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“O hidratante é tratamento na dermatite atópica”

Lesões na pele e conceira intensa ligam o alerta para possível doença crônica

Publicado domingo, 02 de outubro de 2022 às 06:00 h | Autor: Marcos Dias
Daniele Pereira, médica dermatologista
Daniele Pereira, médica dermatologista -

Coceira intensa e lesões na pele acendem o alerta de que algo não está bem no organismo. Podem ser sintomas de dermatite atópica (DA), doença crônica em que fatores genéticos e ambientais interagem; ou de urticária, doença auto-imune. Ambas podem complicar a vida de crianças e adultos, dependendo da duração, prejudicando o sono, interações sociais, o trabalho ou estudos. O problema pode se complicar, ainda mais, na busca de um diagnóstico, pois muitos pacientes relatam uma espécie de via-crucis em consultórios até poderem iniciar o tratamento adequado, distintos para cada caso, descartando outras enfermidades.

Não à toa, o último dia 23 de setembro foi o Dia Mundial de Conscientização da Dermatite Atópica; e ontem, o Dia Mundial da Urticária. A médica dermatologista Daniele Pereira, do Instituto Bahiano de Imunoterapia - Ibis, que tem promovido fóruns para pacientes, explica nesta entrevista a diferença das duas doenças e o que pode ser feito para aliviar ou controlar os sintomas. Ela também destaca a necessidade da formação de grupos de apoio: ”É muito importante para o paciente e para ter maior representatividade, nos casos, por exemplo, de liberação de algum medicamento novo para tratamento ou consultas públicas”.

A instituição do  14 de setembro como o Dia Mundial de Conscientização da Dermatite Atópica (no Brasil, 23 de setembro), é relativamente recente, de 2018. Os casos estão aumentando?

Os casos não estão aumentando, o conhecimento a respeito da doença vem aumentando. A população sempre teve dermatite atópica, mas, na maioria das vezes, tinha um diagnóstico de alergia, quando, na verdade, já era manifestação de dermatite atópica que não é uma alergia do jeito que as pessoas falam.

É uma inflamação da barreira cutânea resultante da alteração da hidratação natural da pele. Quando a pessoa tem DA, as células perdem a hidratação natural e não ficam tão coesas. Isso facilita que agentes externos, qualquer agente externo, ambientes frios, calor, ambientes com baixa umidade, qualquer estímulo desses irrite a pele e, a partir daí, se desenvolva a inflamação resultando nas lesões.

O que mais caracteriza esse tipo de dermatite?

As lesões apresentam-se em áreas típicas e vão mudando ao longo dos anos. Na criança mais novinha é mais no rosto, nas áreas convexas. À medida que a criança vai crescendo, fica nas dobras dos braços, dobra das pernas. A maior parte dos pacientes desenvolve as lesões na infância, quando chega na adolescência a doença regride e a maior parte dos pacientes deixa de apresentar as lesões.

Muitos pacientes queixam-se do tempo que levam para serem corretamente dignosticados. Por que isso acontece?

Acho que, na maioria das vezes, se busca uma causa externa para os sintomas,  uma alergia a comida, a determinado tecido, uma causa palpável que se possa evitar. A DA, na verdade, tem um componente genético, a pessoa nasceu com aquela predisposição, com aquela alteração da superfície da pele, então,  agentes  desencadeiam processos inflamatórios, como os que mencionei  e há também o estresse emocional, que é um fator importantíssimo que também faz desencadear. Mas não há uma causa externa, não é porque tomou leite que as lesões de pele se desenvolvem. Nessa busca, fazem testes alérgicos, testes de contato e exames laboratorias para definir uma doença que é, eminentemente, clínica.  

A DA atinge cerca de 20% das crianças e é bem menor em adultos, chegando até  a 3% da população. Alguns dados indicam que 90% dos casos  ocorrem antes dos 5 anos e muitos apresentam  sintomas dos 3 meses aos 2 anos.

A maioria dos pacientes de pediatria no meu consultório tem DA, tamanha é a frequência na população pediátrica. E ela tem essa característica, de que a maioria dos pacientes que têm DA grave na infância, na adolescência os sintomas tendem a ficar mais reduzidos. É claro que ela pode voltar a manifestar na vida adulta, mas a maioria das crianças têm lesões na infância e na adolescência melhoram.

Quando um dos pais têm DA, asma ou rinite (doenças atópicas), há 56% de possibilidade para o filho também ter, e se os dois pais têm, essa porcentagem cresce para 81%. Há algo que possa prevenir?

