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Mortes e denúncias de tortura: clínica de reabilitação na RMS vira alvo de investigação

Após duas mortes, clínica passou a ser investigada por maus-tratos, torturas e ameaças

Leilane Teixeira
Por
Imagem ilustrativa da imagem Mortes e denúncias de tortura: clínica de reabilitação na RMS vira alvo de investigação
Foto: Reprodução/Instagram

Durante meses, famílias entregaram a uma clínica de reabilitação para dependentes químicos aquilo que tinham de mais precioso: filhos, irmãos, companheiros e a esperança de vê-los reconstruir a própria vida.

A expectativa pela recuperação, porém, deu lugar à dor. O que começou como uma tentativa de salvar familiares da dependência terminou em luto e pedidos por respostas às autoridades após as mortes de Geovane Santana Lopes e Iago Marques Formiga, interno e funcionário da clínica Terra Santa Videira, localizada em Candeias, na Região Metropolitana de Salvador.

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A unidade passou a ser investigada pela Polícia Civil após os dois casos virem à tona neste mês. Embora as mortes não tenham ocorrido dentro da clínica, familiares suspeitam do envolvimento da direção da instituição e levaram denúncias às autoridades. Entre os relatos apresentados à polícia e em investigação estão:

  • maus-tratos;
  • agressões;
  • ameaça;
  • tortura

Geovane: interno apareceu queimado e morreu meses depois

Geovane Santana foi internado na clínica pela família em meio ao vício em drogas. Segundo familiares, em dezembro de 2025 ele sofreu queimaduras graves dentro da unidade e foi encaminhado a um hospital. Após permanecer internado por cerca de cinco meses, morreu no último dia 4 de maio.

A defesa da clínica afirma que o próprio Geovane teria ateado fogo ao corpo. “Ele pegou uma roçadeira. Havia combustível nela, ele passou o combustível no próprio corpo e utilizou um isqueiro que fica liberado para os fumantes, por conta da política de redução de danos. O cigarro é permitido, inclusive recomendado por médicos em alguns casos. Então, como havia esse isqueiro disponível, ele ateou fogo ao próprio corpo”, afirmou a advogada da clínica, Hortência Ribeiro, em entrevista ao Portal A TARDE.

Ela crescentou ainda, que Geovane apresentava episódios anteriores de tentativa de suicídio. “Ele tinha episódios muito delicados, de esquizofrenia. Já tentou suicídio dentro da clínica com um caco de vidro, mas não conseguiu êxito. Posteriormente aconteceu esse fato que levou ele a óbito. A família sempre esteve ciente de tudo.”

Geovane Santana, interno que apareceu com corpo queimado
Geovane Santana, interno que apareceu com corpo queimado - Foto: Reprodução Redes Sociais

Família contesta

A versão, no entanto, é contestada pela família. A mãe de Geovane, Rosângela Santana, afirma que o filho era bipolar, e não esquizofrênico, e diz que não foi avisada pela clínica sobre o ocorrido.

“Quem me informou que Geovane estava internado no Hospital Geral de Candeias foi a própria assistente social do hospital. Não foram eles. Em momento nenhum entraram em contato comigo. O erro já começa por aí”, relatou.

Segundo Rosângela, a própria equipe do hospital orientou que a família evitasse contato com a clínica. “A assistente social me disse para não procurar mais a clínica, porque Geovane dizia que tinha medo dos funcionários de lá. Ele ficava desesperado ao falar da clínica e, por isso, o próprio hospital proibiu a visita dos monitores”, afirmou.

Emocionada, ela relembrou o estado em que encontrou o filho após as queimaduras.

Quando cheguei ao hospital, meu filho já estava todo enfaixado, debilitado, numa situação horrível

Rosângela Santana - Mãe de Geovane

A mãe também afirma que não recebeu suporte da clínica durante o período em que Geovane permaneceu internado. “O dono da clínica nunca falou comigo. Nunca perguntou como Geovane estava, nem explicou como ele conseguiu gasolina ou o que aconteceu naquele dia.”

Iago: funcionário desapareceu e foi encontrado carbonizado

Iago Marques Formiga, de 33 anos, chegou a ser interno da unidade por seis meses. Após o tratamento, passou a atuar como monitor de outros pacientes dentro da própria clínica - incluindo de Geovane - além de desempenhar serviços externos para a instituição.

O desaparecimento dele ocorreu no dia 8 de maio. Após 11 dias, o corpo foi encontrado com marcas de disparos de arma de fogo e parcialmente carbonizado às margens da BA-530, em Camaçari, também na Região Metropolitana de Salvador.

