OPINIÃO
Feras contemporâneas
Confira o Editorial desta quinta-feira

A tentativa de homicídio contra um cabeleireiro porque a cliente reprovou o resultado de seu trabalho não é evento pontual, e sim uma preocupante tendência. A banalização do mal, alerta emitido por Hannah Arendt, ao analisar o comportamento de alta patente nazista, voltou a predominar nas sociedades contemporâneas.
Hoje, com o avanço das tecnologias, esta banalização ganha impulso com a vulgarização das câmeras e a distribuição sem critério de vídeos em redes sociais. Em busca de joinhas, a mecânica de compartilhamento elimina a consciência moral, sabendo-se o quanto os baixos instintos mobilizam a audiência afetada de idiotia.
O sujeito contemporâneo, dito pós-moderno, vai esquecendo, dia após dia, crime após crime, as conquistas do iluminismo, em preocupante retorno a uma idade média piorada. O contexto revela, por contraste, a importância de outro grande autor, Wilhelm Reich, tendo deixado por herança um estudo de psicologia de massas aplicável aos dias atuais.
A falta de apetite para acessar esse e outros conteúdos selecionados, submersos em oceano digital de parvoíces, contribui na geração de violência absurda. A medievalização do cotidiano – desprezo pela verdade; culto aos baixos instintos; ausência de filosofia moral – explica os psicodiagnósticos.
A fobia emerge como método doentio de enfrentar divergências, frustrações, contrariedades e a tendência binária de escolher isto ou aquilo. Brigas de trânsito terminam em morte; discussões familiares, em agressões brutais; desacordos simples, danos irreversíveis: a violência deixou de ser exceção.
Toda esta incapacidade de lidar com frustrações, associada à intolerância, cria indivíduos afetivamente frágeis. Se a razão é subproduto destes afetos, perdemos a imunidade diante de desavenças fortuitas e já não defendemos a divergência: estamos diante do abismo. Já não nos educamos para enfrentar a nós mesmos; se cada consciência desenvolve projeto de vida distinto, não precisamos agir como feras à primeira colisão de interesses.
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