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Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger: Estímulo e Reflexão

O concurso foi criado há pouco mais de duas décadas em homenagem aos 100 anos do fotógrafo

Cristina Damasceno* | cristinafath2@gmail.com

Por Cristina Damasceno* | [email protected]

30/12/2022 - 6:00 h | Atualizada em 31/12/2022 - 14:56

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Uma certa vez, eu ouvi a seguinte frase: nós só fotografamos o que queremos lembrar. Assim, pensando no ano que se inicia, o meu desejo é que tenhamos muitos motivos para continuar fotografando e guardando momentos que não desejamos esquecer.

Neste contexto, a realização do prêmio Pierre Verger programado para acontecer no segundo semestre deste ano, é, sem dúvida, um sopro de ânimo para os artistas visuais da Bahia e do Brasil.

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Criado há pouco mais de duas décadas, em homenagem aos 100 anos do fotógrafo, o concurso foi pensado para acontecer a cada dois anos. Porém, o evento foi suspenso entre 2014 e 2015, fato que mobilizou artistas e fotógrafos locais a elaborarem um documento, denominado Carta das Laranjeiras, reivindicando o retorno do prêmio e por continuidade nas ações culturais. As propostas foram entregues à Secretaria de Cultura do Estado em agosto de 2016, surtindo efeito, pois desde então o prêmio segue cumprindo seu objetivo inicial e se encontra atualmente na sua oitava edição.

Ao longo dos anos, algumas modificações importantes ocorreram nos editais. A princípio, existia somente uma categoria e os participantes tinham o tema e a técnica com total liberdade de escolha. Um único vencedor recebia uma quantia em dinheiro e o apoio financeiro para montagem de uma exposição e publicação de um catálogo.

A partir da quinta edição foram instituídas mais duas categorias, além de Livre Temática e Técnica: Fotografia Documental; Inovação e Experimentação na Área de Fotografia.

Os recursos dobraram para contemplar as novas seleções, mas apenas o primeiro colocado no tópico Livre Temática e Técnica era oferecido um valor adicional para a organização de exposição e confecção de catálogo. Só na sexta edição que as três categorias vencedoras passaram a ser igualmente premiadas sendo todos incluídos na exposição e catálogo. Nesse concurso, o número de inscritos aumentou cerca de 200% em relação ao anterior. Daí em diante, outros trabalhos foram selecionados com destaque especial e incorporados à programação do evento.

Na sétima edição, a modalidade Livre Temática e Técnica foi substituída por Ancestralidade e Representação, com o objetivo de contemplar aspectos históricos e etnográficos da cultura brasileira e, certamente, reafirmar o vínculo do prêmio com a obra do antropólogo e fotógrafo Pierre Verger.

Atualmente, está aberto no site da Fundação Cultural uma consulta pública para elaboração da nona edição do prêmio, até 28 de fevereiro. Acredito ser uma boa oportunidade para os interessados se manifestarem com sugestões pertinentes aos pontos que serão propostos no edital.

Eu, particularmente, gostaria que o concurso contemplasse uma categoria específica para pesquisa sobre a fotografia no Brasil. Sinto que existem muitas lacunas a serem conhecidas a respeito do tema e que seria um estímulo importante para novas descobertas. Não deixando de mencionar a coerência da minha proposta, pois Verger foi um grande pesquisador que deixou um legado importante sobre nossa cultura.

Em seu livro intitulado Fluxo e Refluxo, ele teve como ponto central de sua abordagem o tráfico negreiro entre o golfo de Benim e a Bahia, entre os séculos 17 e 19. Viajando para África e visitando arquivos no Brasil e na Europa reuniu documentação inédita sobre o comércio de escravos no Atlântico.

Avaliação cega

Em 2018, vivenciei a rica experiência de participar da seleção do prêmio, momento que pude ter contato com parte da produção fotográfica brasileira do período. Na ocasião, o método de inscrição dos candidatos, cuja banca examinadora tinha conhecimento dos autores junto às suas obras, me chamou a atenção.

