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Musicalização infantil: um presente para a vida toda
Aulas de musicalização infantil ajudam no desenvolvimento e são como um presente para a vida toda

Com cinco anos de idade, Letícia tem pedido à mãe, a advogada Silvana Ledo, para ter aulas de piano. Ela é aluna de uma escola de música desde que tinha um ano. “A vontade de incluir minha filha em aulas de musicalização infantil surgiu porque ouvia que era muito importante para o desenvolvimento motor, social e intelectual”, conta a mãe de Letícia, aluna da escola Sambalelê.
Estabelecida em Salvador, a Sambalelê dá aulas de música para crianças com seis meses até seis anos de idade. “A gente conduz o aprendizado musical desde pequenos até eles estarem aptos para tocar um instrumento”, explica a sócia e professora da escola, Marina Monroy. Se a criança optar por piano ou flauta, ela pode seguir na própria Sambalelê. Esse pode ser o próximo passo de Letícia, de acordo com a mãe.
Silvana conta que percebeu a mudança no comportamento da filha por causa das aulas, “tanto pelo lado social quanto pelo respeito às regras, como guardar os brinquedos e instrumentos no fim da aula e ter horários de relaxar e brincar”. Em casa, a família replica ações aprendidas em aula.
Criatividade, confiança
Segundo Marina, além do desenvolvimento cognitivo e motor das crianças, a musicalização infantil também pode ajudar na elaboração dos pensamentos matemático e lógico e na alfabetização. “Muitas crianças chegam com a fala em desenvolvimento e, na aula de música, a fala desembola”, conta a professora da Sambalelê.
Marina também destaca o papel da música no estímulo à criatividade, à confiança, à capacidade de improvisação e ao amadurecimento social e emocional das crianças. “Quando muito pequenas, elas não têm tanto controle daquilo que as emociona, e a música ajuda, mexe com o corpo e emoções”.
Mãe de Helena, de um ano de idade, a advogada Cássia Monteiro já tem notado a influência das aulas de música na filha. “Lembro que na primeira aula, ela ficou muito observadora, não interagiu muito, mas a partir da segunda aula ela já estava dançando”. Com quatro meses frequentando as aulas do Sambalelê, a menina já compreendeu o ritual das aulas.
“Ela é super participativa, interage com os colegas e acho muito bacana para o desenvolvimento”, diz Cássia. A aula também se tornou um espaço de convivência entre a advogada e a filha. “Consigo separar uma horinha da minha tarde para levar ela para as aulas e acho ótimo estar com ela, presenciar esses momentos”.
Criado em Salvador, o grupo Canela Fina também atua na musicalização infantil. A banda foi fundada pela musicista e professora Angelita Broock, criadora do curso de extensão Musicalização para Bebês, da Universidade Federal da Bahia, em 2006. Foi lá que a instrumentista e pesquisadora Carla Suzart conheceu Angelita e foi convidada para integrar o grupo.
“Mergulhei com toda a minha energia no universo da música para crianças e, naquele momento, na Ufba, o segmento infantil da música ganhou toda a força na minha vida”, conta Carla, baixista, vocalista e compositora do Canela Fina, que também tem como integrantes os musicistas Kamille Levek e Diogo Flores. A banda faz shows e dá aulas em escolas.
Carla conta que a experiência dos integrantes como educadores musicais há mais de dez anos influencia a metodologia da banda: “Mergulhamos num trabalho muito profundo da musicalização para bebês e crianças”. Segundo ela, o grupo tem se dedicado à produção audiovisual, com o desenvolvimento de materiais didáticos em animação 3D para crianças.
A intenção do Canela Fina é que os shows e aulas ultrapassem a função recreativa. “A gente cria, forma e transita no vínculo didático, nosso show é divertido e educativo”. Uma das estratégias didáticas é a inclusão dos adultos nas apresentações: “Estimulamos que os pais componham para os filhos, a música é uma ferramenta incrível de vínculo”.
Para Carla, as crianças são cocriadoras dos shows e das aulas do grupo, já que “elas influenciam, pedem, são ouvidas, dialogam”. Com isso, diz a professora, a música potencializa o desenvolvimento infantil. “Ela estimula nosso desenvolvimento emocional, intelectual, cognitivo, motor, criativo, social e afetivo, nossa autoestima e nossa expressão com o mundo, olha a potência disso tudo”.
A musicista destaca ainda a importância da diferença cultural na formação musical. Comparando salas de alunos em Barcelona, na Espanha, e em Salvador, ela pensa que as crianças baianas têm mais facilidade no aprendizado do acompanhamento rítmico com as palmas. “É a palma do nosso samba de roda. Lá, no início, eles não conseguiam de jeito nenhum”.
Villa-Lobos
Foi para apresentar um músico às crianças brasileiras que a violinista Carla Rincón se sentiu inspirada para criar o programa Brasil de Tuhu, de educação musical para crianças. Venezuelana, ela se mudou para o Brasil em 2004. “Quando cheguei ao Brasil, me incomodou que as crianças não tinham contato com a obra de Villa-Lobos”, diz Rincón.
Em 15 anos, o projeto já percorreu mais de 300 escolas públicas em 13 estados brasileiros. Na última semana, Rincón esteve na Bahia com o programa por quatro dias. O Brasil de Tuhu frequenta o estado desde 2016. “O encontro com as crianças é sempre muito bonito, principalmente aqui na Bahia, onde você dá duas notas e já começa uma dança, um sorriso no rosto”.
Rincón é a primeira mulher a gravar todo o repertório para formação de quarteto de Villa-Lobos, que também se preocupava com a educação musical do Brasil.
“Ele fez uma coletânea como base acadêmica para ensinar o canto orfeônico por todo o país”. Essa coletânea faz parte do programa Brasil de Tuhu, que também conta com outras peças do maestro.
“Conheci a obra dele na Venezuela. Lá, a educação musical faz parte de todas as escolas do país”, conta Rincón. Foi por meio de aulas como as que promove atualmente que a violinista se aproximou da música, aos cinco anos de idade. A musicista já ganhou o prêmio Carlos Gomes e foi indicada ao Grammy Latino.
Para Rincón, o ensino musical no Brasil ainda tem espaço para avançar, mas já melhorou, especialmente por conta do decreto de 2008 que exige que as escolas tenham essa educação no currículo. “Temos melhorado, mesmo que timidamente”, avalia. “A música é a brincadeira mais séria da criança, através dela nós podemos nos tornar cidadãos”.
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