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Mostra 477 celebra aniversário de Salvador com obras de 62 artistas

Exposição também presta a tributo ao mestre Carybé, com duas obras do artista

Gilson Jorge

Por Gilson Jorge

22/03/2026 - 4:24 h

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Na foto: obra de Davi Caramelo
Na foto: obra de Davi Caramelo -

Nascido no Candeal, o artista visual e arquiteto Davi Caramelo se mudou com os pais para o Horto Florestal há cerca de 20 anos. "Naquela época, nem bairro era, era bem diferente do que é atualmente", lembra. Mas o pai dele gostava de dirigir seu automóvel e a família costumava circular pela cidade, especialmente pela Cidade Baixa. A Igreja do Bonfim, a Sorveteria da Ribeira e o Monte Serrat, bairro pelo qual a mãe é apaixonada.

"Eu me recordo de numa dessas ocasiões ver as palafitas de Alagados à noite, almoçar no Boca de Galinha, em Itapajipe, com vista para o Subúrbio Ferroviário", conta o artista, que pela primeira vez tinha visto algo semelhante a um trem, uma experiência que marcou a sua vida. "Desde pequeno, eu entendi a grandeza e a diversidade desta cidade, assim como a beleza e o caos que a fazem ser o que é", define Davi.

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O artista considera Salvador uma cidade bastante peculiar tanto por suas mazelas, quanto por suas belezas e potencialidades. "É uma cidade plural, onde se encontram desde os tradicionais terreiros de candomblé até mesquitas islâmicas. Também é uma cidade marcada por revoltas, lutas e, sobretudo, por afirmações culturais e identitárias ao longo dos anos", afirma Davi, para quem esse background molda a forma como os soteropolitanos veem o mundo e interagem com ele.

Davi, para quem Salvador inspira e respira criatividade, é um dos 62 artistas presentes na Mostra 477 – 477 anos da Cidade da Bahia, que fica em cartaz até 18 de abril no Museu da Misericórdia, na Rua da Misericórdia, no Centro Histórico. Organizada por Chico Mazzoni e Angela Petitinga, a exposição é praticamente uma festa surpresa para a aniversariante.

Na foto: o artista visual Davi Caramelo
Na foto: o artista visual Davi Caramelo | Foto: Uanderson Brittes | Divulgação

Em novembro do ano passado, os curadores buscavam um espaço para a mostra, que até então tinha a preocupação central de traçar um panorama da produção de arte contemporânea local. Quando a dupla descobriu que o Museu da Misericórdia, reaberto recentemente, tinha agenda disponível para esse período, a vinculação ao aniversário de Salvador, no dia 29 de março, pareceu inevitável.

Mas a cereja do bolo é mesmo a produção artística local. "Tivemos essa ideia de fazer uma grande coletiva com os pintores contemporâneos da Bahia, baianos ou imigrantes, porque nós sentimos a falta de um recorte contemporâneo da arte nessa cidade", explica Chico, que elogia as instalações da nova Sala de Exposições Contemporâneas do Museu da Misericórdia. "É um lugar muito bem equipado e pronto para receber arte contemporânea", destaca o curador.

Sobre a escolha da temática em cima da hora, Chico pontua que o aniversário de Salvador é o evento mais importante do calendário em março e considera que a decisão tornou a mostra mais instigante. "Não há nada melhor para motivar esses artistas do que provocá-los para que eles trabalhem em função do aniversário da cidade", avalia o curador. Algumas obras são inéditas.

Ao observar as características da Sala de Exposições Contemporâneas, a dupla de curadores começou a planejar quantos artistas seriam convidados, a partir dos nomes mais próximos a cada um deles e também os trabalhos de quem eles, mesmo à distância, admiram. Foram escolhidas 51 obras bidimensionais e 11 tridimensionais.

Davi Caramelo escolheu representar a cidade com uma lembrança de infância, as balinhas diversas e as velas acesas para Cosme e Damião na casa de sua tia. "Certa feita, me peguei desenhando a figura destes dois gêmeos e daí fui remetendo ao desenho inicial daquela visão sincrética da infância", afirma o artista, autor da pintura Cosme, Damião e Doum, que na tradição afro-brasileira é o terceiro irmão dos santos gêmeos católicos.

Simplicidade e observação

Se a Cidade Baixa era a paisagem que maravilhava Davi em seus passeios de fins de semana, Itapagipe era o playground constante da pequena Ulla von Czékus, baiana com ascendência catarinense e checa, que cresceu em uma casa construída por seu avô na Rua Resende Costa, transversal da Avenida Caminho de Areia, e lembra do fascinante colorido nos dias da Festa do Senhor do Bonfim e de outros cortejos populares, bem pertinho da sua casa.

"Era muito bonito ver o cortejo e observar as pessoas chegando. Mas eu era criança e gostava mesmo era do parque de diversões que era montado no bairro", destaca Ulla.

Adulta, a artista desenvolveu um interesse especial pelo Centro Histórico de Salvador, lugar que carrega boa parte da memória da cidade. Foi da observação do cotidiano de trabalhadores da área que surgiu a obra, de 2017, que Ulla enviou à mostra, Os Sachês de São Francisco. A artista capturou a beleza de um momento proporcionado pelo vendedor, ao colocar o seu material à frente da Igreja de São Francisco.

