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O que dizem coaches baianos sobre sobre a proposta de criminalização da atividade

Psicóloga com mais de 30 anos de experiência, Yanara Setenta ouviu recentemente o relato de um coach comportamental, recomendando a um paciente sorrir em frente ao espelho, como remédio para a depressão. Fora o aspecto anedotário dessa história, a nova moda do mercado de trabalho tem preocupado, particularmente, os profissionais de saúde.
Segundo a definição da Sociedade Brasileira de Coaching (SBC), o coaching é um processo que visa aumentar o nível de resultados positivos de indivíduos, times ou empresas por meio do uso de técnicas e ferramentas por um profissional habilitado (o coach), em parceria com o cliente (o coachee).
Em busca de soluções mais rápidas para seus problemas, algumas pessoas têm trocado o acompanhamento psicológico pelas dicas de pessoas que, após frequentarem cursos que, a depender do programa, podem ter de 400 horas a 600 horas de aula, adotam o título de coach. “É uma moda. Uma moda ruim que um dia vai passar, assim como alguns gêneros musicais”, compara Yanara, que há cinco anos vem escutando casos de pacientes que, sob os conselhos desses gurus, deixam de tomar os remédios prescritos pelos psiquiatras que os acompanham. Nos últimos tempos, porém, ela tem se assustado com as proporções que a onda coach vem tomando.
O nome de Yanara é um dos 20.638 apoiadores que constam na sugestão legislativa nº 26 , proposta pelo estudante de informática sergipano William Menezes, que pede ao Congresso a criminalização do coaching. “Acho esse termo muito forte, não é isso na verdade que eu defendo”, diz a psicóloga e terapeuta que acredita ter visto o abaixo-assinado em redes sociais, mas não tem certeza de como seu nome foi parar no documento.
Em apenas oito dias, a proposta recebeu as 20 mil assinaturas exigidas para que fosse apreciada pelo Congresso. O assunto está nas mãos do senador Paulo Paim (PT-RS), escolhido como relator. Por meio de sua assessoria, o parlamentar gaúcho disse que vai convocar audiências para discutir o tema, mas adiantou que não acredita na opção de criminalizar. Curiosamente, uma outra SL que fala em “regulamentação”, contava com apenas 3.340 apoiadores na tarde do dia 28 de maio.
Se pessoas envolvidas com o assunto, inclusive profissionais afetados, defendem a via da regulamentação e rejeitam a criminalização, por que houve maior mobilização popular para a alternativa mais radical? “A partir do momento em que ele acaba interferindo na vida do próximo e faz afirmações que não procedem, como colocar num ponto de ônibus um aviso de cursos curtos de acupuntura e psicanálise, que a pessoa faz aquilo sem capacitação, simplesmente é uma ofensa aos profissionais que estudam por mais de quatro anos e vão ficar fora do mercado de trabalho”, afirma Menezes, autor da proposta.
Espaço
As queixas pela invasão do campo de atuação por outros profissionais não são um problema novo. Em diferentes áreas do conhecimento, há gente disputando espaço. Arquitetos e engenheiros, designers de interiores e arquitetos, relações-públicas, jornalistas e publicitários, por exemplo. A novidade com os coaches é que se trata de uma profissão que, simplesmente, não está regulamentada. Qualquer pessoa pode se declarar um treinador e anunciar aos quatro ventos que esse é seu novo status social, tal como Juan Guaidó se autoproclamou presidente da Venezuela em 23 de janeiro deste ano. A questão é até que ponto as pessoas vão lhe dar ouvido e quem vai respaldar o seu anúncio.
“Há 10 anos eu prego em favor da regulamentação da profissão”, declara o coach e consultor de carreiras Cristiano Saback, para quem em todo o mundo essa é uma atividade reconhecida, mas que no Brasil acabou tendo a imagem arranhada pela proliferação de cursos rápidos de formação de coaches. “Quando me formei, só havia duas escolas em São Paulo”, diz, referindo-se à Sociedade Brasileira de Coaching e o Instituto Brasileiro de Coaching.
O tempo foi passando, o desemprego e a criatividade aumentando, e então o termo que na década de 1980 a gente conhecia apenas como o técnico de futebol durante transmissões de competições internacionais, começou a ser usado indiscriminadamente por qualquer um que enxergou uma oportunidade de levar a carreira de alguém de um lugar a outro.
Às vezes, o coaching pode levar geograficamente de um local ao outro, especialmente quando surge uma oportunidade de formar coaches. Depois de construir uma trajetória como dona de uma autoescola em Vitória (ES), Dulce Mariano entrou em sociedade com um amigo para adquirir a franquia baiana da Febracis, escola fundada em 1998 em Fortaleza e que conta com 40 unidades no Brasil e no exterior.
A instituição orgulha-se de ter formado mais de 12 mil coaches em 21 anos de existência. “Eu fiz o curso pensando em auxiliar os alunos da autoescola que tinham bloqueio emocional que os impedia de terminar a preparação de obter a licença”, afirma Dulce, que depois acabou tomando gosto pela área e encontrou a oportunidade de gerir a filial baiana, cuja sede está sendo montada na Avenida Manoel Dias, Pituba.
“Há o ponto onde a pessoa está e o ponto onde ela quer chegar. O trabalho do coach é mostrar o caminho”, afirma Dulce, cuja empresa se dispõe a formar pessoas para que sejam aptas a exibir atalhos nas áreas pessoal, profissional e financeira.
O presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon), Reinaldo Sampaio, também é contra a criminalização da atividade, mesmo nos casos de “invasão” ao espaço que normalmente é ocupado por economistas, como as consultorias de finanças pessoais. “Queremos a regulamentação. Há, por exemplo, uma questão sobre quem deve fazer a perícia financeira, que é diferente da contábil”, avalia Sampaio.
A perícia contábil é uma atividade privativa dos contadores e diz respeito ao levantamento de dados de um determinado patrimônio para servir como subsídio a uma decisão judicial em caso de litígio. No caso da perícia financeira, o trabalho envolve cálculos de remuneração do patrimônio, cálculo de pagamento de tributos e questões trabalhistas. O setor de perícia financeira é um dos ramos de atuação mais promissores do mercado. Entretanto, essa atividade pode ser feita atualmente não apenas por economistas, mas por contadores e administradores de empresas.
Confusão
Ironicamente, a confusão em torno do coaching conta com a ajuda de profissionais de saúde que aderiram à nova nomenclatura. Se uma atividade prática do tratamento psicológico, como acompanhar a um evento um paciente com fobia social, é exercida por um profissional credenciado por anos de estudos e que agora se chama coach, como evitar que um aventureiro se aproprie desse ritual isoladamente e ofereça uma cura mais barata e rápida?
O Conselho Regional de Psicologia da Bahia não atendeu à reportagem, mas uma fonte ouvida pela Muito afirma que, para se dissociar de consultores duvidosos, a entidade está sugerindo que os psicólogos abandonem a utilização desse termo.
Perder ou ganhar dinheiro em função da escolha de um profissional pouco qualificado para cuidar de finanças pessoais pode doer no bolso, mas afinal é uma decisão tomada pelo detentor dos recursos. No caso dos coaches que atuam como se fossem psicólogos, a questão vai além da reserva de mercado e interfere no tratamento de pessoas com transtornos mentais. Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde, cerca de 300 milhões em todo o mundo sofrem com algum grau de depressão.
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