Essas pessoas nascem com essa tendência. Em alguns casos, a gente orienta: se você tiver DA, assim  que seu filho nascer comece a usar hidratante, já que esse é um dos aspectos principais da doença.

A hidratação previne e pode retardar um pouco o aparecimento das lesões e a gravidade, mas dizer que existe um remédio que será  prescrito e o paciente com essa tendência não vai manifestar a doença,  não existe. Fala-se em usar remédios prebióticos para tentar reduzir a gravidade e a manifestação clínica das crianças dessa gestante,  mas não há muitas bases de comprovação científica sobre isso.

Deve ser desesperador para os pais verem as crianças se coçando, machucadas, sem dormir, já que o tratamento costuma ser longo. Como orienta os pais que passam por isso?

Primeiro, é importante o entendimento da doença, por que ela acontece, para que reduza o sentimento de culpa, de que deixou de fazer alguma coisa e a criança apresentou o quadro. Há o componente genético, e há os fatores ambientais, que a família pode atuar para reduzir os sintomas.

Mas a criança já nasce com essa tendência, então, a família entender isso é muito importante. Segundo, é ter disciplina com o tratamento: o hidratante é tratamento na dermatite atópica – não é só ‘Ah, a pele está seca, vamos passar hidratante para ajudar’. É um tratamento. Se o fator principal da doença é o fato de não ter a hidratação natural, tem que passar o hidratante, senão  a pele não se hidrata naturalmente.

Tem que ter disciplina e deve ser aplicado ao menos duas vezes ao dia. A maioria tem DA leve e moderada, não tem a forma grave. Normalmente, oriento a participar de grupos de apoio, redes sociais ajudam, conversar dentro de casa mesmo sobre as dificuldades, entre amigos, isso contribui.  

A intensidade das coceiras e lesões  podem dificultar o convívio dos pacientes, afetando-os emocionalmente. Alguns podem temer o contágio por causa da aparência da pele...  

Oriento meus pacientes de que a DA não é contagiosa, não estão transmitindo para ninguém, nasceram com isso e têm essa tendência, pode se relacionar com qualquer pessoa porque não é transmissível. Outra orientação que sempre dou é que quanto mais você trata e hidrata, menos evidente ficam as lesões.

A maior parte dos meus pacientes com DA, a depender de como estão lidando com a doença, com o entendimento,  principalmente na fase inicial, encaminho para fazer psicoterapia também. Explico para a mãe que é importante, pela imaturidade emocional das crianças, mas alguns adultos também, já que o acompanhamento com um psicólogo faz toda diferença.

Como se caracterizam as pessoas consideradas atópicas?

Os pacientes que chamamos atópicos são os que são mais reativos aos estímulos externos e desenvolvem uma resposta inflamatória mais específica. Por exemplo, o paciente tem rinite, mudou o tempo, ele apresenta secreções, espirros; o paciente com asma fica cansando, tem dificuldade de respirar; e o paciente com DA apresenta as lesões de pele.   Muitas vezes estão relacionadas: começa a ter um pouco de rinite, depois tem sintomas de asma, depois desenvolve a DA, é o que a gente chama de marcha atópica, os sintomas vão se manifestando ao longo do tempo em diferentes sistemas.  

A DA pode se manifestar sem os outros elementos da marcha atópica?

É possível. Mas o paciente com DA, na maioria dos casos, tem uma rinite. Se ele não tem rinite ou asma, o pai ou a mãe tem. É muito incomum chegar um paciente com DA no consultório e o pai ou a mãe não terem rinite, algum componente dessa atopia. A gente até questiona, porque faz parte dos critérios de diagnóstico.

Mas não existe um exame para definir a DA?

Não existe. Quando estamos  em dúvida, o paciente começou com lesões mais tarde, ou nunca teve na vida , começou a manifestar adulto, ou  são lesões às vezes em localizações mais atípicas,  podemos fazer uma biópsia da pele, remover um fragmento da área com a manifestação e encaminhar para o colega patologista avaliar. Ele vai sugerir as alterações que são sugestivas de DA, mas não tem uma alteração que possa dizer ‘isso aqui é DA’: é no conjunto que ele olha e define o que é sugestivo. Daí o dermatologista, com esse resultado, junto com a apresentação clínica, fecha o diagnóstico.  

Um aspecto pouco tratado durante a pandemia do novo coronavírus nos meios de comunicação foi o surgimento de doenças de pele em quem contraiu o vírus. O SARS-Cov-2 pode desencadear a dermatite atópica?

