ABRE ASPAS
"Queda e coragem são amigos íntimos", diz Fabiane Maimone
Autora de 'Não faça o que eu fiz – Baseado em um fracasso real' falou de pesquisa sobre coragem e novo livro

Em 2013, a jornalista, escritora e mentora baiana Fabiane Maimone faliu. Esse acontecimento desencadeou uma série de análises que resultaram no seu primeiro livro, Não faça o que eu fiz – Baseado em um fracasso real. Esse momento definidor da vida dela abriu algumas portas para desenvolver outras atividades que Fabiane não sabia que poderia desempenhar. Até o começo deste ano, ela foi diretora executiva de uma das maiores empresas de Cenografia do país e decidiu mudar de carreira mais uma vez para trabalhar apenas com a coragem, que é o tema de seu novo livro, Mapa da Coragem (Editora Gente), com prefácio de Luiza Helena Trajano, presidente do Conselho de Administração do Magazine Luiza e do Grupo Mulheres do Brasil, lançado ontem na livraria Leitura do Salvador Shopping. A escritora best-seller também foi uma das palestrantes da última edição do ano do TEDx Campo Grande, e conversou com A TARDE sobre sua pesquisa sobre a coragem, o novo livro e próximos projetos.
Primeiro, gostaria de saber o que você define por coragem?
Coragem, dentro do que eu tenho estudado, é o processo de construção de segurança. Coragem é a habilidade que faz a gente virar o jogo. Quando a gente tem coragem, a gente deixa de ter a vida que a gente recebe, digamos assim, e a gente passa a ter a vida que a gente deseja. Eu brinco sempre, é como se a gente vivesse em um voo de cruzeiro, a gente decolou, está em voo de cruzeiro, mas a gente não define muito quais são os lugares que a gente vai pousar ao longo da nossa vida, ao longo da viagem. Se você não tem coragem, você certamente acaba a sua vida lá no seu caixão.
Você vai chegar nesse lugar, mas com coragem você escolhe onde você pousa durante essa viagem que você faz. Por exemplo, eu estou num emprego, mas não estou feliz nesse emprego. Como construo a segurança adequada para dar o passo e ter coragem de alçar um novo voo, de me lançar numa nova oportunidade, ou no empreendedorismo ou uma nova empresa? Como é que fazemos isso? Coragem é a habilidade que faz o jogo da gente virar e que nos permite chegar nos lugares que gostaríamos de chegar, que sem coragem nós, normalmente, não acessamos, porque não nos permitimos arriscar. E é esse arriscar que faz você encontrar lugares extraordinários.
Você descreve o livro como "um conjunto de técnicas e habilidades treináveis para desenvolver a segurança". Quando você percebeu que coragem era algo que precisava ser construído?
Eu estava fazendo uma imersão na Editora Gente, em junho de 2020, e queria publicar Não faça o que eu fiz, que é o meu primeiro livro. Lá, a gente escreve a nossa trajetória, antes de começar o processo de aprender sobre o universo de publicação. Eles já tinham me sinalizado que não publicavam biografias e o meu livro era uma biografia. Recebi um feedback de Carol Rocha, do setor editorial, com base no que eu disse, dizendo que eu queria que as pessoas tenham coragem. Sou mãe solo e quando decidi vir morar em São Paulo, sozinha, com minha filha de três anos, para construir o Parque da Mônica, sem nunca ter feito cenografia na minha vida, foi uma oportunidade que eu agarrei e as pessoas diziam que eu era muito louca.
Eu falei que ia [para São Paulo] e ainda tatuaria a palavra coragem. Quando Carol falou aquilo para mim, eu tive meio que um encontro com Deus. Tudo fez sentido na minha vida. O assunto do primeiro livro foi sobre um momento de falência. Eu abri um restaurante em Salvador e fali, fiquei com uma dívida imensa. Nesse caos, eu descobri que estava grávida, depois eu me separei, fiquei desempregada, foi um momento muito difícil da minha vida. Fui atrás de uma oportunidade para voltar para o mercado e contei minha história para Tinho, que é um dos donos da Central do Carnaval e eu já tinha trabalhado lá. Ele disse que eu era um case de coragem e eu fiquei pensando 'Que tanto de coragem é esse que todo mundo fala?'.