Na foto: VALE ENCANTADO - Obra de Ramiro Bernabó
Na foto: VALE ENCANTADO - Obra de Ramiro Bernabó | Foto: Divulgação

"Duas coisas muito importantes para mim são a simplicidade e a observação. A composição ficou muito bonita", destaca Ulla, salientando a beleza da forma tradicional com que os sachês são comercializados, presos às extremidades de uma vara. "O contraste entre a porta verde e os sachês envolvidos em redinhas amarelas me chamou muito a atenção", descreve a artista.

Ulla ressalta que o casario colonial do Pelourinho remete a questões históricas que precisam ser discutidas, mas enaltece a beleza das construções, como algo que merece ser admirado. E elogia a singularidade das festas populares da primeira capital do Brasil. "As manifestações culturais da cidade são muito singulares, é algo que a gente não vê em todos os estados", compara Ulla.

Esplêndida

Cachoeirano de nascimento, o antropólogo, artista e ex-presidente da Academia de Letras da Bahia, Ordep Serra, chegou a Salvador em meados da década de 1950, aos 12 anos, para estudar.

"A primeira visão que tive foi do frontispício de Salvador, que hoje está meio mutilado, à época deslumbrante. Ainda guardava muito do seu verde", pondera o artista, que classifica a cidade daquele período como "absolutamente esplêndida", em que se destacavam a Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia e antiga Feira de Água de Meninos, destruída por um incêndio na década de 1960 e reconstruída como Feira de São Joaquim. "Muita coisa foi tirada de Salvador. Ela continua bela porque resiste", resigna-se o artista.

Na foto: MINOTAURO - Ordep Serra
Na foto: MINOTAURO - Ordep Serra | Foto: Divulgação

"Uma leitura magnifica de Salvador foi feita por Carybé, mas artistas contemporâneos têm feito essa leitura que tem enriquecido a cidade", e cita as fotos de Mario Cravo e os quadros de Chico Mazzoni como exemplos dessas leituras bem-sucedidas da capital.

Mas nem tudo são flores para a aniversariante. Ordep lamenta que a capital baiana esteja ficando, em suas palavras, desfigurada pelo desmatamento e pelo avanço verticalizado do concreto. "O urbanismo em Salvador entrou em colapso", afirma Ordep, autor da arte computacional Minotauro, feita no fim do ano passado, especialmente para este evento.

Cultura baiana

A Mostra 477 também presta a tributo ao mestre Carybé, com duas obras do artista que, como sublinhou Ordep Serra, deixou sua marca definitiva na representação da cultura baiana. Uma das suas obras expostas utiliza o Raku, milenar técnica japonesa para emendar pedaços de cerâmica com ouro.

Filho de Carybé, Ramiro Bernabó está presente com a pintura Vale Encantado, feita em 2020. Em sua memória de uma Salvador lúdica estão os encontros na juventude na década de 1960 com Mario Cravo, com quem brincava de colecionar insetos. "Mas aí veio a barra pesada", disse o artista, referindo-se à ditadura militar. "Eu estive com os tropicalistas, fui ao Xingu, convivi com os indígenas", lembra Ramiro, que conta um episódio inusitado que viveu naquele momento de repressão e convívio com artistas.

"Eu era burro, não sabia nada de política e um dia resolvi ficar nu na praia. A polícia me pegou e eu fiquei conhecido. E naquele tempo não tinha celular, nem câmera de vigilância", conta o artista, que passou um tempo na ditadura internado em um sanatório e só voltou a trabalhar com arte na década de 1980, quando passou a fazer esculturas com madeira recolhida na rua. "Foi uma época boa, também", afirma o artista.

Na foto: VALE ENCANTADO - Obra de Ramiro Bernabó
Na foto: VALE ENCANTADO - Obra de Ramiro Bernabó | Foto: Divulgação

Legado africano

Nascida em Mata de São João e criada em Cosme de Farias, onde reside até hoje, Goya Lopes já morou em Florença, na Itália, e em São Paulo, mas acha que nada se compara a Salvador, a cidade que com suas cores, história e legado africano é a grande inspiração para o seu trabalho, na moda e nas artes visuais.

"Eu voltei a Salvador com o meu propósito de divulgar a cultura afro-brasileira com arte. Eu sei que eu não teria feito isso em São Paulo nem na Itália", diz a artista, que ressalta o seu amor à luminosidade soteropolitana e a importância da sua ancestralidade. Na Mostra 477, Goya está presente com a serigrafia Alaká ou pano da costa.

Sobre as qualidades da cidade aniversariante, Goya afirma que Salvador tem uma energia muito particular. "Ela é muito hospitaleira, recebe muito bem as pessoas. Eu digo isso porque trabalhei muitos anos no Pelourinho e interagi com estrangeiros", afirma Goya. Por falar nisso, todo mundo é bem-vindo à exposição, que está aberta ao público de terça a sexta, das 9h às 17h e aos sábados, das 9h às 16h30.

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Tags:

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