MUITO
Todas as fichas

Quando, certa manhã, Ariel Celestino acordou de sonhos tranquilos, encontrou-se R$ 150 mil mais rico. Na madrugada do dia 11 de fevereiro, o baiano venceu o High Roller da primeira etapa do Brazilian Series of Poker (BSOP), que reuniu alguns dos melhores jogadores de pôquer do país. Acostumou-se a estar entre eles. No ano passado, Ariel já havia levado para casa, pelo mesmo torneio, R$ 243 mil. Ele é o brasileiro mais bem colocado no respeitado ranking do Global Poker Index (GPI) e o terceiro melhor competidor da América Latina.
A história de como ele chegou aonde está começa em meados de 2008, quando largou a faculdade de direito para jogar cartas a sério. A reação geral foi aquela que já se imagina. "Foi complicadíssimo. Meu pai ficou um ano sem falar comigo. Meus amigos acharam que eu tinha enlouquecido. Mas bati o pé, porque tinha convicção daquilo". Desde aí, incumbiu-se da missão de provar, também para si mesmo, que estava certo.
Rebatizado como Ariel Bahia, passou a "respirar pôquer". Mudou-se para Balneário Camboriú, em Santa Catarina, onde a princípio morou com outros três jogadores, e passou a ter rotina de atleta: dormir bem, comer bem, treinar muito. Quando está com um bom ritmo, costuma jogar por oito, doze horas seguidas, mas já chegou a passar mais de 24 horas ininterruptas mirando o baralho e investigando estratégias. "No começo, foi difícil. Vendia o café da manhã para pagar a janta. Demorei um ano para me estabilizar".
O tempo vem mostrando que sua aposta em fazer do pôquer profissão foi certeira. Em torneios presenciais pelos Estados Unidos, Europa, América Latina e Brasil, além de milhares de partidas online, ele já lucrou mais de dois milhões de reais. Ganhou, também, a torcida fanática da família e dos amigos.
Ariel joga a modalidade mais popular do pôquer, o Texas Hold'em, que passou a vigorar em mesas ao redor do mundo no começo da década de 2000, alavancada por transmissões de partidas pela tevê e pelo crescimento dos sites de jogos online. Em julho passado, o maior deles, o Poker Stars, que tem em seu "time" o ex-jogador de futebol Ronaldo Fenômeno e o tenista Rafael Nadal, foi vendido por cerca de R$ 10 bilhões para um grupo canadense.
Esporte da mente
Melhor ir se acostumando, porque, quando se fala em pôquer, as cifras costumam ser expressivas. O maior torneio do mundo, o World Series of Poker (WSOP), pagou ao vencedor de 2014, o sueco Martin Jacobson, a bagatela de R$ 25 milhões. No Brasil, as premiações ainda são mais modestas - coisa de um milhão para o primeiro colocado -, mas o número de participantes é crescente.
O BSOP já é o segundo maior do mundo. Reuniu, na etapa final do ano passado, 2.930 jogadores. Em 2006, quando o torneio foi criado, eram pouco mais de 60. Para quem quiser se aventurar, a próxima etapa de 2015 acontece entre os dias 26 e 30 de março, em Balneário Camboriú. Para participar dos eventos, é preciso pagar entre R$ 250 e R$ 6 mil - este, brincadeira para gente grande.
A Bahia também tem um torneio para chamar de seu, o Circuito Baiano Poker Chopp Tour, que carrega o nome do clube que o abriga. A primeira etapa deste ano começou no último dia 26 e termina hoje, no Poker Chopp, na Barra, com participação de jogadores conhecidos na cena, como Bruno Foster e Nicolau Villa-Lobos. Paulo Carvalho, 32, o organizador do evento, esperava reunir 300 pessoas e oferecer cerca de R$ 40 mil em prêmios.
Ex-dono de lava-jatos, Paulo apostou suas fichas no pôquer há cerca de seis meses, quando resolveu largar tudo para abrir o clube. "Como jogador, sentia falta de um lugar onde pudesse ir todos os dias, se quisesse. Por diversão, mesmo. Percebi que havia essa demanda. O cara sai do trabalho estressado e vem aqui relaxar".
Como a legião de estressados é crescente, Paulo inaugurou em fevereiro a nova sede do clube, com capacidade para 160 pessoas - o dobro da anterior, que ficava numa área tímida nos fundos de um bar. A reboque, criou também a Associação Soteropolitana de Esportes da Mente (Asem), que já conta com 460 sócios.
Estranhou o nome? Pois é isso mesmo que o pôquer é considerado hoje, um esporte da mente, como o xadrez, em que a habilidade conta mais do que a sorte. Não se encaixa, portanto, na legislação que proíbe a prática e a exploração de jogos de azar. O Ministério do Esporte reconhece a Confederação Brasileira de Texas Hold'em, que fica em São Paulo. Apesar disso, o país não tem uma regulamentação específica que oriente o pôquer. Neste limbo há um consenso de que os torneios são permitidos, mas ainda debate-se a legalidade das partidas com apostas avulsas, conhecidas como "cash game".