O vírus da covid tem estímulo na resposta imunológica, é como se ele desregulasse a resposta imunológica. Ainda é muito cedo para falar os detalhes de como ocorre, até porque não é só com doenças de pele, mas também doenças reumatológicas. É como se desregulasse o sistema imune. A pessoa nasce com a doença, aí vem lá um agente externo, que nesse caso é o vírus, e assim desregula seu sistema imune que vinha caminhando direitinho com essa doença silenciosa e deflagra o aparecimento.

Isso aconteceu, por exemplo, com muitos casos de psoríase, que pioraram ou se manifestaram durante a pandemia. Urticária, é muito comum associar com o estresse, e podemos falar não só do estresse emocional, mas o estresse provocado por infecções no organismo, a desregulação do sistema imune. Isso subiu bastante. Na DA também tema questão emocional: às vezes, o paciente está com a doença estabilizada, tem infecção pela covid que desregula seu sistema imune e apresenta lesões. Não é só o vírus, mas o fato de a gente ter entrado em confinamento, todas as mudanças.

O 1º de outubro marcou ontem a o Dia Mundial da Urticária. Além da coceira em comum, o que a distingue?

A urticária é uma doença auto-imune e a manifestação clinica é diferente. Os tratamentos são diferentes. Na urticária, as lesões são elevadas [as urticas], avermelhadas,  muito pruriginosas, e aparecem e somem ao longo do dia. A pessoa amanhece com lesões no tronco e no final do dia  elas não estão mais no tronco, mas já estão na coxa. E podem ser associadas ou não a episódios de edemas, inchaços nos lábios, no olho.

Durante muito tempo, ficou muito indefinido por que a urticária acontece, mas atualmente já temos a definição de que a maior parte dos pacientes tem urticária como doença auto-imune, com o seu  próprio corpo produzindo substâncias que agridem células especificas, que são os mastócitos. Na dermatite atópica, você não tem esse componente do corpo agredir o próprio corpo, é uma alteração da barreira cutânea que estimula a inflamação. Então, o próprio desenrolar da doença já as difere. Na urticária, a maioria dos pacientes tem a urticária crônica espontânea porque não tem um fator externo que desencadeie; e outro grupo de pacientes tem a urticária induzida, quando as lesões de pele acontecem associadas à exposição a um fator determinado.

Tem gente que tem urticária quando está numa temperatura mais baixa, tem gente que tem urticária depois de tomar banho, é a menos comum, mas tem gente que acaba de tomar banho e está com placas, se coçando. Tem gente que tem depois de fazer atividade física. Então, temos dois grupos de urticária: as espontâneas e as específicas.

E em relação à duração dessas doenças?

A urticária é um pouco diferente, porque não é tão certinha como costuma ser na DA:  na maioria dos casos aparece na infância, depois na adolescência melhora. A urticária, em qualquer idade, a qualquer hora, você pode ter. E a duração dela varia de 6 meses a muitos anos, uma média de cinco anos.

O verão está chegando. O sol pode agravar essas doenças?

A exposição solar não piora a DA,  com uso de  protetor solar. A fototerapia é usada também no tratamento e, claro, não é uma cabine de bronzeamento, é uma cabine com radiações de raios ultra-violeta que desinflamam as lesões. Mas, com pacientes com urticária, há os que apresentam lesões com exposição ao sol; esses devem se proteger mais. Os demais não pioram  com atividades ao ar livre.

A senhora mesmo, conforme li no Instagram, teve um episódio de urticária quando cursava o primeiro ano de medicina.

A urticária é uma doença que tem muita relação com fatores externos para desenvolver as lesões. Quando entrei na faculdade, em 2004, abriu um quadro de urticária (dizemos abriu um quadro porque já nascemos com a tendência), e a minha durou seis meses, mais ou menos, e sumiu. Do mesmo jeito que apareceu, desapareceu. E hoje, eventualmente, tenho algumas placas, mas é esporádico.  Você faz o tratamento, mas não é o tratamento em si, a urticária pode, simplesmente, desaparecer. Mas, na maioria dos pacientes, as fases são mais longas,  com um tempo de 5 anos de doença.

Essa experiência com a urticária, de alguma forma, definiu sua escolha pela especialidade? Creio que para os pacientes faz muita diferença o fato de o profissional já ter passado pela situação, digamos, na própria pele.

Ah, sim. Sou paciente da dermatologia desde a infância: dermatite atópica leve, acne, urticária. Entendo quando os pacientes conversam comigo porque já vivenciei.

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