OPINIÃO
A brevidade da vida
Editorial de A TARDE deste domingo


Conduzir veículos automotores transcende a simples escolha da mobilidade, ao deslocar-se o sujeito por determinados sentido e direção. Simultâneo ao ato de dirigir, vai embutida uma decisão necessariamente pessoal e intransferível de querer chegar vivo ou não.
Estas e outras consistentes reflexões de si para si estão entre os possíveis efeitos do “Maio Amarelo”, movimento de conscientização para a redução de acidentes de trânsito. Uma das possibilidades ao alcance de cada consciência ao volante está relacionada ao uso do celular, já a principal causa de acidentes nas BRs baianas.
Eis a questão: sabendo-se o risco de um ou dois segundos de desatenção, devo olhar ou enviar mensagens enquanto minha vida e a de outros dependem de mim? A resposta indica se a pessoa está ou não sofrendo de acrasia, quando apesar de saber do erro moral, o sujeito não resiste e comete a ação proibida.
O certo é resistir à tentação: um prazer provisório não pode produzir dor maior e tantas vezes sem remédio, causando a tecnologia quatro de cada dez acidentes. A inteligência policial investe nos conceitos de empatia – colocar-se no lugar do outro – e de alteridade – buscar a própria identidade no anteparo de quem vem lá.
Estas duas qualidades humanas, possíveis de serem desenvolvidas, mediante incentivo à educação, estão no lema “No trânsito, enxergar o outro é salvar vidas”. O esforço de homens e mulheres da lei visa deter a escalada de óbitos, batendo à casa dos 200 este ano, refletindo 30 mil autuações por ultrapassagem proibida.
Outro fator de morbidez advém do excesso de velocidade, esta irrefreável mania. Neste item, assim como no celular, a liberdade humana de escolher viver se deixa derrotar pela sedução de fator externo à consciência, representada nos possantes motores.
A “brevidade da vida” não precisa tornar-se “abreviação da vida” – é grande a diferença entre uma e outra. O único bem de um existente é o tempo: não precisamos antecipar nossa cota.