Busca interna do iBahia
HOME > MUITO
Ouvir Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no X Compartilhar no Email

MUITO

Um olhar sobre a icônica praia de Salvador que evoca tempos sadios de convivência e aglomeração

Gilson Jorge

Por Gilson Jorge

06/09/2020 - 14:28 h

Siga o A TARDE no Google

Google icon
Foto: Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE
Foto: Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE -

Em meados da década de 1980, comprei uma camisa numa loja do Porto da Barra. Era o meu primeiro salário como office-boy do extinto Banco Nacional e eu recém estreava como consumidor. O único shopping da cidade, então, era o longínquo Iguatemi, e quem quisesse tirar onda com a moda praia que vinha do Rio frequentava as lojas de rua da Barra.

A Lenon, na Barão de Sergy, tinha um balconista jovem (que, para o cliente adolescente, parecia um velho) cujo jeito de falar lembrava Cazuza. O cantor, propriamente dito, tinha feito poucos anos antes uma noitada das boas no antigo Berro d’Água, na mesma rua, coisa que eu só descobriria décadas depois. O Porto da Barra era uma festa para a qual eu, um menor abonado, ainda não havia sido convidado.

Tudo sobre Muito em primeira mão!
Entre no canal do WhatsApp.

Com o passar do tempo, boa parte da classe média do bairro abriu mão de frequentar o Porto. Seja pela popularização, seja pela sensação de insegurança. Mas essa talvez seja uma das características desse pequeno pedaço que um jornalista inglês do The Guardian colocou como uma das melhores praias urbanas do mundo: cabe todo mundo.

Agora a praia está deserta, por causa da pandemia. Mas algum dia voltaremos. Para jogar peteca, aplaudir o pôr do sol ou pedir que algum estranho olhe nossas coisas enquanto damos um mergulho.

Há um rapaz montado em uma das bicicletas enfileiradas no Porto da Barra. Sorri quando percebe que está sendo fotografado e faz com as mãos o sinal de hang loose, típico dos surfistas. Ele não vai a lugar algum ainda. Está matando tempo em uma segunda-feira monótona do Porto da Barra. É um paradeiro total.

Antes do isolamento, a partir de 13 de março, a segunda era o dia da semana em que comerciários que trabalham aos sábados e domingos aproveitavam a praia. E mesmo no domingo, véspera da entrevista, havia uma turma que não seguiu as recomendações das autoridades e estava fazendo festa no calçadão do Porto. Bem perto das bicicletas. Mas, neste dia, não há muito o que fazer além de espantar o tédio brincando com a bicicleta parada.

A poucos metros dali está o carrinho de água de coco, de onde ele tem tirado algum dinheiro há um mês. “Daqui a duas semanas volto para São Paulo”, diz Rodrigo Rodrigues, que trabalhou nos últimos três anos como garçom do Bar do Nick, ou o Bar das Putas, no Porto, e foi dispensado pela queda no movimento.

Como uma onda, que vai e vem, Rodrigo estima atracar novamente nesse Porto. “Minha família está precisando de mim. Mas sou assim, fico indo e voltando”, declara o rapaz.

Antigo reduto de garotas de programa, convertido em paraíso etílico universitário, o antigo trabalho de Rodrigo é um símbolo de um lugar que está sempre mudando as coisas ao redor. Menciono uma noite de outono de 2015 em que, às quatro da manhã, apareceu um cara, levantou a camisa e deixou aparecer uma peixeira, como forma de demonstração gratuita de poder. “Foi um sacizeiro”, diz o ex-garçom, tirando de tempo.

Foram muitas fases que já viveu essa praia. A Lavagem do Porto, que abria o Carnaval nos anos 1980, com um trio elétrico estacionado junto a um caminhão-pipa que jorrava água doce sobre os banhistas, os cafés e lan houses montados por estrangeiros que adotaram a terra, o Espicha Verão, que montava palcos flutuantes sobre o mar, a tortilleria galega, onde se escutavam discos de vinil, o Forró das sextas-feiras, em frente ao Instituto Mauá, os festivais de música e videoquês do Hot Dougies.

Às vezes, a mudança é de frequentador a empreendedor. Antes das quatro da tarde, os irmãos Leonardo e Joelma Freitas recolhem a única mesa do único estabelecimento aberto no trecho da rua Cezar Zama, que liga o Porto à pracinha na Práguer Fróes.

Eles frequentam o bairro desde a década de 1980. Praia, cerveja, à noite uma comida italiana. A sucessão familiar levou Leonardo a assumir há três anos um boteco na Rua Cezar Zama, ao lado do depósito de bebidas, também gerido pela família. O negócio ia até bem, mas com a pandemia os irmãos não sabem se vão aguentar manter as portas abertas. “Hoje vendemos dois pratos. Nem justifica abrir”, diz Joelma.

