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"O espaço urbano é capaz de educar as pessoas"

Kátia Borges

Por Kátia Borges

16/01/2017 - 12:26 h | Atualizada em 16/01/2017 - 14:19

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O urbanista Gustavo Restrepo, 62, é um dos responsáveis pela reestruturação urbana de Medellín, na Colômbia
O urbanista Gustavo Restrepo, 62, é um dos responsáveis pela reestruturação urbana de Medellín, na Colômbia -

Gustavo Restrepo, 62, é um arquiteto e urbanista colombiano que pensa o espaço urbano a partir das pessoas. Não que essa seja uma ideia original, como faz questão de lembrar. Cita, como exemplo, as propostas do curitibano Jaimer Lerner nos anos 1970, que o estimularam, e a muitos outros, na América Latina, a propor alternativas de acupuntura urbana para as cidades. O termo, roubado da medicina oriental, consiste em, como ele explica, aplicar a pressão necessária nos pontos exatos do corpo das cidades. Tudo parece muito vago em uma ciência tão exata quanto a construção de estruturas de cimento, mas o modelo mostrou-se eficiente quando aplicado à cidade de Medellín, famosa pela extrema violência. O projeto de Restrepo, ainda em curso, é considerado responsável pela diminuição dos índices de homicídio e agressão, ao instalar equipamentos públicos de qualidade, articulados com redes de transporte idem, em espaços antes praticamente abandonados. Mas, o mais importante, como ele ressalta, não é o modelo e, sim, a metodologia aplicada, que consiste na inclusão dos moradores como definidores daquilo que será feito. “Quando as pessoas participam, elas estão se educando e se tornando aptas a se responsabilizar por aquilo que solicitaram”, diz. No Brasil, Restrepo fez palestra, em dezembro, a convite do Conselho de Arquitetura e Urbanismo da Bahia, e conversou com Muito, entre outros temas, sobre a aplicabilidade desse pensamento aqui e sobre os desafios para os arquitetos e urbanistas neste século.

Nos anos 1990, a cidade de Medellín tinha índices de 381 homicídios por 100 mil habitantes. Essa taxa caiu dez vezes entre 1991 e 2006, a partir do processo de urbanização que o senhor ajudou a implementar. De que maneira o o urbanismo pode interferir na redução da violência?

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Bem, a verdade é que o urbanismo sozinho não resolve nada. A maneira como o urbanismo intervém, melhora e aporta segurança a uma região é quando somam-se, não somente a parte física, mas as partes social e econômica. Tem que haver uma visão de governo e uma política integral que permita articular ações, como por exemplo, o fortalecimento das pequenas e médias empresas e o investimento na construção de uma sociedade mais forte, de uma sociedade que se transforme enquanto o lugar está sendo transformado fisicamente. Isso é fundamental e só assim podemos realizar uma verdadeira transformação.

O senhor fala sempre sobre a importância da adoção de uma acupuntura ubana. Em sua opinião, como traduzir as propostas de uma acupuntura urbana em aplicações práticas?

Veja, há que recordar que Jaime Lerner [urbanista curitibano] nos anos 1970 já falava sobre a importância de uma acupuntura urbana. Para nós, foi muito importante ver que na América Latina vários arquitetos já estavam aplicando esse conceito, como por exemplo, nos projetos da Favela Bairro, no Rio de Janeiro, em Curitiba, com Lerner, e em Bogotá, onde haviam alguns primeiros ensaios. O que fizemos então foi aprender, a partir dessas experiências, estudar e tentar aplicar. O sentido real da acupuntura urbana tem a ver com implantar equipamentos públicos de qualidade em lugares estrategicamente planejados, conversados e acordados com a comunidade e, nesse sentido, articular, através do espaço público e do sistema de transporte, o uso desses equipamentos. Se esses equipamentos tiverem a real função de servir à comunidade, eles terão também uma função terapêutica, porque permitirão que as comunidades se encontrem, se fortaleçam e se identifiquem com o projeto. Então, para mim, acupuntura urbana é fazer a pressão adequada no lugar necessário.

O trabalho em Medellín ainda não acabou. Serão 42 etapas até 2030. Como, em sua avaliação, será possível garantir a continuidade deste projeto, já que a transição política, muitas vezes, acaba por invalidar propositadamente as reformas propostas pela gestão anterior?

