PERFIL
Ubunto lança terceiro álbum e faz turnê na Europa
O universo percussivo baiano encorpa e dá alma à assinatura de Ubunto


Arranhões, contusões, queimaduras e picadas de insetos, dependendo de sua sensibilidade, também podem deixar marcas na memória. No caso do DJ e produtor Ubunto, um fitoterápico indicado para esses machucados que costumava usar na infância em Salvador, acabou batizando o terceiro álbum do artista e também é a faixa de abertura de Água Maravilha (Gop Tun Records).
Com oito músicas, o disco foi lançado no último dia 19 de junho nas plataformas digitais. No dia 23, o artista baiano radicado em São Paulo desde 2014, já estava no Reino Unido, se apresentando com ingressos esgotados no famoso Jazz Café, em Londres, primeiro ponto da UK/Euro Tour, que também inclui Portugal e França.
Dois dias depois da estreia, ele tocou no espaço Shangri-La (Plataforma 23) do lendário Festival de Glastonbury, no Vale de Avalon, cuja primeira edição ocorreu em 1970 e hoje é considerado o maior festival de música e artes cênicas do mundo. Foi o primeiro DJ baiano a se apresentar no evento e o único brasileiro em 2023.
O som rolou no dia do aniversário do DJ e a plateia até cantou parabéns. A regra é real, lá ou aqui: quando você dá o melhor de si, o retorno vem com reciprocidade.
Desde que lançou o disco Piva, em 2016, Ubunto tem aprofundado a música que faz, não só com memórias curativas, como a do fitoterápico, mas com referências que explodem como alegria genuína na sonoridade. Foi também assim no álbum Abafabanca, de 2022, em que Ubunto evoca um picolé que já fez sucesso no verão de Salvador, além de outras vivências e símbolos da cidade.
“Não é uma coisa infantil, lúdica, é mais memória afetiva, símbolos que trago para a minha música. Água Maravilha é, literalmente, uma continuação de Abafabanca, totalmente focado nas pistas, tanto para as pessoas dançarem como para DJs tocarem”, diz o artista, que produziu um álbum com timbragem orgânica, com cordas, sopros e bateria, como se fosse uma banda tocando ao vivo.
Um pouco de tudo
Apesar de tocar vários instrumentos, o arranjador, produtor e compositor não se considera instrumentista. “Os instrumentos que eu teria mais afinidade são bateria e percussão, mas sou mais um pouco de tudo do que um muito bom”, diz ele. O fato é que o som de Ubunto é feito com sutilezas de músico exigente, que também explora coro vocal nas faixas, como em Jasmínico, com ecos de experiências da vanguarda paulistana e destaque para uma guitarra baiana atravessando as camadas sonoras que, às vezes, podem lembrar a lisérgica MPB dos anos 70.

“Mas se eu pensar numa referência grandiosa, para mim, é Moraes Moreira, principalmente na mixagem do disco. Ele utilizava BPMs altos, foi quem botou o ijexá amplificado em trio elétrico, então, em relação à proposta artística, acho que me inspiro mais em Moraes Moreira em produção musical”, reconhece.
O universo percussivo baiano encorpa e dá alma à assinatura de Ubunto. “Não consigo produzir sem pensar numa lógica de ijexá ou samba-reggae. Quando o Olodum fez 40 anos [2019] regravei Etiópia Mundo Negro com a Orquestra Reggae de Cachoeira e fiz show com o Olodum em São Paulo. Não tem como eu não estar associado a Salvador e Bahia, porque sempre vou partir de uma clave ritmica baiana, inclusive na linguagem de música eletrônica”.
Parcerias
Como produtor, Ubunto fez o primeiro álbum de Majur, produziu no ano passado Adriana Calcanhotto com Fran em Vumbora amar, foi residente e trabalhou como DJ no Expresso 2222 no Carnaval de 2023, além de produções musicais com Preta Gil, Arthur e Hiran , entre outros.
O resgate de memórias num trabalho tão contemporâneo como o de Ubunto não diz respeito apenas a símbolos da cidade. O álbum Água Maravilha conta também com Rodrigo Thuja, parceiro de Ubunto desde a adolescência, quando montaram uma banda. Depois de uma década que o amigo foi morar nos EUA, se encontraram no ano passado.
“Voltamos com a mesma energia de antes. Água Maravilha vem muito dessa junção com Thuja, a gente começou a compor a maioria das coisas juntos em São Paulo, então, o disco é basicamente eu, ele e Kauan Marco, instrumentista fantástico que gravou várias linhas de sintetizadores e teclado. A cabeça do disco somos nós três”, diz Ubunto.
Com feats em Dança das Caveiras e Balanço de Amma, Thuja também celebra o reencontro após 10 anos, e postou recentemente no Instagram: “Nesse tempo, só crescimento e maturação – criatividade aguçada pela maestria desse cara, adquirida com a experiência de respirar música todos os dias pelos últimos 10 anos. Sua dedicação à sua arte se tornou óbvia da melhor forma possível, e te ver e te ter não só como amigo – e um dos parceiros de produção favoritos – mas hoje também como uma grande referência, pra mim com certeza é motivo de orgulho”.
A comunicação é o corpo
Nessa última sexta-feira, Ubunto se apresentou na mais nova casa de shows em Lisboa, Lisa. No dia 8, é a vez de tocar no Vago, também por lá. Já no dia 14, feriado da Queda de Bastilha, ele leva seu som para Saint-Tropez (França) como atração principal no After Beach, e no dia 23 se apresenta no Le Mazzete, em Paris, às margens do Rio Sena.
“A música brasileira é a coisa que mais bomba na rádio, nos clubs e bares da Europa. Não importa se é orgânico ou eletrônico, a comunicação é o corpo da pessoa. A linguagem brasileira de música é totalmente do Sul Global, estamos muito mais alinhados a uma música africana e latina do que com música europeia, nosso suingue é totalmente diferente”, diz ele.
Considerando a velocidade com que o ano está passando e contando que o verão chegue logo, época em que Ubunto passa temporada em Salvador, é bom ficar de olho na agenda do artista. Para ver de perto, ouvir de perto, dançar esse som.