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San Sebastian vira referência em entretenimento LGBT, em meio a polêmicas sobre público "padrão"

A história de um dos maiores grupos de entretenimento para o público LGBT do Brasil começou no armário. O advogado André Gagliano Magal e o administrador José Augusto Vasconcelos faziam festas em casa porque não queriam se “assumir”, como lembra André. “Aí, para conhecer as pessoas, a gente falava: ‘Ah, chama seus amigos’. Quando a gente viu, tinha 120 pessoas no apartamento”.
Para alegria dos vizinhos, eles repararam que aquilo podia se transformar num negócio. Em 2009, ao lado do jornalista paulista Valdeck Júnior, criaram a San Sebastian, uma boate pequenininha no Rio Vermelho, mesmo bairro onde promoviam as farras domésticas. Em 10 anos, a marca se desdobrou em três clubes noturnos, central de vendas de blocos para o Carnaval e selos de festas que rodam o país e também o exterior. Em agosto, participaram pela segunda vez do XLSIOR Mykonos, festival de música eletrônica que acontece na Grécia.
O aniversário de uma década do grupo foi comemorado com uma micareta em Salvador, que recebeu cerca de 18 mil pessoas de 25 a 27 de outubro num megaevento montado no Wet‘n Wild, na Paralela, com direito a trio elétrico e parque de diversões. Os hotéis do entorno ficaram lotados para receber os turistas, que representaram 81% do público da festa.
Eles pagaram entre R$ 230 e R$ 635 para ver artistas como Anitta, Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Cláudia Leitte e DJs como a baiana Anne Louise, que começou a carreira na San Sebastian e ganhou projeção internacional.

Para André, um dos feitos que explicam o sucesso da San foi ter unido, na “dosagem certa”, o axé com a música eletrônica. “A gente criou esse mix que ninguém tinha feito ainda, porque não acreditavam. A gente conseguiu fazer com o mundo GLS o que acontecia com o axé na época áurea, de a galera de fora olhar para o que está acontecendo aqui. O que eu acho mais difícil, e prazeroso para a gente, é ser um selo da Bahia fazendo sucesso no Rio, São Paulo, Brasília. A gente virou uma marca nacional”.
Para quem tropeçou no meio da frase e ficou se perguntando se tinha lido certo, calma, que é isso mesmo. André ainda fala GLS, a antiga sigla que designava gays, lésbicas e simpatizantes. Para ele, as que vieram depois são uma “maluquice”. “Agora tem um bocado de sigla. Sei que já tem um T aí no meio, um Y. Acho que GLS engloba tudo. Pô, se é travesti, é gay”.
Nichos
A boate que deu origem ao grupo já mudou de endereço três vezes, no mesmo Rio Vermelho. A ideia é inovar sempre. Ser a novidade, em vez de esperar que ela apareça. “E a gente reforma, mesmo. Não é só trocar o papel de parede, entendeu?”.
O grupo também é sócio da Amsterdam, vizinha da San no Rio Vermelho, e da Mirante dos Aflitos, no centro. Cada uma atende a um nicho. No caso da Amsterdam, o público é mais hétero. “A nova geração não tem rótulo. Gosta de pessoas. Um dia está namorando homem, no outro, está namorando mulher. E a gente tem que entender essa cabeça aí para se manter no mercado e também para evoluir”.
Já a Mirantes mantém o rótulo LGBT, mas é mais “pop”, como diz André. Na cena, é conhecida por ser mais poc, expressão que designava, de forma inicialmente pejorativa, os homossexuais mais pobres, e que foi reapropriada pela militância.
Inesperadamente, como uma coisa que leva à outra, a San entrou também, há quatro anos, no filão do Carnaval. O público LGBT virou alvo dos empresários dos blocos e eles passaram a ser procurados para vender abadás e fazer listas VIPs. Foi quando atentaram para o tamanho deste mercado.
André e José Augusto, os atuais diretores do grupo, já tinham trabalhado com Carnaval “no mundo hétero”. Resolveram, então, criar uma central de vendas, a San Folia, para comercializar abadás de artistas como Ivete Sangalo e Daniela Mercury. Montaram ainda novos blocos para Claudia Leitte e Aline Rosa e seguem conversando sobre esse projeto com Ivete. Hoje, vendem seis blocos, entre R$ 680 a R$ 150 o dia.
Padrão
A San Folia cresce num momento em que o modelo das cordas mostra-se desgastado. “Os blocos que mais vendem são os da galera GLS. A gente é responsável por 80% das vendas”. Quem foi ao Carnaval nos últimos anos sabe que André não está exagerando. O circuito Barra-Ondina, onde os blocos comercializados pelo grupo desfilam, foram tomados por gays, e de um tipo bem padrão.
Para André, é o preço que “elitiza”. “Quem pode comprar, geralmente, é a galera que se cuida mais, entendeu? No bloco de Aline [Rosa], que é mais acessível, é mais de boa. Os de Claudia e Ivete acabam sendo aquela galera padrãozinho, como era o Interasa, o Me Abraça. Então, não é uma coisa do gay, é uma coisa geral, histórica”, diz André.
Para evitar que os foliões tirassem a camisa para exibir seus abdômens supersarados – dificultando a vida dos seguranças para descobrir quem tinha pago ou não pelo bloco –, os abadás acabaram virando coletes. Volta e meia, há reclamações de quem não cabe no tamanho único disponibilizado pelo grupo. Para André, o modelo “discrimina menos” e até facilita a vida dos “gordinhos”. “Antigamente, o que o gordinho fazia quando pegava o abadá? Rasgava do lado. Ele era obrigado a reformar. Hoje não. É só deixar aberto, botar uma camisa branca e acabou”.
Grandes marcas
Entre a boate e o Carnaval, vieram as festas. A primeira foi o Camarote da Rainha, com Daniela Mercury. Depois, criaram o selo San Island, que já promoveu eventos em Morro de São Paulo, Trancoso e que acontece, no próximo ano, em Jericoacoara, no Ceará, entre os dias 22 e 24 de maio. Antes disso, eles promovem um pré-Réveillon no Rio de Janeiro com a cantora Claudia Leitte, em 29 de dezembro. Para viabilizar esses eventos, fazem parcerias com produtores locais.

José Augusto diz que o fundamental para o crescimento da San Sebastian para além de Salvador foi oferecer sempre “o máximo de qualidade”. “Esse é o nosso DNA, o nosso conceito. A qualidade dos nossos eventos e também a qualidade da música, do som, que é o que conecta as pessoas. A gente tem isso como lema”.
Hoje o grupo é patrocinado por grandes marcas, de bancos a cervejarias, mas nem sempre foi assim. André lembra que no começo elas não queriam se associar ao público gay. “Mas hoje é hype ajudar minorias, entendeu? Quem não tá, tá fora da moda. Isso para a gente chegou num momento muito bacana”, diz André.
Para os próximos anos, eles não têm muitos planos, além da certeza de que querem continuar crescendo, no Brasil e também no exterior. “As coisas para a gente sempre foram acontecendo. E vamos aproveitando as oportunidades. Espero que tenha mais 10 anos nessa surpresa diária, fortalecendo os nossos projetos. A gente cresce lá fora com nossos artistas daqui. Isso é muito legal”.
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