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Cidades do interior assumem protagonismo econômico na Bahia
Participação da RMS no PIB baiano vem caindo desde 2009, segundo estudo publicado pela Federação das Indústrias

Diante de recursos naturais abundantes, cadeias produtivas emergentes, energias limpas, construção civil em expansão, infraestrutura crescente e uma lógica de desenvolvimento mais equilibrada territorialmente, as cidades-polo têm plenas condições de liderar o próximo ciclo de crescimento econômico baiano, promovendo inclusão regional, geração de emprego, inovação e agregação de valor às atividades produtivas locais. Mas esse futuro exige planejamento estratégico e conjunto entre poderes públicos, empresas e sociedade civil.
A análise é de representantes de entidades voltadas à agropecuária, ao comércio, aos serviços e à administração pública. Para a Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia/Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Faeb/Senar), as cidades-polo precisam continuar investindo em infraestrutura logística, conectividade, educação técnica e superior, inovação e sustentabilidade ambiental.
“A agenda da competitividade passa pela agricultura de precisão, pela transição energética, pela economia verde e pela agregação de valor à produção. A Bahia tem potencial para avançar ainda mais na agroindustrialização, na exportação de produtos com maior valor agregado e na consolidação de marcas regionais mais fortes”, avalia o presidente da entidade, Humberto Miranda.
Do ponto de vista institucional, o dirigente do Sistema Faeb/Senar afirma que é fundamental fortalecer parcerias entre setor produtivo, poder público e instituições de ensino e pesquisa.
“O desenvolvimento precisa ser sustentável, equilibrado e socialmente responsável. A Bahia tem vocação para o agro, tem produtividade, diversidade e capacidade empreendedora. O que estamos presenciando é a consolidação de um novo mapa econômico do Estado: mais descentralizado, mais dinâmico e com o interior assumindo protagonismo”, afirma.

Demandas
O presidente da União dos Municípios da Bahia (UPB), Wilson Cardoso, aponta que há desafios sociais relacionados ao planejamento e reordenamento urbano.
“Precisa se organizar administrativamente para modernizar o PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano) e o código tributário, porque se torna um centro comercial forte, além de se estruturar para a crescente demanda da rede de saúde e educação, já que acabam absorvendo demandas dos municípios vizinhos”.
O futuro desses municípios, acrescenta o dirigente da UPB, passa pelo planejamento, pelo pensar a longo prazo e pelo planejamento para as décadas seguintes com base em estimativas populacionais, nos recursos naturais e na estrutura logística para a prática industrial, com respostas às demandas por serviços de energia elétrica, água e lazer.
“Entretanto, unir os municípios vizinhos às cidades-polo para fortalecer a educação cumpre um papel fundamental. Com a implantação de escolas técnicas e universidades é possível qualificar a mão de obra local para atrair investimento, indústrias e empresas, gerando emprego e renda. Assim poderemos alcançar o desenvolvimento regional sustentável”, opina.
O presidente do Sistema Comércio Bahia (Fecomércio), Kelsor Fernandes, considera essencial que as empresas e o setor público invistam nas melhorias locais.
“Afinal, a falta de saneamento e de asfaltos, certamente, trariam prejuízos”, pondera, lembrando que o desenvolvimento socioeconômico eleva o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
“As nossas cidades não são megalópoles, como a capital paulista, que hoje está saturada. Lá, quando se cria uma nova estação de metrô, ela já nasce lotada porque há uma demanda reprimida enorme. Nessas cidades baianas, de pequeno e médio porte, ainda existe um certo controle no planejamento para o futuro”, avalia.

Kelsor Fernandes ressalta que os municípios e as empresas precisam absorver essas pessoas e oferecer atendimento e acolhimento, justamente para evitar prejuízos sociais e garantir a continuidade do crescimento populacional.
“Para se desenvolver e não depender economicamente de uma única empresa, a cidade precisa ampliar o setor de comércio e de serviços. Sabemos que isso acontece em muitas regiões, mas é importante reduzir essa dependência. Por isso, o planejamento precisa ser feito de forma conjunta, entre poder público, empresas e sociedade, para gerar um efeito positivo e sustentável a longo prazo”, considera.

Desconcentração
No estudo intitulado “Desconcentração produtiva e interiorização: um novo ciclo para a Bahia”, publicado em junho de 2025, a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) aborda as significativas mudanças que vêm ocorrendo na organização econômica do Estado, com destaque para o papel estratégico de geração de emprego, renda e inovação que a indústria tem desempenhado nesse processo.
“Sua presença fortalece cadeias produtivas, estimula investimentos em infraestrutura e contribui para a redução das desigualdades regionais”, aponta a pesquisa.
De acordo com a Fieb, o interior da Bahia vem apresentando uma dinâmica econômica superior em vários indicadores, revelando uma transformação superior na geografia do desenvolvimento estadual em relação à Região Metropolitana de Salvador.
Mostra a história que foi na RMS, especificamente no Centro Industrial de Aratu, que se iniciou, nas décadas de 1950 e 1960, a instalação de uma indústria de base, com destaque para o setor metalomecânico.
A região manteve relativa estabilidade em sua participação no Produto Interno Bruto (PIB) da Bahia até 2009. A partir desse ano, observou-se uma queda de 8,9 pontos percentuais de participação no PIB estadual, atingindo 39,4% no ano de 2021.
Com a nova dinâmica do interior baiano, outras áreas ampliaram a participação no PIB, com destaque para os territórios de identidade da Bacia do Rio Grande (região das cidades de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães) e Portal do Sertão região de Feira de Santana).
“Embora a RMS ainda mantenha vantagens relevantes para grandes empreendimentos, como logística integrada e serviços especializados, observa-se uma tendência clara de interiorização da indústria baiana, sustentada por vocações regionais e oportunidades estruturais. Regiões do interior baiano vêm se destacando ao explorar vantagens como disponibilidade de recursos naturais, terras produtivas, matéria-prima abundante e cadeias produtivas locais”, analisa a Fieb.
O especialista em Desenvolvimento Industrial do Observatório da Fieb, Danilo Peres, credencia o fenômeno do crescimento das cidades-polo baianas a três fatores.
O primeiro está relacionado com a alteração da distribuição orçamentária, a partir da Constituição de 1998, quando os municípios passaram a receber mais recursos provenientes do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

O segundo, afirma o especialista, é consequência do primeiro, ou seja, as cidades passaram a obter mais serviços, indústrias e políticas públicas. O terceiro fator, prossegue, foi o avanço do empreendedorismo.
“Com o ambiente de negócios favorável nessas cidades, empresários locais e de multinacionais passaram a perceber as oportunidades de investir em diversos segmentos, como os de alimentos, embalagens, bebidas, vestuários”, pontua
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