existem, estão lá, não todos, certamente, e é um acervo cultural do estado, dos municípios, mas, de certa forma, um acervo cultural do estado e que se a gente não se mobilizar para as pessoas saberem que isso existe, não haverá intenção em preservação. É interessante tentar preservar um pouco a história cultural”.

Para ele, todo esse material é um grande achado, porque a família não tem quase nada em relação à salvaguarda de acervo do que foi produzido e mantido pelo artista.

Lenio Braga viveu de vender o que fazia, da própria obra, como conta Marcelo. “Ele pintava para viver, não tinha outro meio de sobrevivência que não fosse esse”, afirma. Para ter contato com essas obras, ele vai garimpando imagens de quadros e de outras obras do artista. Quando é possível, vai conhecer presencialmente.

Contracultura

O professor de história da arte da Escola de Belas Artes da Ufba, Dilson Midlej, caracteriza a obra de Lenio Braga como muito importante para as artes visuais daquela época.

De acordo com ele, o artista paranaense junto com o artista argentino Reinaldo Eckenberger, que também residiu na Bahia, “abriram campos das artes visuais para as experiências, que mais tarde a gente denominou como contracultura ou como arte marginal, em que seriam elementos, inclusive, que caracterizariam a cultura nos anos 1970”.

Dilson conta ainda que a forma como Lenio Braga introduziu o viés da ironia e do humor em muitas de suas obras inseriu o artista num movimento brasileiro que passou a acontecer na segunda metade dos anos 1960, e em especial na década de 1970, que era formado por obras de artistas que se valiam de elemento da cultura popular, chamado Nova Figuração.

“Essa Nova Figuração era uma espécie de interpretação dos artistas brasileiros, ou uma espécie de uma resposta àquelas produções artísticas que constituíam a pop art norte-americana e inglesa. Eles apresentavam os elementos da cultura de massa para fazer uma crítica muito evidente, enquanto que os artistas brasileiros pegavam esses elementos da cultura de massa, como a linguagem do outdoor, da televisão, a tipografia dos meios publicitários, e associavam isso a elementos políticos”, explica o professor.

Nas bienais

Entre os destaques de Lenio Braga na cultura baiana, de acordo com Dilson, também estão suas participações na duas Bienais Nacionais de Artes Plásticas da Bahia, conhecidas como Bienais da Bahia, que aconteceram em 1966, no Santo Antônio Além do Carmo, e em 1968 houve a segunda Bienal, na Lapa.

“As obras dele, a partir disso, passaram a ter uma receptividade maior pelo público a ponto dos jornais mencionarem que atraíam um grande número de pessoas interessadas em conhecer um pouco mais o trabalho do artista e que depois corriam para um ateliê que ele teria no bairro do Rio Vermelho, conhecido como Casa de Pedra”, conta Dilson.

Atualmente, o filho de Lenio Braga se dedica a pesquisar a atuação do pai nestas Bienais, tendo conseguido, inclusive, uma revista que foi publicada em 1968, que é praticamente o catálogo da segunda Bienal. "Uma coisa muito preciosa para o acervo”, destaca. Ele já possui o catálogo original da primeira Bienal.

O resultado dessa pesquisa deve ser publicado em algum momento no site do Museu Virtual Lenio Braga, que possui uma área de contato onde recebe materiais sobre o legado do artista.

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