Busca interna do iBahia
HOME > OPINIÃO
Ouvir Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no X Compartilhar no Email

OPINIÃO

Einstein Inventor

Marcio Luis Ferreira Nascimento*

Por Marcio Luis Ferreira Nascimento*

21/11/2019 - 11:57 h

Siga o A TARDE no Google

Google icon
Capacidade de lidar com a tecnologia tornou Einstein um prolífico inventor | Foto: Divulgação | AFP
Capacidade de lidar com a tecnologia tornou Einstein um prolífico inventor | Foto: Divulgação | AFP -

Um dos maiores cientistas da humanidade nasceu num dia 14 de março. Sua vida, marcada por feitos espetaculares, fez do seu nome sinônimo de gênio em diversas línguas. Criou-se então a imagem algo heróica do pesquisador recluso, solitário, que apenas com lápis e papel descobria as grandes leis do universo.

Esta pessoa absolutamente ímpar chegou a ser laureada com o Prêmio Nobel de Física de 1921 “por suas contribuições à física teórica, especialmente pela descoberta da lei do efeito fotoelétrico”. Apenas este artigo seminal (entre outros igualmente notáveis), vinculado à explicação de um efeito quântico, pode ser considerado equiparável a outro grande trabalho, sobre a teoria da relatividade, um dos pilares da física moderna, sendo portanto considerado como um dos maiores feitos científicos do século XX.

Tudo sobre Opinião em primeira mão!
Entre no canal do WhatsApp.

Poucos sabem que o físico alemão Albert Einstein (1879 - 1955) não foi apenas um cientista dito teórico. Pelo contrário, tinha uma veia prática, pois foi projetista, técnico e avaliador de patentes, tempos depois promovido a perito da repartição de patentes suíças em Berna (hoje Instituto Federal Suíço de Propriedade Intelectual: www.ige.ch). De fato, por não conseguir o emprego que desejava de docente universitário após se formar, teve que viver, entre anos de 1902 e 1909, analisando e corrigindo patentes de diversos inventos, pois estava casado e com filho pequeno para criar. Tempos depois, já famoso, passou a ser também consultor de empresas.

Toda invenção nada mais é do que a concepção resultante do exercício da capacidade de criação do ser humano, manipulando ou interferindo na natureza, visando a solução de um problema específico, dentro de determinado campo das necessidades humanas. Não restam dúvidas da capacidade criativa de Einstein para a ciência. Mas curiosamente, para a maioria das pessoas, há um enorme desconhecimento das capacidades inventivas deste gênio universal na elaboração de patentes.

De fato, esta capacidade de lidar com a tecnologia tornou Einstein um prolífico inventor, elaborando e produzindo interessantes equipamentos. De fato, ele depositou 21 patentes (apenas duas não foram concedidas) sobre diversas invenções, entre elas: refrigeradores, bombas eletromagnéticas, aparelhos de reprodução de som e câmeras autoajustáveis para intensidade de luz. Estas foram concebidas no período entre 1928 e 1936, já docente, em países como França (2), Grã-Bretanha (5), Hungria (1), Áustria (1), Alemanha (9), Suíça (1) e Estados Unidos (2). Detalhes destas patentes podem ser obtidos no interessante artigo de Matthew Trainer: As Patentes de Albert Einstein (“Albert Einstein’s Patents”), World Pat. Info. 28 (2006) 159-165 e no livro de József Illy (n. 1933): Einstein na Prática: Experiências, Patentes e Invenções (“The Practical Einstein: Experiments, Patents, Inventions”), Johns Hopkins University Press (2013), 216 pgs.

Aparentemente, Einstein teve os primeiros contatos com patentes a partir de um querido tio seu, Jakob Einstein (1850 - 1912), que havia depositado 7 patentes entre 1886 e 1893, referentes as inovações elétricas envolvendo novos circuitos e lâmpadas. Seu pai, Hermann Einstein (1847 - 1902), irmão e sócio de Jakob, foi durante muito tempo empreendedor, ao fundar a empresa Elektrotechnische Fabrik Jakob Einstein & Cie, fabricando dínamos e outros itens elétricos, além de equipamentos para instalações elétricas e de gás. Em seu auge, chegou a ter quase duzentos funcionários. Em 1893 a empresa participou de uma concorrência para eletrificação no centro de Munique, Alemanha, e perdeu. Sem contrato, tal empresa faliu no ano seguinte e os sócios buscaram outras paragens em Pávia, na Itália em 1894, por meio da amizade de ambos com o engenheiro civil italiano Lorenzo Garrone (c. 1857 - ?), fundando a Officine Elettrotecniche Nazionali in Pavia Ing. Einstein Garrone & C., com filial em Turim e escritório em Milão. Tal empresa chegou a ter oitenta funcionários. Garrone formou-se na Reale Scuola per Applicazione degli Ingegneri di Torino em 1881, e por volta de 1900 foi diretor da Associazione Elettrotecnica Italiana, no escritório de Turim.