Seguramente, o processo de uma avaliação cega, que compreende apenas em analisar a obra sem revelar o nome, gênero, idade, etnia, etc. do candidato, por parte da comissão julgadora, daria mais transparência ao concurso, garantindo maior lisura nos critérios de avaliação.

A Funceb já utilizou essa abordagem em outras seleções, como nos Salões Regionais. O retorno desse procedimento merece análise no modo de preservar questões éticas referentes aos envolvidos.

Sei que formular o edital é uma tarefa difícil, entretanto, analisando as categorias propostas percebo uma certa fragilidade nas suas denominações. Um exemplo é Livre Temática e Técnica, que antes poderia ser tranquilamente confundido com Trabalhos de Inovação e Experimentação na Área de Fotografia. Atualmente, acho possível que o mesmo problema se repita, existindo dúvidas entre as categorias Questões Históricas e Ancestralidade e Representação.

O significado dos títulos que definem as categorias requer certa objetividade no sentido de facilitar sua interpretação, principalmente por parte dos inscritos.

Conversando com Marcelo Reis, coordenador de Artes Visuais da Funceb, ele relata que sente falta de uma participação mais efetiva dos artistas na construção do edital. Marcelo comenta ainda sobre a importância do catálogo, no sentido de formar uma coleção física de livros, registrando o evento e contribuindo para a memória das artes no Brasil. O último catálogo possui tradução em inglês e cadastro no ISBN, espécie de RG para identificação de livros padronizado internacionalmente.

Primeiros premiados

O primeiro vencedor do concurso, em 2003, foi o fotógrafo Márcio Lima com o ensaio intitulado Gente e Costumes da Bahia. Márcio relata que esse foi um trabalho que desenvolvia na época e que experimentou submetê-lo ao prêmio. Por necessitar de uma documentação específica de cessão de imagem para as fotografias que revelassem o rosto dos retratados, ele optou em fazer uma seleção onde a fisionomia das pessoas não aparecesse, e sim os lugares e objetos que envolviam a presença humana. O resultado do ensaio, que, para o autor, ainda está inacabado, é vibrante e cheio de poesia. As cores saturadas dos objetos saltam a vista e, nas cenas fotografadas, a sensação de presença envolve o ambiente.

Como Márcio Lima, Pedro David, vencedor da quarta edição, afirma que a premiação proporcionou mais visibilidade à sua carreira e favoreceu sua participação em várias exposições e circulação em eventos artísticos. Com o tema O Jardim, Pedro conta que tinha acabado de se mudar para um bairro na periferia de Belo Horizonte, uma região recém-urbanizada, que o instigou a pensar sobre a ocupação do lugar.

Refletindo questões referentes ao embate do homem com a natureza, Pedro tentou usar seu bairro e região para falar do mundo. Ele declara que se baseou no texto intitulado Rigor na Ciência, do escritor argentino Jorge Luís Borges, e comenta: “Uma geração de cartógrafos que criaram mapas tão grandes que acabaram de coincidir com o próprio império onde eles viviam, uma ficção, e eu usei isso como inspiração em relação à ocupação crescente e caótica do mundo”. Pedro lembra que com o prêmio ele teve a oportunidade de realizar o sonho de expor individualmente no Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM BA).

Na última edição do concurso, mais um prêmio foi instituído, o de Residência Artística Instituto Sacatar. Ainda, paralelo à exposição oficial dos premiados e selecionados, no Palacete das Artes, foi possível visitar a mostra Homenagem ao Percurso da fotógrafa Arlete Soares.

Direcionado para artistas e fotógrafos brasileiros e estrangeiros, oficialmente residentes no País, com trabalhos inéditos, o prêmio Pierre Verger se firmou como um dos mais importantes da fotografia nacional. Sua realização, este ano, nos anima a sair da apatia em que o cenário político cultural se encontra e nos estimula a sonhar por um futuro promissor onde as expressões artísticas ganhem mais espaços e incentivos.

*Doutora em Artes Visuais e professora de fotografia na EBA (Ufba)

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