Esse é um tema muito interessante, porque a América Latina não tem tradição de continuidade. Normalmente, estamos acostumados a que, a cada quatro ou a cada três anos, como no México, os governos saiam mudando tudo e, desafortunadamente, até mesmo aquilo que funciona, aquilo que é bom. E mudam simplesmente porque aquilo veio do governo anterior, o que leva muitas sociedades a assistirem ao fracasso de boas ideias. A primeira lição que podemos tirar desse processo recorrente é que necessitamos de um pouco mais de humildade na política, de gestores que sejam capazes de avaliar as políticas anteriores, no sentido de manter o que for bom, mudar aquilo que pode ser melhorado e acabar com o que não funciona. E mesmo a análise daquilo que não funciona dever ser feita com cuidado, porque muitas vezes é um bom projeto que não foi bem executado. Mas eu acredito que, mais importante que isso, é que sejamos capazes de estabelecer políticas públicas de continuidade, que haja um planejamento territorial, ou decretos, que permitam que certos projetos se mantenham no tempo, independentemente dos partidos que se sucedem no governo. A questão então é como avaliar quais serão os projetos a serem mantidos.

No caso específico de Medellín, o que garante esta continuidade?

Nesse processo em Medellín, descobrimos que há três elementos muito importantes. Em primeiro lugar, a vontade política. Se não há uma vontade política verdadeira, não há como manter a continuidade. É preciso que o governante perceba que o seu compromisso maior é com as pessoas que governa. E isso é educativo, pois um político honesto estimula as pessoas a serem honestas pelo exemplo. O segundo ponto é a participação real da comunidade na elaboração dos projetos, porque é assim que se aprende e que se exercita a democraria. Penso que somos muito jovens na América Latina em democracia e fazemos muito mau uso dela frequentemente. Assumimos que temos direito, mas não nos comprometemos com os deveres. Nos falta educação. Por isso é tão necessária a educação. E eu creio que planejar uma cidade tem a ver com educar, porque tudo que há debaixo do sol é capaz de educar, o espaço urbano é capaz de educar as pessoas: as ruas, os prédios públicos, o transporte urbano... Quando uma criança nasce numa cidade educadora, ela aprenderá em todos os lugares como conviver em comunidade, não apenas na família ou na escola, e é muito seguro que se torne um bom cidadão. A terceira e última questão é o planejamento integral, social, econômico e físico, que deve ser feito pela comunidade. Medellín tem 16 comunas, 16 grandes territórios, e cada uma delas escreveu um “capítulo” de um livro, contemplando esses três temas, e o entregou à municipalidade, à prefeitura, uma espécie de banco de projetos. Qualquer candidato que deseje hoje assumir a gestão precisará primeiramente e necessariamente ler este livro e respeitar o que ele contém. É isso que assegura a continuidade em Medellín, é a participação cidadã. Afinal, cabe ao político cumprir o mandato da comunidade, seja ele de que partido for.

Mas a verdade é que, geralmente, as comunidades assistem passivamente às mudanças implementadas nos locais em que habitam.

Sim, porque falta a consciência de que a construção de uma cidade é feita a partir da consolidação de uma cultura cidadã. E que isso é o mais importante. Quando os cidadãos se envolvem no projeto de construção da cidade que querem, eles também se educam nesse processo, tornam-se aptos a fazer a democracia. A melhor maneira de construir a cidade que queremos é justamente participando da construção dela. Não podemos ser como penetras numa festa, temos que ser parte fundamental na organização, parte fundamental no processo de transformação. Cidades transformadoras são aquelas que educam para o progresso, a competitividade, a exploração do espaço público, a conectividade, a centralidade, mas, sobretudo, que educam para a paz. Porque é fundamental que aprendamos a viver em paz. Em Medellín, devido à guerra, não nos foi permitido fazer parte da construção da cidadania, e esse foi o grande fracasso da nossa sociedade e é o que hoje põe em grande discussão todo o tema da guerra e da paz na Colômbia.

O senhor considera viável a implantação de um modelo semelhante de urbanismo sustentável em cidades brasileiras?

A experiência que tivemos em Medellín temos tido a oportunidade de explorar hoje, além da América Latina, na América Central. Temos projetos em cidades do México e em Córdoba e Túcuman, na Argentina, que são sociedades distintas. Tivemos também uma primeira aproximação em Florianópolis, aqui no Brasil. Porém, o mais importante é que o urbanismo social tem uma metodologia. Não se trata de copiar Medellín. Não importa se construímos uma biblioteca, um parque, um metrô ou um centro comercial. Esses foram os modelos de Medellín, aquilo que o povo de Medellín escolheu. Não se trata de copiar o mesmo projeto, mas de saber, por meio da participação cidadã, o que os baianos querem para Salvador ou o que os cariocas querem para o Rio de Janeiro. Como melhorar, por exemplo, Brasília e seu entorno ou Manaus e seu intricado sistema hídrico. Trata-se, portanto, de entender o modelo e usar a participação cidadã como instrumento. Essa é a chave. Urbanismo social tem a ver com a participação real da comunidade e, sobretudo, com o exercício honesto da política. Do ponto de vista metodológico, creio que sim, poderia ser implantado modelo semelhante no Brasil.