Boa parte das patentes de Einstein são de fato muito curiosas, destacando-se os aparelhos de refrigeração (similares a geladeiras e frezeers), uma delas sem partes móveis e bastante silenciosa, que podem ser consideradas grandes inovações para a época (US 1,781,541). Embora tenha proposto um gás refrigerante inovador nestas patentes, este item foi descartado pela indústria em favor do freon, muito utilizado entre as décadas de 1930 e 1980, e hoje substituído por outros produtos.

Einstein não escreveu as patentes concedidas sozinho. Entre seus principais colaboradores destacou-se o físico nuclear húngaro Leó Szilárd (1898 - 1964), com quem escreveu 19 das 21 patentes. Os dois outros colaboradores foram os alemães Gustav Peter Bucky (1880 - 1963, médico) e Rudolf Goldschmidt (1876 - 1950, engenheiro elétrico). Ambos também eram prolíficos inventores, sendo que Bucky teve concedidas 45 patentes em sete países (Áustria, Canadá, Suíça, Alemanha, França, Grã-Bretanha e EUA), enquanto Goldschmidt teve 121 patentes concedidas em 10 países (Áustria, Suíça, Canadá, Alemanha, Dinamarca, França, Grã-Bretanha, Hungria, Finlândia e EUA). A inovação de Bucky consistia numa aplicação do efeito fotoelétrico, uma moderna câmera fotográfica, que havia sido o tema do trabalho que concedeu a Einstein o Nobel. Quando se apontava a câmera, o detector fotoelétrico fixava o objeto e movia automaticamente uma tela, de transparência variável, em frente à lente. O invento com Goldschmidt surgiu a partir de um pedido de Einstein, que estava interessado em auxiliar uma amiga e grande cantora que havia perdido boa parte da audição.

Em particular, Szilárd escreveu outras 50 patentes, sozinho ou com outros colaboradores que não Einstein. Dentre elas, destaca-se a do primeiro reator nuclear com fissão (US 2,708,656) em 1955, esta em colaboração com o físico italiano Enrico Fermi (1901 - 1954). Sua proposta de reator surgiu após conceber a reação nuclear em cadeia ainda em 1933, após fugir da Alemanha com a ascensão do chanceler Adolf Hitler (1889 – c. 1945), patenteando o primeiro reator nuclear (este sem fissão, conforme patente inglesa GB 630,726) em 1934. Nesta mesma época descobriu uma rota de obtenção de isótopos nucleares para tratamentos médicos (principalmente cânceres), a partir do efeito conhecido hoje como Szilárd-Chalmers. Szilárd foi também importante ao redigir, em meados de 1939, a famosa carta que seu amigo Einstein assinou, resultando na efetivação do Projeto Manhattan por volta de 1942, que construiu a primeira bomba atômica tempos depois. A intenção de Szilárd e Einstein consistia numa tentativa de interromper o ímpeto nazista, que também tentava descobrir os segredos nucleares da matéria. Vale lembrar que Hitler já dominava o transporte de bombas tradicionais por meio de foguetes em 1942, e um dos receios dos cientistas era que os nazistas utilizassem bombas nucleares nas ogivas dos temíveis mísseis balísticos V2 (do alemão Vergeltungswaffe: Arma de Vingança). Aparentemente, o presidente americano Franklin Delano Roosevelt (1882 - 1945) somente decidiu avançar no projeto quase dois anos após a carta de Einstein, mostrando que tal esforço do genial cientista não foi realmente significativo, embora seja até hoje controverso.

Einstein publicou 319 trabalhos na forma de artigos científicos em jornais e revistas especializados, com importantes contribuições em vários ramos do conhecimento, todos estes verificados pelo filósofo e educador alemão Paul Arthur Schilpp (1897 - 1993). De fato, suas patentes não tiveram tanto impacto quanto seus artigos, mas patentes de terceiros que se utilizaram de suas descobertas cientificas vem sendo concedidas até os dias atuais. Como exemplo, ao se buscar com as palavras “efeito fotoelétrico” na base de dados do European Patent Office (www.EPO.org), foram obtidos surpreendentes 1173 patentes com estes termos em cada título ou ainda nos resumos. Erroneamente, ele foi sempre descrito como teórico, embora suas patentes revelem um lado experimental, bastante prático. Nesta época de culto às celebridades, pode-se portanto afirmar, sem medo de errar, que o nome do avaliador de patentes mais famoso do mundo é um só: Albert Einstein.

* Professor da Escola Politécnica, Departamento de Engenharia Química e do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.

Participe também do nosso canal no WhatsApp.

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Email Compartilhar no X Compartilhar no Facebook Compartilhar no Whatsapp

Siga nossas redes

Siga nossas redes

Publicações Relacionadas

A tarde play
Capacidade de lidar com a tecnologia tornou Einstein um prolífico inventor | Foto: Divulgação | AFP
Play

Simplificando a ortografia e o ensino

x