COMPORTAMENTO
Tradições e rupturas no Natal
Muito ouviu diversas pessoas sobre suas perspectivas de Natal

À medida em que o Natal se aproxima, o consultório da psicóloga Liana Netto começa a ser procurado por pacientes angustiados com o fim do ano. Muitas dessas pessoas querem começar agora, perto do período de férias, processos terapêuticos motivados por um vazio relacional e afetivo.
"É um paradoxo. O amor, a família, o local de pertencia, o ano que termina e o consumo, a aquisição. Eu realmente não vejo esse tempo de uma forma romântica", afirma a psicóloga, que se declara crítica à religião.
Criada em uma família que não introduziu no contexto domiciliar a figura de Papai Noel, Liana enxerga o Natal como um momento mercadológico em que as pessoas sentem necessidade de comprar presentes para informar aos amigos e familiares o quanto você os considera a partir de um valor atribuído em forma de presente.
Sobre o sentimento religioso, a psicóloga ressalta que, apesar do discurso cristão de amor ao próximo e de oferecer a outra face quando se recebe um tapa, as guerras acontecem em nome da religião.
Sobre a guerra política, sempre que um paciente bate à sua porta trazendo inconformismo com a situação atual do país, Liana se sente moralmente obrigada a dizer que não concorda com o discurso do presidente Jair Bolsonaro e deixa o prosseguimento das sessões terapêuticas a cargo de quem está no divã.
A advertência ideológica que a psicóloga faz a quem a procura, profissionalmente, não se limita a uma afirmação política contra o fascismo. Entre os pacientes, há uma configuração bem típica: o homem normalmente é bolsonarista ou antipetista, e a mulher tende a ter um perfil mais de esquerda.
Profissionalmente
Liana ressalta que não tem problema algum com quem vota na direita e nem mesmo de interagir profissionalmente com quem é bolsonarista, mas considera importante trabalhar no consultório aspectos que considera problemáticos.
"De uma forma geral, as mulheres vão se dando conta de que essas frases que Bolsonaro entrega, legitima e autoriza são frases misóginas, machistas, que vão tendo repercussão na intimidade da relação", pontua.
Assim como outras falas do bolsonarismo, como declarações racistas e homofóbicas, repercutem na família como um todo: "Todo mundo tem dentro de sua família lugares desafiadores desses extremismos", afirma a psicóloga. Para ela, toda a ação terapêutica é também política.
"Se assim não for, eu posso estar sustentando uma violência estrutural sem ajudar a pessoa refletir sobre os elementos estressores que trazem os sintomas que constroem seu desconforto".
Sobre quem se mantém à frente dos quartéis à espera de Papai Noel, ou melhor, de uma intervenção militar, a psicóloga é suscinta: delírio coletivo.
Para ilustrar a noção de morte e de finitude que atribui às festas de fim de ano, a psicóloga cita o falecido escritor e antropólogo peruano Carlos Castañeda, que coincidentemente nasceu em um 25 de dezembro, em 1937.
"O guerreiro é aquele que faz da morte uma companheira e uma conselheira. Quando você tem a morte como conselheira e companheira você não tem tempo para as coisas que não são significativas", diz Liana.
Presépios
As melhores lembranças que o chef Murilo Brocchini tem do Natal são os presépios, montados inicialmente pela sua avó e, posteriormente, pela sua mãe, a artista visual Maria Adair, em Itiruçu, cidade de origem da família.
Os presépios eram feitos de casca de lajedo, uma forração que se cria em pedras, e musgo dos galhos de árvores, adornados com figurinhas de vacas e carneiros, feitas com celulose.
Reuniam-se na festa os pais e avós de Murilo, seus quatro irmãos e outros membros da família. Uma cultura que foi trazida para Salvador junto com a família.
"Teve até um ano que a gente se reuniu com os comerciantes e fez um festival de presépios", lembra Murilo. O festival aconteceu em 1994, um ano depois que a família inaugurou o Café Maria Adair, no Pelourinho.
Nos tempos de Itiruçu, a parte que cabia ao pai de Murilo era trazer o peru vivo, embriagá-lo e depois matá-lo na véspera do Natal para preparar a ceia. No ano em que a rotina foi alterada, gerou-se um incidente que causou graça à família.
No dia 24 de dezembro, bem cedo, o marido da tia de Murilo trouxe um peru já abatido dentro de um saco preto, o colocou no chão da cozinha e foi embora. "A moça que trabalhava lá em casa achou que o saco era lixo e jogou fora. Aí a gente foi lá e pegou de volta", diverte-se Murilo.
Os filhos de Maria Adair ainda se reúnem com ela no Natal, à exceção de dois que vivem no exterior. No cardápio tradicional da festa, sempre tem peru, chester e tender. Mas há alguns anos o chef Murilo dá a sua própria contribuição à ceia em família com um prato típico italiano, a polpetta, que no Brasil chamamos de almôndegas.
Sociedade
Para os filhos de santo, a festa natalina é uma data a mais que é levada em consideração porque é celebrada pela sociedade, mas sem que haja necessariamente uma preparação.
Os cultos afro-brasileiros que, muitas vezes, são acusados de crueldade com os animais, não sacrificam, por exemplo, um peru para a ceia natalina, como fazem os cristãos. Mas entram no clima da festividade mundial.
"A gente, que é do candomblé, quando está em obrigação, respeita todas as datas", afirma yalorixá Solange Borges, do projeto Culinária de Terreiro, em Camaçari. Quem está em obrigação permanece na roça e confraterniza, mas sem necessidade de mudar o cardápio cotidiano.
"Eu acho o Natal uma festa elitista, com peru, passas, frutas que a gente não tem normalmente em casa. A gente faz uma celebração básica", declara.
A festa mesmo acontece no dia 31 de dezembro quando, seguindo a tradição que herdou da mãe, Solange espalha milho branco pela casa pedindo prosperidade para o ano que começa.
Que a partir do dia 1º de janeiro, o velhinho que veste vermelho se encarregue de trazer bons presentes para todos os brasileiros, independentemente da religião.
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
Participe também do nosso canal no WhatsApp.
Compartilhe essa notícia com seus amigos
Siga nossas redes