Leonardo, que ainda gosta de chegar mais cedo ao bar para dar um mergulho antes de começar o expediente, reclama da falta de segurança. “Esses dias, a cozinheira saiu para dar uma caminhada e viu um homem ser assaltado”, diz.

Seus vizinhos da esquerda, o casal Maria Alice e Reinhard Lackinger, não vão voltar com o Porto do Sol, que durante 18 anos serviu comida austríaca. Mesmo que o movimento volte a ser o que era, eles avaliam que, aos 73 anos, não vale a pena reabrir um restaurante intimista para atender a clientela com máscara.

Cosmopolita

Certa vez, uma amiga pediu dicas de lugares cosmopolitas em Salvador. Para levar uma visita do estrangeiro. Leva para o Macau, no Porto da Barra, ouviu de volta, em tom de brincadeira. De fato, o que pode ser mais soteropolitanamente globalizado do que um grupo de alemães rindo alto e bebendo cerveja de litrão em boteco pé-sujo de chineses?

Poucos lugares da cidade ganharam o status de ponto de encontro que o Porto recebeu ainda nos anos 1970, com o desbunde, como ficou conhecido o período em que o Brasil resolveu curtir a vida adoidado. Na década seguinte, a areia já estava dividida em territórios gravados na memória. O pessoal do baseado se concentrava nas pedras, embora o cheiro pudesse ser sentido até mais longe. Logo depois vinha a comunidade GLS, precursora da denominação LGBTQIA +; um pouco atrás a turma da peteca ocupava pela manhã o espaço que à tarde virava o local dobaba, até esse ser proibido pela prefeitura.

Mas o asfalto replica em certa medida a lógica dos territórios do Porto. Pequenas comunidades que têm seus códigos, sua trilha sonora, seu jeito de se divertir. Há um grupo de estrangeiros que se encontra por ali virtualmente todos os verões. Há os jovens da periferia que transformam as noites de sábado e domingo em bailes ao ar livre com aparelhos de som portáteis e concursos de dança.

No mesmo conjunto que abriga o restaurante Pereira, há um ano voltava o lendário Berro d’água, agora de frente para o mar, com o objetivo de reproduzir de alguma forma o burburinho intelectual que fez história na noite soteropolitana. Até o ator Robert De Niro, em uma passagem discreta por Salvador, foi levado para conhecer o bar que reunia os artistas mais descolados da época, sem bajulação. O dono, Charles Pereira, garante que sua equipe de funcionários era treinada para jamais pedir autógrafos e tratar a todos com a mesma deferência.

O bar começa a retomar as atividades, com shows de jazz e blues, e projeta para novembro uma programação de talk shows, stand up comedy, apresentação de drag queens e teatro de revista. “O futuro depende da segurança, a segurança nos dá garantia de fazer o Berro d’Água voltar a fazer do Porto da Barra um porto seguro”, afirma Pereira, que também mora no bairro e pede por mais segurança e mudança de comportamento.

Uma visão compartilhada por outros comerciantes, como Leonardo Freitas: “Antigamente, as pessoas tinham mais opções para se divertir no Porto. Agora, fica todo mundo aglomerado na rua”.

Morador da Barra há cinco anos, o servidor público Nei Santana acha um contrassenso a praia estar fechada e os bares e distribuidoras de cerveja abertos. “As pessoas se aglomeram, não respeitam a distância recomendada”, diz o servidor público, antes de partir para o seu passeio de bicicleta.

Na última terça-feira, a prefeitura anunciou a possibilidade de abertura de algumas praias apenas para práticas esportivas. Uma pesquisa encomendada pelo governo municipal aponta Salvador como destino nacional mais desejado para o período pós-pandemia. Segundo a CVC Brasil, a capital baiana está entre os destinos mais buscados para pacotes.

Comerciário que trabalha aos domingos, Demerson Pimentel não estava interessado em encontrar seus colegas de profissão. Por acreditar que a praia seria liberada no dia seguinte, levou a companheira Ivone para um passeio romântico à beira-mar. “Meu negócio é tranquilidade, não curto aglomeração”, diz o comerciário. A praia ainda não está liberada, ainda é preciso segurar a onda.

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.

Participe também do nosso canal no WhatsApp.

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Email Compartilhar no X Compartilhar no Facebook Compartilhar no Whatsapp

Siga nossas redes

Siga nossas redes

Publicações Relacionadas

A tarde play
Foto: Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE
Play

Filme sobre o artista visual e cineasta Chico Liberato estreia

Foto: Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE
Play

A vitrine dos festivais de música para artistas baianos

Foto: Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE
Play

Estreia do A TARDE Talks dinamiza produções do A TARDE Play

Foto: Adilton Venegeroles | Ag. A TARDE
Play

Rir ou não rir: como a pandemia afeta artistas que trabalham com o humor

x