Tinho me falou em 2013, Carol em 2020. Quando ela veio com esse feedback, eu tive uma epifania. Foi como se tudo isso que aconteceu na minha vida, tudo isso que Deus me permitiu viver, foi como se fizesse sentido. Porque, de fato, eu tinha uma história com a coragem muito profunda ao longo da minha vida inteira e eu comecei a estudar enlouquecidamente. Estudei o contexto acadêmico, cultural, espiritual, filosófico, científico e o que contam com relação ao desenvolvimento de coragem. Sempre ouvi muito que eu sou corajosa e porque tem gente que é e tem gente que não? O que diferencia uma pessoa corajosa de uma pessoa que não é corajosa?
E aí, no último dia dessa mesma imersão, um médico cirurgião plástico dividiu com a gente que ele não ia publicar o livro naquele ano porque ele não tinha coragem. Aí eu buguei na hora. Pensei que aquele cara passa um bisturi na barriga de uma pessoa, mas não tem coragem de escrever um livro. Por que ele tem coragem de fazer uma cirurgia, mas não tem coragem de escrever um livro? Na medicina, ele está seguro para fazer cirurgia, mas para escrever um livro ele ainda não está. Então, ele precisa construir a segurança para dar espaço.
Como é que se faz isso? E aí foi isso que eu comecei a estudar muito. E veio como um insight que coragem é um processo de construção de segurança. Ele precisa construir a segurança para dar espaço. Como se faz isso? E aí comecei a estudar muito, e foi nessa literatura, nessa grande curadoria junto a minha experiência, que deu vida ao Mapa da Coragem.
No livro, você também fala sobre reconhecer o próprio modus operandi mental em decisões que exigem coragem. Como é essa abordagem?
É o seguinte: multiplique 365 por 24, que é a quantidade de horas vividas no ano. Multiplique esse resultado por sua idade. É a quantidade de horas que você viveu até hoje. E isso é como se fosse o seu arquivo de áudio e vídeo vividos e armazenados na sua cabeça. Por que você lembra das coisas que você lembra? Por que isso está na superfície da sua memória? Que historinha é essa que você está contando para você de quem você é? Você é uma pessoa corajosa? Você é uma pessoa medrosa? Você é a vítima, o vilão, o carrasco ou o mocinho? Quem é a gente nessa história? Qual é o padrão de pensamento e ação que te trouxe até aqui? Tem duas coisas para a gente olhar sobre o modus operandi mental.
Se a gente não reconhece a nossa trajetória, a gente não reconhece como a gente chegou até aqui. E aí, quando você começa a reconhecer a trajetória, você começa a ver qual foi o modelo mental que te trouxe até aqui. Eu falo que a gente precisa reconhecer o nosso modus operandi mental porque se a gente não reconhecer, como é que vai ajustar? Por exemplo, quando analisei a minha trajetória, fui por padrão precipitada a vida inteira. Eu decidia hoje, executava amanhã. Qual o problema disso? Quando você não tem um tempo de preparação, você cai de maneira muito mais constante do que se você tiver um caminho mais consciente de preparação para que você tenha coragem de fazer o que você deseja.
Queda e coragem são amigos íntimos. Se você for corajoso o tempo todo, você vai cair em algum momento. E quando você não reconhece que padrão é esse, você continua fazendo um comportamento, você continua agindo de uma maneira que pode não estar te beneficiando, como era comigo. Eu trabalhava como diretora executiva numa grande empresa de cenografia, só que eu tinha decidido, em junho de 2020, sair para trabalhar exclusivamente com o desenvolvimento de coragem. Se eu não soubesse qual é o meu modus operandi mental, eu tinha saído ali mesmo, porque ali eu já tinha decidido sair. Só que eu não tinha segurança, não tinha segurança de conteúdo, não tinha segurança financeira, não tinha nenhuma segurança.
