"O esporte fica com a fatia muito pequena do investimento"

Deputado estadual defende protagonismo do esporte na Alba

Publicado quinta-feira, 17 de março de 2022 às 06:04 h | Atualizado em 16/03/2022, 23:36 | Autor: Jefferson Beltrão
Bobô, deputado estadual (PCdoB)
Bobô, deputado estadual (PCdoB) -

O esporte vai voltar a ter espaço de destaque na Assembleia Legislativa da Bahia, segundo o deputado estadual Raimundo Nonato Tavares da Silva, o Bobô (PCdoB). “Vamos constituir novamente a Comissão de Desporto, Paradesporto e Lazer”, afirma. Em seu segundo mandato e um dos maiores ídolos do Bahia, Bobô também se revela apaixonado pela agricultura familiar. “Me fez entender que minha missão vai além da esportiva”. Nesta entrevista, também transmitida pela TV Alba (canal aberto 12.2 e 16 na Net), ele também fala de sucessão estadual e reconhece: “É um risco ter fragmentada a base governista”. 

Em seu primeiro mandato, em 2015, o senhor propôs a criação e presidiu a Comissão Especial de Desporto, Paradesporto e Lazer da Assembleia Legislativa, que tinha como um dos principais objetivos debater e promover o esporte comunitário, olímpico e paralímpico na Bahia. Quais foram os ganhos nesse sentido de lá pra cá? 

Primeiro, o bacana foi ter sido criada essa comissão. Trouxemos o debate do esporte pra dentro da Assembleia Legislativa. Tive o prazer de ser presidente por três vezes e foi uma das comissões mais atuantes. Isso trouxe pra galera que gosta de esporte, presidentes de federações e associações esportivas uma autoestima muito grande. Deu uma visibilidade extraordinária a essas entidades. E de lá pra cá evoluiu-se muito, sobretudo no paradesporto. Houve ganhos significativos com atletas olímpicos medalhados como fruto do processo construído pelo governo com muito esforço. Temos o Bolsa Atleta, bolsa federal, mas também a bolsa estadual pra prover os atletas com recursos do Estado, acima de um salário mínimo, pra poder pelo menos bancar um transporte, uma alimentação, uma viagem.

Muitos atletas acabam deixando o estado por falta de apoio, não?

Hoje tem dois programas interessantes na Bahia pra remunerar relativamente bem os atletas: o FazAtleta, de renúncia fiscal, que renuncia 80% do projeto, e o Bolsa Esporte, para atletas olímpicos e até em iniciação. Entendo que um milhão e meio [de reais] ainda é pouco pra garantir uma condição melhor pra os atletas, mas já é uma conquista significativa. E ela não nasceu de agora. Veio de 2009 pra cá. Estou discutindo novamente com o presidente da Assembleia, porque quero voltar [com a comissão]. Desde que assumi a terceira vice-presidência da Casa, não pude mais assumir a condição de presidir uma comissão e me faz uma falta enorme. Vamos constituir novamente a Comissão de Desporto, Paradesporto e Lazer pra que as pessoas do esporte tenham voz e vez pra debater os temas que consideram importantes.

O senhor é autor de uma indicação feita ao governador Rui Costa para a criação do Programa Escola em Ação, com a abertura de escolas públicas estaduais para a comunidade praticar esporte e atividades culturais nos fins de semana. Em que pé está o programa? 

Já deu certo. O governador incorporou a prática do desporto dentro dos colégios. Na realidade, foi um projeto de lei que, por razão de constitucionalidade, não consegui que fosse aprovado. Mas fiz a indicação ao governador. Temos diversos colégios na Bahia, em especial em Salvador, que detêm o único equipamento esportivo do bairro. E a população, salvo os alunos, não tinha acesso ao equipamento, sobretudo nos finais de semana. Quando queria entrar, era proibida. E a sensação de pertencimento da população? Aquele colégio me pertence, eu moro ali, eu estudo ali, e não posso praticar uma atividade esportiva no final de semana? 

Isso ocorria tanto no interior como na capital?

No interior com menos restrições. Criamos o projeto pra flexibilizar o acesso da população aos colégios. Hoje está mais tranquilo pra todo mundo, porque nesses novos colégios tem quadras novas, piscinas semiolímpicas, equipamentos de judô, karatê, tem campo de futebol society, pista de caminhada, e com a condição da população acessar nos finais de semana. Não tem coisa mais bacana do que isso. Uma comunidade, um bairro pobre onde o colégio transforma a comunidade. São colégios – e Senhor do Bonfim, minha cidade, vai ganhar um, com 24 salas, equipamentos culturais, esportivos – cujo novo modelo está sendo implantado em toda a Bahia. Coloco isso como uma grande vitória desse projeto de lei que saiu como indicação. 

Outra indicação de sua autoria ao Governo do Estado é pra que seja implantada uma loteria estadual que destine parte dos recursos à criação do Fundo Estadual de Esporte e Lazer. Também já deu certo?

Está na Casa Civil. É pra reforçar o orçamento do Estado no que se refere ao esporte, já que o orçamento é tão enxuto e pequeno. Quando você vai discutir investimento na educação, na saúde etc., o esporte fica com a fatia muito pequena. Precisamos reforçar o orçamento do Estado. E basta apenas trazer de volta algo que há décadas deixou de existir. Nós tivemos uma loteria estadual e queremos a recriação dessa loteria, de forma que o Estado destine parte dos recursos para a segurança pública, investimentos sociais, cultura, e também para o esporte. 

Qual a chance da indicação ser aceita?

Está parada já tem um tempo. Acho pouco provável que se debata esse tema agora. 

Quais outras bandeiras o senhor defende na Assembleia Legislativa? 

