OPINIÃO
Nus no estádio: crise civilizatória
Confira artigo escrito pelo jornalista Emiliano José


Não há mistério na crise civilizatória. Gramsci descobriu o segredo. Ela se instala quando o velho resiste a morrer, quando o novo ainda não reúne forças para se apresentar. Dá-se então um claro-escuro, um estranho intervalo. É quando surgem os monstros. Os piores instintos do ser humano vêm à tona. Tais instintos estavam no subsolo da alma, mantidos num casulo pela civilização. O mal-estar daquele claro-escuro liberta-os. Não há mais contenções, rompeu o dique. Podem ganhar as ruas, perdem o receio de mostrar-se, evidenciar aberrações. Isso explica os estudantes de Medicina apresentando-se nus num estádio durante jogo de vôlei feminino.
Resisto a qualquer simplificação, a qualificar o episódio como simples molecagem. É sintoma grave de uma crise civilizatória. Não é brasileira apenas, mas nós temos de cuidar de nosso quintal. Nos últimos anos, especialmente após um governo tão dado a libertar monstros, fortaleceu-se a cultura do ódio, a misoginia, o desrespeito profundo à mulher, para ficar apenas em território a nos interessar aqui. Os rapazes agredindo as mulheres com a nudez deles são o reflexo tanto da sociedade, da família, do Estado quanto de uma crise profunda do ensino médico privado, a formar homens misóginos, incapazes de conviver amorosamente com as mulheres. E vem de longe o problema, a explicar a razão de tantos médicos serem surpreendidos em crimes de estupro, de abuso contra pacientes femininas.
Perdeu-se, nesse ensino, a noção do dever médico, o de defender e proteger a vida, respeitá-la acima de tudo, encarar o corpo humano como sagrado, no sentido antropológico, não religioso. O dever de proteger as mulheres – se procuram médicos, necessitam deles, estão fragilizadas, buscam amparo, não violência, desrespeito. A revelação daquele grotesco episódio mostrou tratar-se de problema muito mais amplo. Uma cultura machista, violenta, disseminada em várias escolas, com as jovens estudantes de Medicina sendo submetidas à obscenidade misógina, a trotes obscenos, obrigadas a isso para continuarem estudando. Olhar-se no espelho: o Estado, a sociedade, a família precisam-se fazer isso. Que formação estamos dando à nossa juventude?
Não bastam as punições, necessárias. É preciso ir além, de modo a enfrentar o mal-estar na civilização de que Freud falou, instalado entre nós. Acentuo, ainda para permanecer no território da saúde, a existência de médicas e médicos conscientes da missão delas, deles, seres humanos amorosos. São excelentes exemplos, e deveriam inspirar as novas gerações. Ajudá-las, mirando-se neles, a se livrarem dos execráveis impulsos misóginos e se assumirem como médicos. É um pensamento desejoso meu. Sei, isso sei: desse episódio é preciso extrair lições muito mais amplas, de modo a mudar muito de nossa cultura dominante, em sentido bem mais amplo.