PROJETO DE PODER
Roma deve reorganizar bolsonaristas para buscar prefeitura de Salvador
Ex-aliado de Neto, novo presidente estadual do PL-BA sai fortalecido da última eleição


Apesar de derrotado, João Roma saiu fortalecido da disputa ao governo da Bahia e com capital político acumulado suficiente para se viabilizar como candidato a Prefeito de Salvador, em 2024. Para tornar real o projeto de poder, no entanto, o novo presidente estadual do PL tem a missão de reorganizar a base bolsonarista que lhe deu sustentação eleitoral este ano, para que o partido seja competitivo a ponto de conquistar mais prefeituras e influência nas câmaras municipais.
“O PL saiu muito fortalecido e todos sabem disso. Isso inclui também João Roma, que teve uma votação relevante no pleito que o credenciou a ser um dos principais nomes do presidente na Bahia”, assegurou o deputado estadual Capitão Alden, que deixa a Assembleia Legislativa com destino à Câmara Federal a partir do próximo ano.
O partido terminou as eleições turbinado e ganhou musculatura ao formar a maior bancada tanto na Câmara quanto no Senado. Na Bahia, o PL terá quatro das 63 cadeiras na Alba.
“Se formos comparar com 2018, por exemplo, só tínhamos um representante do presidente na Câmara dos Deputados, e esta representação traiu os seus eleitores e presidente. Em 2023 teremos três. Ou seja: triplicamos. Na Alba, éramos dois bolsonaristas, e agora seremos quatro. Esta é uma clara resposta dos baianos sobre a confiança que eles têm nos nomes do presidente aqui na Bahia”, falou Alden.
O “próximo passo”, como Alden contou à reportagem de A TARDE, é aumentar ainda mais essa base, “mas com prefeitos e vereadores”. O controle estadual da sigla, com expressivo tempo de TV e rádio, e, principalmente, recursos milionários do fundo partidário, possibilita também a Roma melhor preparar o terreno eleitoral, fixar bases e consolidar apoios mais contundentes.
Durante a campanha deste ano, o ex-ministro da Cidadania buscou associar sua imagem ao presidente Jair Bolsonaro, ao incorporar a polêmica pauta de costumes, sob o manto dos chamados valores conservadores, e obteve pouco mais de 700 mil votos no primeiro turno. Na disputa, ele recebeu 8,47% dos votos dos eleitores de Salvador este ano, um desafio se de fato se lançar na disputa à Prefeitura da capital.
Sem mandato eletivo após o final do ano, Roma assume o controle do PL na Bahia para se manter relevante e nos holofotes da política. Não houve eleição, o cargo foi “cedido” após articulação interna. O antecessor, Vitor Azevedo, eleito deputado estadual, afirma que fez uma “transição”, já sabendo que Roma assumiria a função logo após as eleições.
“Já estava acordado. Foi de forma pacífica. Eu vou assumir meu mandato, vou me dedicar ao mandato, e ele vai organizar o partido aqui na Bahia para as próximas eleições, tanto 2024 quanto 2026. Vou estar sempre ao lado dele, como braço direito, ajudando no que ele precisar e for necessário”, explicou Azevedo.
Estreante na Alba, ele entende ser “normal” que o partido queira ser protagonista em 2024 diante do crescimento que obteve este ano. “O papel de João será estruturar o partido em todo o Estado, objetivando esse protagonismo. E, nessa tarefa, tanto eu como os demais colegas, eleitos e não eleitos, estaremos ao lado de João Roma, apoiando e ajudando no que for necessário”.
Ainda falta habilidade
João Roma tem pouco tempo para adotar ações com objetivo de solidificar o papel de protagonismo que o PL quer exercer, como criar e fortalecer diretórios locais e fazer a articulação necessária no interior do estado. Interlocutores ouvidos pela reportagem em condição de anonimato, porém, alertam para a “falta de habilidade” do ex-ministro para “construir bases políticas”.
Neste momento, Roma se encontra em Brasília, finalizando o mandato de deputado federal após se licenciar para a disputa eleitoral e não vai comentar nada sobre o futuro do partido, pelo menos por enquanto. De forma discreta, ele se mantém em silêncio à espera dos próximos acontecimentos em torno de Jair Bolsonaro que possam a baixar a temperatura pós-eleição.
Fiel à cartilha bolsonarista, Roma só “desejou boa sorte” ao governador eleito da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), em postagem na rede social, após Bolsonaro se pronunciar sobre a derrota para Lula, mais de 40 horas depois de encerrado o pleito.
Liderança bolsonarista
A base bolsonarista traduzida em votos garante a João Roma um apoio importante na intenção em se consolidar como principal liderança oposicionista ao governo da Bahia, colocando em risco papel até então exercido por ACM Neto (União Brasil).
Na semana passada, o ex-ministro publicou na sua conta no Twitter que é o "novo líder da oposição na Bahia".
Roma é o líder da oposição na Bahia https://t.co/LiBhAvwGnv
— João Roma (@joaoromaneto) November 2, 2022
O PL pode fazer a diferença nessa batalha por ocupação de espaço político. A percepção em torno de Roma é de que o partido atualmente é maior do que o DEM em 2020 (hoje União Brasil, após fusão com o PSL). O fator partidário pode incomodar, inclusive, os planos de Neto de se lançar candidato a prefeito ou manter o projeto de reeleição de Bruno Reis na capital baiana.
“A postura de Neto sempre foi imperial. Quem vai até ele agora? O que ele tem para oferecer?”, questiona uma pessoa próxima a Roma.