Projeto resgata partituras criadas para filarmônicas na Bahia no século 20

Publicado domingo, 21 de março de 2021 às 12:30 h | Atualizado em 21/03/2021, 14:23 | Autor: Gilson Jorge

No próximo dia 28 de março completam-se 179 anos que um grupo de músicos austríacos, em um domingo de Páscoa, realizou o primeiro concerto do coletivo que seria conhecido posteriormente como a Orquestra Filarmônica de Viena.

Poucos anos depois, no interior da Bahia, o nome filarmônica, que significa amor à harmonia, começava a se popularizar, com dezenas de municípios criando as próprias orquestras – que levavam ao grande público a música clássica, antes restrita às missas e celebrações da aristocracia –, além de estimular o aparecimento de compositores de dobrados e popularizar os bailes em pequenas cidades.

“Em 1905, era possível ouvir no interior músicos executando as mesmas melodias que eram tocadas nos salões de Paris. Bem no estilo que a gente viu no filme Titanic”, conta o maestro Fred Dantas, que atualmente coordena o trabalho de catalogação e digitalização de 282 partituras compostas na Bahia no século passado.

Impulsionada pela inauguração, em 1935, da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro, que ligava o Recôncavo a Sergipe, ao rio São Francisco e a Minas Gerais, a cultura das filarmônicas contou com a devoção de ferroviários pela música, que compartilhavam partituras com músicos locais ao desembarcarem em uma estação, ajudando a formar uma rede de compositores que se tornariam referências para as filarmônicas, como Isaías Gonçalves Amy, José Propheta, Abelardo Enéas Campos e Estevam Moura. Este último, aliás, serviu de inspiração para batismo de um dos filhos de Fred, o músico Estevam Dantas.

“Não era apenas a reprodução da música europeia. Muitos compositores receberam forte influência do samba do Recôncavo e criaram coisas novas”, destaca o maestro Fred Dantas.

Um objeto fundamental para o mapeamento das agremiações e dos músicos é o carimbo da filarmônica em cada partitura, que servia como garantia patrimonial da obra. Em cidades com mais de uma filarmônica, a rivalidade levava os músicos à espionagem e roubo de partituras para que uma filarmônica tocasse com antecedência uma peça que estrelaria a apresentação da outra. “Não era por incapacidade de compor, mas pirraça”, diz Dantas.

Ferrovia

A maior parte do material restaurado e digitalizado pela equipe do maestro integra o acervo Deraldo Portela, Ferrovia e Filarmônica, guardado durante décadas em Irará por Deraldo Portela, ou Doutor, como é conhecido na cidade o médico de 93 anos que tentou se tornar um músico, mas acabou como presidente da Filarmônica 25 de Dezembro por mais de 30 anos.

À medida em que visitava cidades vizinhas, Portela era agraciado com material de filarmônicas locais. Agremiações que muitas vezes eram bancadas por coronéis, grandes comerciantes e fazendeiros, como aponta o musicólogo e pesquisador da Ufba Pablo Sotuyo Blanco, no artigo Filarmônicas da Bahia: tradição cultural incentivada ou politicamente dependente?

Em uma de suas caminhadas, na década de 1980, Portela foi à casa do maestro Pedro Cardoso, em Alagoinhas, e chegou a tempo de impedir que dezenas de partituras, fotos e documentos fossem incendiados.

Portela conhecia o interesse de Dantas pelo assunto e o material foi transportado para Salvador em duas viagens em uma Toyota Rural e ficou armazenado, desde então, na sede da Orquestra Fred Dantas, no Barbalho, e na casa do maestro, em Amaralina.

Com a aprovação do projeto pela Lei Aldir Blanc, as mais de cinco mil páginas estão sendo finalmente digitalizadas e devem estar disponíveis em um site da internet a partir do mês que vem e por um período de três anos. O endereço é filarmonicaeferrovia.com.br.

“Não queremos parar por aí. Estou buscando recursos para a gravação de um concerto com pelo menos 12 músicas desse acervo”, declara a produtora Simone Carrera, que assina o projeto aprovado pela Lei Aldir Blanc.

O maestro Fred Dantas não recebe remuneração por esse trabalho, de acordo com a produtora e o próprio maestro. “Essas músicas estavam praticamente mortas e agora voltam a ocupar o seu espaço como patrimônio da humanidade”, assinala Portela.

Partituras

Um dos documentos que estão sendo restaurados pela equipe de Fred Dantas é a partitura da Ária das Adeptas, música composta em 1905 por João Mariano Sobral, que atuou em Cruz das Almas e cidades vizinhas. As adeptas era como se chamavam as mulheres de músicos da Filarmônica que acompanhavam os maridos, numa época em que a presença feminina em conjuntos musicais era restrita. “Algumas, como minha vó, Oscarlina Dantas, formaram suas próprias orquestras”, pontua Dantas.

Um trabalho similar de restauro está sendo feito no sul do estado, também via edital, pela Lyra de Belmonte, criada em 1914 por 18 músicos que deixaram a Orquestra Bonfim, que atuava desde 1888, pelo menos, sob o comando do coronel João Gomes de Oliveira, que usava a formação musical como instrumento político. “A partitura mais antiga que encontramos é de 1888”, conta o presidente da Lyra, Alan Araújo, 29 anos, bisneto de um dos músicos fundadores, Julião São Pedro.

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