Sem fumaça de charuto
Desavisados até se frustram um pouco ao chegar ao Poker Chopp, o único legalizado da cidade, e encontrar um ambiente bem iluminado, com ar-condicionado, músicas da moda e quadrinhos motivacionais onde se leem coisas deste tipo: "A vida não consiste em ter boas cartas, mas em jogar bem com as que recebemos". Cadê a fumaça de charuto, cadê os caras mal-encarados, cadê as garrafas de uísque passando de mão em mão? Teve, mas acabou.
A maioria do público é formada por jovens (homens, em esmagadora maioria) que prestam mais devoção às mesas de feltro que as cervejinhas que circulam aqui e ali. De segunda a sexta, o clube abre às 18h e fecha às 3 da manhã. Aos sábados, os jogos começam mais cedo, às 14h. Armando Brandão, 36, que trabalha no mercado financeiro, vai ali pelo menos cinco vezes por semana. Em 2013, começou a ler livros sobre pôquer e a se dedicar com mais afinco, reparando que aquele podia ser um "hobby rentável", um "lazer lucrativo".
Para manter as contas mais ou menos em dia, estabeleceu que pode gastar com pôquer até R$ 2 mil por mês ou R$ 250 por dia. Ele jura que a mulher entende e não reclama, mas nota que ainda há preconceito quando cifras e naipes andam juntos, num imaginário de derrocada e vício. "A gente cresce ouvindo aquelas histórias de pessoas que perderam tudo no jogo, então é difícil mudar essa mentalidade". Para ele, um grande jogador se faz com uma mistura equilibrada de controle, paciência e experiência. "Você nem sempre está ganhando, e aí vem uma fraqueza. Ultrapassar isso é o que vai te levar a ser um campeão".
Para quem ainda não ligou o nome ao jogo, cabe uma explicação rápida, embora um pouco atrasada. No Texas Hold'em, cada participante recebe duas cartas, que devem ser combinadas com as cinco comunitárias da mesa. Por isso, se diz que é um jogo de informações incompletas. A cada rodada, os jogadores fazem suas apostas, confiando em suas cartas ou fingindo que confiam (é o tal do blefe, reconhece? Para não deixar seu corpo falar por ele, Ariel costuma jogar de jaqueta folgada e já teve a fase dos óculos escuros). Ao fim, vence a mão mais valiosa ou aquele que sobrevive quando todos os outros desistem.
Brilho fantástico
Nos torneios, os jogadores profissionais se beneficiam dos amadores. Quanto maior o número de inscritos, maiores são os prêmios, que remuneram 10% dos participantes. Desde 2008, a meta de trabalho do baiano Guilherme Chenaud, 29, é estar entre eles. É o seu lugar preferido no mundo. "A atmosfera de um grande torneio de pôquer é a mais fascinante que eu conheço. Perto dela, acho todos os outros ambientes imaturos e pouco interessantes. O profissional que paga R$ 5 mil ou R$ 6 mil para estar ali nunca é um qualquer. E o cara que está ali por lazer é muito bom em outra coisa. Não tem nenhum abestalhado".
Ariel gosta de falar que os jogos online são a "série B" do pôquer. Dão dinheiro, mas não prestígio. E quem é que não quer levar um troféu para botar na estante de casa, tornar-se conhecido? "Se tiver um torneio ao vivo de R$ 100 mil e outro online que pague R$ 180 mil, eu prefiro ganhar o de R$ 100 mil, claro", diz Guilherme.
Assim como Ariel, ele abandonou a faculdade de direito para se dedicar exclusivamente ao pôquer, e não se arrepende da escolha. Prefere não falar de quanto já ganhou com o jogo, mas diz que consegue se manter bem. "Se não conseguisse, não continuaria. O pôquer não é nem de longe uma coisa segura, é de alto risco, alta variância, e é aí que entra a competência em lidar com esse cenário".
Vez e outra, ele tira uns dias para jogar só por diversão. "Quando você transforma um hobby em profissão, perde um pouco daquela alegria... Passa a se policiar para agir de determinada forma que lhe traga resultados". Esse agir de determinada forma, aliás, muda de maneira vertiginosa. Num mesmo mês, algo que era bom de se fazer de repente não serve mais. "É desgastante, não tem zona de conforto. É matar um leão por dia".
As recompensas atiçam os sobreviventes. Para Guilherme, o "brilho misterioso e fantástico" que fomenta a indústria do pôquer vem de uma "má compreensão do elemento sorte". "No curto prazo, é algo que conta muito. No longo prazo, isso vai se diluindo. Não digo que a importância é zero, porque sorte conta em tudo na vida. Mas, se você não consegue ganhar depois de determinado tempo, é porque não está jogando bem".
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