Eu tinha uma vontade, um desejo gigante, que antes era o suficiente para mim. Hoje não é mais. De junho de 2020 a maio de 2022, fui construindo o meu processo de segurança para ter coragem de dar o passo que eu dei esse ano de largar a carreira que eu tinha para ingressar numa nova carreira, num ato de coragem, mas num ato de coragem que não é precipitado. Só consigo dar esse passo hoje porque reconheço qual foi o padrão que me trouxe até aqui e, a partir desse reconhecimento, eu consigo hoje ajustar.
Nesse período de fim de ano, muitas pessoas decidem criar metas e novos impulsos para a vida. Como a coragem toma lugar nessas decisões?
Se a gente considerar todas as nossas metas, se tivéssemos anotado dos anos anteriores para cá, começaríamos a ver quais foram as que a gente, de fato, implementou e talvez a gente se assustasse. Desejamos mais do que realizamos. E tem gente que é o extremo oposto, que não se permite mais nem desejar, exatamente para não ter decepções. Se eu disser 'Vamos começar 2023 com coragem', acho que fica um papo muito vago, muito intangível. Acho que o momento para a gente começar 2023 é entender que podemos construir um caminho de segurança para implementar aquilo que a gente deseja. O que a gente deseja? E por que? Falamos na resposta anterior sobre reconhecimento, e isso é o começo de tudo. O reconhecimento da trajetória faz com que a gente entenda quem a gente é e por que aquele desejo é importante para nós.
A gente reconhece de trás para poder olhar para a frente. Depois a gente precisa entender e nomear quais são os nossos valores. Se a gente não se conhece, não sabe quem a gente é, não sabe o que é inegociável para a gente, não sabemos nem por quê queremos aquilo que achamos que queremos. As redes sociais hoje trazem uma ilusão de desejo de coisas que, às vezes, não fazem o menor sentido para nós, mas vemos tanta gente fazendo que passamos a querer.
Aquilo faz sentido ou só gera mais ansiedade para querer algo que, na verdade, nem é a nossa essência? Se você põe uma meta, por exemplo, empreender em 2023 e você não reconhece que tem algumas inseguranças que podem afetar diretamente seu desejo de empreender no ano seguinte, você não vai conseguir realizar porque você vai botar um objetivo para frente sem ter resolvido algo que é pregresso, atrás. Precisamos olhar para essas inseguranças para entender quais são elas e criar uma estratégia para lidar com cada uma delas.
Depois, temos que olhar quais são nossas travas, nossas alavancas de coragem, para que quando formos implementar a nossa decisão, os nossos desejos de 2023, ou mesmo antes de implementar, façamos as nossas metas, elas sejam compatíveis com quem a gente é e com quem a gente quer ser, já tendo reconhecido o seu processo de construção de segurança. Senão, vai ser só mais um desejo. E aí, se você não realizar, vai ser só mais uma frustração. O raciocínio de construir segurança te leva a implementar e não ficar sonhando.
Em 2023, você vem com um outro projeto, a Casa da Coragem, que trata do mesmo tema do seu novo livro. Pode nos contar como vai funcionar?
A Casa da Coragem contou com uma primeira edição de 7 a 9 de outubro, na praia de Guarajuba. É um projeto de viagens imersivas e, por acaso, foi na Bahia a primeira edição, mas é um projeto que pode acontecer em qualquer lugar do mundo. O objetivo é reunir mulheres, inicialmente só para mulheres, onde passamos três dias absolutamente imersas nesse universo de reconexão com a coragem. Toda a proposta da casa é voltada para que as mulheres tenham experiências. É como se saíssemos da teoria e colocássemos na prática. Temos surf, caiaque, yoga, atividade guiada na fogueira.
Fazemos um trabalho muito mais profundo. Existe uma troca muito grande. Alugamos uma casa de alto padrão, reunimos esse grupo, vamos para esse lugar e fazemos com que essas mulheres façam uploads de memórias de coragem e tente fazer download de memórias de inseguranças. Não é um retiro terapêutico, mas é um retiro imersivo e muito profundo focado para que mulheres se reconectem com a coragem. Saímos do nosso ambiente para outro onde somos estimuladas a todo momento a gerar memória afetiva de desenvolvimento de coragem. A segunda edição vai ser também na praia de Guarajuba, nos dias 27, 28 e 29 de janeiro, com grupos de 14 mulheres.
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