O senhor citou o projeto em Florianópolis (Santa Catarina), no caso, a revitalização da Comunidade de Frei Damião. Como se deu este trabalho? Há novos projetos no Brasil?

Sim. Inicialmente, e exclusivamente em Florianópolis, fizemos um projeto para o Instituto de Planificação Urbana do município. Já em relação à comunidade de Frei Damião, tratava-se de um assentamento muito precário em Pedra Branca, na cidade de Palhoça, e que tinha algumas dificuldades. O que nós fizemos foi apresentar uma proposta para estabelecer uma melhoria desse território, que abrangia vários componentes de mobilidade, de moradia, de espaços públicos e de equipamentos. O mais importante, porém, era o envolvimento dos empresários e dos tecno parques que se localizam no entorno da comunidade. Isso deveria acompanhar o processo de transformação e ampliar a oferta de empregos. Mas, justamente por conta da descontinuidade que aconteceu com a transição política, do prefeito de Palhoça, o projeto não seguiu adiante. Fomos convidados, ainda, a fazer um projeto para a Praia dos Ingleses, e a acompanhar a implantação do plano diretor de Florianópolis.

Experienciamos em nosso país grande violência nas periferias, especialmente contra jovens negros. Em que medida projetos como o de Medellín oferecem uma alternativa?

Penso que o que gera essa condição de vulnerabilidade é, principalmente, a segregação, a construção de guetos, a falta de transporte adequado e de serviços básicos como água, eletricidade, esgotos, a ausência de equipamentos públicos, escolas, creches, parques... Nossos jovens não querem isso, não querem repetir a história de seus pais. Em meados dos anos 1980, Medellín estava mergulhada em uma séria crise econômica, em um momento historicamente crítico, e isso fez com que muitos jovens entrassem para o tráfico de drogas. Eram jovens sem oportunidades de educação ou de trabalho. O que mudou esse quadro foi dar a eles um espaço onde pudessem ver que a vida existia, que era possível desenvolver suas potencialidades, espaços físicos de convivência, espaços culturais onde pudessem aprender arte. Quando o governo fornece um entorno educador, com escolas de qualidade, os jovens não fogem, porque eles também querem crescer, querem mudar, querem estudar. Muitos entram para o crime simplesmente por não ter como ajudar em casa o pai desempregado, os filhos ainda pequenos ou os irmãos menores. Outros são vítimas da violência por conta da cor da pele, discriminados apenas por morarem em comunidades carentes, tidos como marginais. Mas o que percebemos em campo é que 98% dos moradores das comunidades carentes, seja no Brasil, na Argentina ou na Colômbia, são de gente empreendedora e honesta, o que lhes falta são oportunidades. É nisso que o governo deve focar. Onde o Estado não chega, o narcotráfico nos rouba os jovens.

O senhor tem uma visão mais sensível e peculiar da cidade e do urbanismo. A partir desta perspectiva, quais os grandes desafios da arquitetura e do urbanismo em nosso século?

Penso que temos, a partir de três linhas, uma perspectiva importante. A primeira, desde o tema econômico, é a sustentabilidade, a construção de edifícios que consumam menos. Desde o princípio da consolidação da matéria-prima, é trabalhar com concretos mais limpos, reduzir o desperdício nas obras, construir de maneira mais eficiente. Devemos ser capazes e criativos, como fez Lelé [o arquiteto carioca radicado na Bahia João Filgueiras Lima, morto em 2014], que demonstrou que os processos de pré-fabricação eram interessantes para o Brasil. Finalmente, no aspecto da sustentabilidade, precisamos nos conscientizar de como a natureza é afetada pelo urbanismo. Não podemos seguir crescendo a mancha urbana desordenadamente, porque o planeta esquenta e chove mais. Temos que aproveitar melhor a luz natural, o vento, os recursos naturais. A arquitetura e o urbanismo podem e devem ser sustentáveis. E, mais, não podemos seguir importando modelos. Temos que ser economicamente capazes de afirmar a nossa autenticidade. O modelo de moradia latino-americana, por exemplo, é naturalmente gregário. Gostamos da convivência, de ir à padaria, de ir à banca de revistas. No entanto, impõe-se cada vez um modelo de condomínios isolados. O maior desafio da arquitetura e do urbanismo, para mim, no século 21, é perceber que precisamos de mais espaços de convivência com qualidade. Nos últimos 70 anos, nos preocupamos com cifras e não com qualidade. Não é apenas construir edificações, mas que elas tenham baixo impacto ambiental e sejam capazes de educar aqueles que as frequentam ou nelas vivem.

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