Agricultura familiar, por exemplo. Um tema rico, bonito, bacana e importante que me fez conhecer a Bahia. Nasci na Bahia, fui jogar fora do estado, voltei pra Bahia, mas sempre em Salvador. Ia jogar no interior e só ia pro hotel, pra sede da cidade. Não conhecia a área rural. O que me fez conhecer as carências e as necessidades do povo da Bahia foi o mandato que eu tive dado pela população e a oportunidade de dialogar com essas pessoas através da agricultura familiar. Ali você vai conhecendo o quanto de rico é a Bahia e esse povo. Mas também as carências. E fui me apaixonando pelo tema. Temos um governo extraordinário com relação a essa sensibilidade. O governador Rui Costa é um cara apaixonado por isso e acabei me apaixonando também. Toda viagem em que vou pro interior tem que ter alguma coisa na área rural. Sou muito grato ao mandato que me deram justamente por isso, por me fazer conhecer a Bahia. Me fez entender que eu tinha uma missão muito mais além do que a esportiva. 

Além de Senhor do Bonfim, sua terra natal, quais outros municípios costuma representar?

Atuo muito por territórios. No território em que nasci, o Piemonte Norte do Itapicuru, e também no da Diamantina, onde temos Jacobina, Serrolândia, Várzea do Poço, Várzea da Roça. Estou sempre nesses municípios. Também Nova Fátima, Gavião, Capim Grosso. Vou também pro Território do Sisal, onde tem Itiúba, Cansanção. Concentrei meu mandato em cinco ou seis territórios, justamente pra ter uma condição de presença. Gosto de estar presente. Não adianta estar me esforçando muito pra ir pro Extremo Sul. O deputado estadual não tem pernas pra poder estar toda hora no Extremo Sul, a não ser que tenha a sua base eleitoral, nascido e se criado lá. Mas sou votado em tudo que é lugar, porque tem muita gente que é apaixonada pelo Bahia e me conhece, sabe que sou candidato a deputado e vota em mim.   

Nesses territórios, por mais diferentes que sejam, quais as principais demandas procura atender?

Na primeira legislatura, eu praticamente usava a tribuna pra pedir investimento na saúde. Sou de um território com 305 mil habitantes e não tínhamos sequer um leito de UTI. Muitas pessoas acabaram perdendo a vida naquele momento de transição. Passavam por um hospital local mas tinham que ser levadas pra outra cidade pra encontrar um leito de UTI. Minha sobrinha faleceu assim, entre Senhor do Bonfim e Juazeiro. A minha luta era pra que a gente pudesse prover aquele território e o da Diamantina com hospital de qualidade, leitos de UTI, policlínicas. Não posso mais me queixar. Hoje o Hospital Regional Dom Antônio Monteiro, de Senhor do Bonfim, tem 20 leitos de UTI. Jacobina tem leitos de UTI, o que só tinha em Juazeiro. Temos uma policlínica em Senhor do Bonfim, outra em Jacobina. O Norte e o Centro-Norte da Bahia estão muito bem nessa questão. E no que se refere a outros investimentos, são mais de infraestrutura, que também está chegando. Você tem os aeroportos construídos e ainda não inaugurados. Foram quatro anos de muito investimento. Rui Costa foi o governador que mais investiu na minha cidade. Ele tem uma visão estratégica, planejada, de investimento em infraestrutura, na agricultura familiar. Estou muito grato a isso. A segunda legislatura me deu a condição de refletir melhor sobre o que vale a pena ser deputado. Tinha muitas dúvidas com relação a isso. Não gosto de estar sentado aqui e achar que só o status lhe engrandece. Isso não me engrandece nada. O mandato só vale a pena quando você faz entregas e vê a população melhor de vida.

Sobre sucessão estadual, deputado, como avalia os desafios da nova chapa governista que ainda está sendo redesenhada depois de tantas idas e vindas? O presidente estadual do PCdoB, Davidson Magalhães, já disseque agora não vai ser tão fácil quanto foi na recondução de Rui Costa. 

É a leitura que também tenho. Estamos no governo há 16 anos, temos o desgaste, é mais do que natural. Por mais extraordinária que seja a gestão de Rui Costa, isso acontece. Mas como viajo muito, estou no dia a dia com as pessoas e gosto de conversar, saber como é que está a vida, o que a gente percebe é que avançou muito. E se avançou e melhorou muito, isso nos dá uma expectativa positiva com relação ao cenário eleitoral. 

Mesmo com a base de apoio fragmentada?

Quando você fraciona a unidade, é um risco, tem que repensar. Mas quando você mantém ela intacta, não. Nasceu assim, por exemplo, o nome Rui Costa. Quando [Jaques] Wagner escolheu Rui Costa, eu me lembro até hoje. Evou contar duas passagens. Uma em Salvador, no Subúrbio, onde tive a satisfação de acompanhá-lo, e outra quando começou a rodar o interior e visitou duas cidades em que sou votado. Como é que fazia? Ele descia, as pessoas não o conheciam, ele se apresentava: “Olá, bom dia, tudo bem? Sou o Rui Costa, candidato a governador da Bahia”. Eu acompanhando:“Oi, e eu sou Bobô”. As pessoas dizendo: “E eu conheço você, jogador do Bahia, é o Bobô do Bahia [risadas]”. 

Pouca gente conhecia Rui Costa.

Rui Costa se criou nas primeiras pesquisas. Era um por cento, um vírgula dois, dois por cento. E a oposição dizia: “Vamos ganhar no primeiro turno”. As pesquisas davam também isso. De repente, ele foi crescendo, as ações foram acontecendo, o grupo político junto, Lula junto, todo o mundo junto, e Rui ganhou aquela eleição no primeiro turno e ganhou a segunda com a maior votação da história da Bahia. Isso nos deixa mais tranquilos. 

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