ELEIÇÕES
Religião em eleições vai além de falar de Deus, diz antropóloga
Entrevistada no Isso É Bahia, a coordenadora de pesquisa Lívia Reis dá pistas do que vai ser discutido em 2022

A abordagem de temas religiosos por candidatos nas eleições municipais de 2020 em oito capitais brasileiras foi um dos temas estudados pelo Instituto de Estudos da Religião, na pesquisa “Religião e Voto: uma fotografia das candidaturas com identidade religiosa nas Eleições 2020”. Coordenadora do instituto, a antropóloga Lívia Reis foi entrevistada pelo programa Isso É Bahia, da rádio A TARDE FM (103.9), na manhã desta quarta-feira, 11. “É importante ter em mente que a religião está espalhada na vida cotidiana das pessoas e pode ser mobilizada de muitas formas. Na pesquisa damos uma palinha de como isso será feito, e continuará sendo feito”, contextualizou a antropóloga. A produção de dados foi obtida através de monitoramento e análise das redes sociais dos candidatos.
Salvador, Recife, Belém, Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Goiânia foram as capitais que fizeram parte da pesquisa, realizada entre setembro de 2020 e dezembro de 2021. “Mobilizar a religião não significa falar de Deus o tempo todo, mas também de acionar pautas que são acionadas dentro das igrejas. A violência contra a mulher é muito importante, pois tem sido acionada dentro das igrejas”, pontuou a entrevistada do Isso é Bahia desta quarta-feira. Foram mapeados, nas cidades pesquisadas, um total de 1.043 candidatos com identidade religiosa, o que representou 10,71% do total de candidaturas. Por outro lado, cerca de 51,35% das cadeiras das Câmaras Municipais foram ocupadas por candidatos com este perfil. “Estratégias eleitorais aplicadas por algumas igrejas são muito eficientes. Candidaturas evangélicas fizeram isso de forma muito variada, a exemplo de Isnard Araújo, que orava durante a campanha, e Ireuda Silva, que mobiliza a religião de forma mais sutil, com pautas como violência contra a mulher e racismo”.
“Salvador se destacou, pois foram quase 70% [de candidaturas eleitas que mobilizaram identidade religiosa]”, afirmou Lívia Reis. O mapeamento da pesquisa mostra que há um percentual mais alto em partidos identificados com a direita e com o centro entre as candidaturas eleitas que mobilizam identidade religiosa. “Não quer dizer que partidos de esquerda e pessoas de esquerda não mobilizem identidade religiosa. O caso do mandato coletivo Pretas, por exemplo, o campo é muito simbólico, porque a religião foi mobilizada a partir do problema da intolerância religiosa praticada contra as religiões de matriz africanas, pela valorização da cultura negra. Então, a religião é mobilizada também por candidaturas de esquerda, mas de outras formas também. Não valorizando necessariamente a pauta moral exclusivamente, mas casos importantes como o de intolerância religiosa”, destacou.
Atenta às pistas para as eleições de 2022, a pesquisa identifica a diversidade do discurso religioso, que deve ser explorado por diversos candidatos. “A pauta moral vai muito além de [do que é classificado como] ideologia de gênero e aborto. Também se fala de empreendedorismo, que também é discutido dentro das igrejas, essa coisa de as pessoas vencerem por si mesmas, de alcançarem seus próprios caminhos para a prosperidade. Isso é uma pauta discutida nas igrejas e que facilmente vira pauta de campanha”.
Alguns dos discursos, no entanto, contradizem o que algumas pesquisas apontam sobre intolerância religiosa. “A pauta da cristofobia, que é essa acusação de que há perseguição contra religiões evangélicas, cristãs de uma forma geral, foi muito mobilizada por católicos e evangélicos. Isso sugere que há uma perseguição contra evangélicos no Brasil, quando a gente sabe que há dados oficiais que indicam que as religiões perseguidas hoje são as afro-religiosas”. A pesquisa pode ser lida na íntegra, tanto a parte 1 quanto a parte 2.
Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia.
Participe também do nosso canal no WhatsApp.
Compartilhe essa notícia com seus amigos
Siga nossas redes




