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O sol de um novo ano: reflexões e desejos para 2023
O primeiro dia do novo ano acontece neste domingo
Imóveis construídos em terrenos que têm no horizonte o sol poente apresentam o desafio extra para os arquitetos de minimizar a invasão de calor, quando chega o fim do dia. Esse desconforto térmico é só uma das coisas que ficaram evidentes e urgentes para quem adotou o home office durante a pandemia.
E o sol ardendo dentro das casas à beira da Baía de Todos-os-Santos mexeu diretamente com a vida do arquiteto Rodrigo Cassieri, um paulista que vive há 30 anos em Salvador. A necessidade de conforto para quem trabalha em casa fez aumentar a demanda por projetos arquitetônicos durante a pandemia, minimizando a maré contrária dos primeiros casos de Covid-19, quando os clientes vazaram.
Mas mesmo com encomendas em ebulição em seu escritório doméstico, Cassieri ficou muito feliz no primeiro semestre deste ano, quando as restrições às aglomerações foram amenizadas. "Nós voltamos a viver. Desde o início da pandemia, foi o primeiro ano em que tivemos uma vida mais perto do normal", afirma o arquiteto, pontuando que durante dois anos de crise sanitária todo mundo perdeu algo, uma pessoa da família ou conhecida, oportunidades de trabalho, o nível de rendimentos ou convívio social.
"Depois de tanto tempo, foi a primeira vez que recebemos um pouco de carinho", diz ele que, durante a entrevista no Largo de Santo Antônio Além do Carmo, demonstra avidez por curtir os momentos bons da vida.
Ainda mais porque o isolamento social produziu uma tragédia na família. A sua avó, de 84 anos, foi protegida de todas as formas possíveis para evitar o contágio pela Covid-19. Mas, depois de meses sem receber as visitas de familiares, a que estava tão acostumada, sucumbiu à depressão e morreu.
"Ela acabou se entregando, pela tristeza de não ver a gente", conta Cassieri, com a tristeza de quem ajudou a planejar tudo direitinho em nome da saúde da avó e viu o esforço coletivo ser vencido pelo imponderável. Mas como disse o falecido poeta e cantor canadense Leonard Cohen, há um buraco em tudo e é assim que a luz penetra. Para o ano que começa, Cassieri espera ter saúde e mais trabalho do que teve em 2022.
Sonho
Depois de seus anos no estado do Rio de Janeiro, onde foi em busca de trabalho, o técnico de manutenção em automação Diego Santana realizou em 2022 o sonho de voltar para Salvador.
Filho da Península de Itapagipe, já assistiu o sol se pôr de maneiras extraordinárias na Ponta de Humaitá e na Ladeira da Barra, por exemplo, e, entre os fluminenses, nas praias da Cidade Maravilhosa e em Cabo Frio, onde testemunhou o hábito sudestino de aplaudir o Astro-Rei quando ele se recolhe no horizonte. Costume que, de vez em quando, é replicado no Porto da Barra.
Recentemente, Diego encontrou no Instagram uma nova alternativa soteropolitana para ver o pôr do sol, o bar Rooftop 180°, na Lapinha, que lhe permite observar desde a Cidade Alta o seu velho bairro, à direita, e o Comércio, à esquerda. Diego diverte-se turistando em sua terra natal, que acabou de reencontrar e, feliz, não economiza em selfies: "O ano de 2022 foi corrido, proveitoso, cheio de oportunidades. Foi um ano bom para mim".
Ele se diz feliz por ter encontrado uma profissão no Rio, um caminho que talvez não tivesse encontrado se tivesse decidido permanecer aqui, mas estava doido para voltar. Sobre o ano que começa, seu principal objetivo é se manter empregado e se estabeleceri: "Eu gostaria de ficar nessa cidade maravilhosa, inclusive porque eu nasci aqui no Bonfim. Eu quero conquistar minha vida na cidade onde nasci e cresci".
Moradora da Barra, a adolescente Fernanda Monteiro Maia costuma passar pelo Farol da Barra pelo menos duas vezes por semana, a caminho da natação e do curso de kumon, metodologia criada por Toru Kumon em 1958, no Japão, o chamado país do sol nascente, para o aprendizado acelerado de matemática e idiomas, além de leitura dinâmica.
Aplausos
Fernanda, que se dedica no curso à matemática, sai de casa ainda com o sol a pino e volta já de noitinha. No momento exato em que o sol está se pondo, sob eventual aplauso de baianos (e de turistas cariocas, claro), a adolescente está focada em números.
Mas apesar do empenho em avançar na matemática, a menina, que completou 14 anos no Dia de Natal, tem se movido em direção às artes. Durante a pandemia, aproveitou o tempo livre para se dedicar ainda mais às suas habilidades no desenho.
"Em 2022 eu melhorei bastante. Agora, estou desenhando mangás, mas comecei me inspirando em Maurício de Souza. Queria trabalhar em seu estúdio, mas agora faço minha própria arte", afirma Fernanda.
A jovem desenhista começou a praticar ainda aos cinco anos de idade e nunca fez um curso " Eu aprimoro no dia a dia. Normalmente, desenho no meu quarto e na sala de aula, mas tem dias que não desenho também".
Às vésperas do dia em que se comemora o nascimento de Jesus Cristo, além do seu próprio, Fernanda foi passear no Farol da Barra, com a mãe, a irmã e uma prima. Não é um programa que faça com frequência, apesar de gostar do lugar. "Aqui é arejado", sintetiza, economizando as palavras.
Séria, Fernanda diz que considera a sua prática em desenho como uma oportunidade de, no futuro, fazer um curso de artes. No presente, ela desenha sem cobranças, sem compromisso. "Eu me divirto bastante fazendo desenho", pontua.
A jovem artista gosta de desenhar personagens que existem, criar a partir deles o seu próprio mundo ilustrado e também pintar telas. Em relação ao ano que começa, Fernanda já definiu um sonho: tocar violoncelo. "Eu gostaria muito de aprender e tocar qualquer música que eu quiser e, quem sabe, tocar para mim mesma no futuro", afirma.
Comparando-se a expectativa de vida da mulher brasileira, em média 80 anos, com as 24 horas do dia, é como se a adolescente ainda estivesse desenhando os seus primeiros raios solares, às 4h20 da manhã. É uma jornada que está apenas começando, mas já aponta seu calor para o universo.
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