Salvador: um jeito único de estar no mundo

Publicado terça-feira, 29 de março de 2022 às 05:02 h | Atualizado em 28/03/2022, 23:16 | Autor: Antonio Adonias A. Bastos
É contagiante ver os seus faróis e o Porto se desenhando na janela do avião, na proa da lancha que vem da Ilha até o Comércio, ou do ferry que atraca em São Joaquim
É contagiante ver os seus faróis e o Porto se desenhando na janela do avião, na proa da lancha que vem da Ilha até o Comércio, ou do ferry que atraca em São Joaquim -

Viajo muito. O ofício pede. A retina registra a pluralidade do interior da Bahia, de outros estados, países e continentes. Mas, para onde quer que eu vá, minhas viagens têm um momento único, que é comum a todas elas – sejam a trabalho ou a lazer; sozinho, com amigos ou com a família: voltar para casa me inunda o coração e afaga a alma.

Salvador é meu ponto de partida e de chegada. É contagiante ver os seus faróis e o Porto se desenhando na janela do avião, na proa da lancha que vem da Ilha até o Comércio, ou do ferry que atraca em São Joaquim. Tudo cheira a mais: mais verão, férias, brisa do mar... hmmmmm, brisa do mar..., descanso, mais querer bem. E também mais a fazer, trabalhar, melhorar. Aqui, canso do que me chateia; descanso com o que me cativa.

Soteropolitanos são os nascidos aqui, tanto os que a habitam como os que se mudaram para outros lugares, levando suas muitas cores e sabores pelo mundo afora. Os que se mudaram para cá, que a adotaram e, ao mesmo tempo, foram acolhidos como seus filhos. Os que a amam mesmo tendo nascido e mesmo morando em outros lugares. Somos todos nós, que a animamos e a movimentamos.

E no meu caso, não importa quão longe eu vá. Sou soteropolitano e isso faz parte do meu estar no mundo, do modo de vê-lo e de senti-lo. É minha lente para a claridade e a escuridão, para o azul do céu e o cinza da chuva; o meu ouvido para os sotaques, a música e o ruído; a minha pele para o calor sem camisa e para o nosso "frio" de 20° C, de casaco no corpo; o meu paladar marcado pelo dendê, para o doce e para o amargo; a minha sensação para os sabores e os dissabores. Trago e levo a Cidade comigo. Sigo os seus sinais, traduzindo a beleza e o horror dos meus e dos muitos outros lugares.

Como diz a música de Gil, é nosso primeiro pelourinho. Mas, também o sincretismo da procissão do Bonfim – religioso, político, cultural, da paz e da luta, do Afoxé Filhos de Gandhy e do advogado abolicionista Luiz Gama. São nossos os prédios que brotam do chão prometendo o futuro, a boemia do Rio Vermelho, a tradição do centro histórico e os “dois” de fevereiro e de julho.

Sempre que caio em mim, penso que o jeito de ser de Salvador, com suas idas e vindas, deveria inspirar o Brasil, mostrando que é possível acolher e ser acolhido. Não sermos nós ou eles, mas uns com os outros, na unidade e na diversidade.

E esse aniversário da Cidade tem um gostinho especial: o da esperança. Estamos sob a luz de um horizonte que nos faz crer que os dias melhores estão logo à frente. Que a data dos nossos 473 anos marque o caminho para a reabertura definitiva do (sor)riso solto, sem risco, sem máscara depois desses dois anos de pandemia.

São Salvador da Bahia de Todos os Santos, 29/03/2022.

*Antonio Adonias A. Bastos é soteropolitano, advogado, professor da Faculdade de Direito da Ufba, presidente do Centro de Estudos das Sociedades de Advogados (CESA) da Bahia

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