O pai de Iago, Manoel Formiga, afirmou que recebeu versões contraditórias da clínica sobre o desaparecimento do filho. “Primeiro disseram que o proprietário da clínica tinha entregue R$ 2 mil a ele para fazer um depósito bancário. Depois mudaram a versão e afirmaram que o dinheiro teria sido entregue a outro funcionário, que repassaria a quantia.”

Segundo Manoel, familiares tentaram contato diversas vezes após o desaparecimento, mas não tiveram retorno.

No dia do enterro, ninguém apareceu. Nem sequer prestaram apoio à família

Manoel Formiga - Pai de Iago

Liberdade restringida

A irmã de Iago, Verena Formiga, afirma que o irmão tinha a liberdade restringida e denuncia supostas agressões dentro da unidade.

“Ele ficou um ano e sete meses sem contato com meu pai. Temos áudios que mostram que tomavam o celular dele para impedir contato com a família. Como meu irmão poderia denunciar o que estava vivendo?”, questionou.

Verena afirma ainda que o irmão chegou a relatar episódios de violência. “Uma vez ele falou por alto que apanhava, mas não tínhamos dimensão do que acontecia lá dentro. Hoje surgiram outras denúncias e tudo isso assusta ainda mais.”

A família afirma ainda não ter recebido qualquer suporte da instituição após a morte de Iago. “Meu irmão precisou ser enterrado de caixão fechado pelo estado do corpo, eles foram incapazes de irem no enterro, de perguntarem sobre ele”, lamentou.

Iago Marques Formiga, funcionário que sumiu e apareceu carbonizado
Iago Marques Formiga, funcionário que sumiu e apareceu carbonizado - Foto: Reprodução Redes Sociais

Defesa nega envolvimento da clínica

A advogada Hortência Ribeiro afirmou que Iago deixou a clínica para passar o fim de semana com familiares e que a instituição não teria responsabilidade sobre o que aconteceu depois disso.

Segundo a defesa, no dia do desaparecimento ele realizava diligências externas relacionadas ao trabalho e, após retornar à clínica, organizou seus pertences para viajar.

“Ele disse que passaria o fim de semana com a família e voltaria na segunda-feira. Quando não apareceu, os funcionários começaram a procurá-lo na região. Foi o próprio Moisés [dono da clínica] quem ligou para o pai dele informando sobre o desaparecimento”, declarou.

A advogada negou qualquer relação entre a clínica e a morte do funcionário. “A clínica não tinha controle sobre o que Iago fazia em seus momentos de lazer. Apesar disso, Moisés está colaborando de forma transparente com a polícia e com as investigações”, afirmou.

Famílias suspeitam de ligação entre os casos

Apesar de não haver confirmação oficial de relação entre os episódios, familiares das vítimas não descartam a possibilidade de conexão entre os casos. O desaparecimento de Iago ocorreu apenas quatro dias após a confirmação da morte de Geovane.

“Iago era monitor de Geovane. Talvez ele possa ter descoberto alguma coisa. Não podemos afirmar, mas é uma suspeita que existe”, disse a mãe de Geovane.

A defesa da clínica classificou os casos como "coincidência infeliz"

“Foi apenas coincidência. Não existe relação entre os fatos e é importante individualizar os casos. Muitas pessoas que chegam à clínica estão emocionalmente fragilizadas e apresentam comportamentos agressivos”, declarou a advogada ao portal A TARDE.

Como estão as investigações?

A Polícia Civil informou que os casos são investigados por unidades diferentes.

Segundo a corporação, a 20ª Delegacia Territorial (DT/Candeias) apura o crime de lesão corporal seguida de morte envolvendo Geovane Santana Lopes, de 31 anos. A unidade também investiga denúncias de ameaça, maus-tratos, lesão corporal e tortura supostamente praticadas na instituição.

Já o caso envolvendo Iago Marques Formiga é investigado pela 4ª Delegacia de Homicídios (DH/Camaçari). Segundo a Polícia Civil, equipes realizam oitivas, diligências e ações de inteligência para esclarecer a morte e a ocultação do cadáver.

A corporação informou ainda que "as investigações seguem em andamento, com integração entre as unidades responsáveis pelos casos".

O portal A TARDE também procurou o Ministério Público da Bahia e aguarda retorno.

Novas denúncias surgem após repercussão dos casos

Após a repercussão das mortes, novos relatos envolvendo a clínica começaram a surgir.

Um ex-interno, que permaneceu na unidade entre outubro de 2025 e janeiro deste ano — período em que Geovane sofreu as queimaduras — afirmou que pacientes eram submetidos a ameaças, intimidações e trabalhos forçados.

Segundo ele, internos eram obrigados a capinar o terreno da propriedade e sofriam constantes agressões psicológicas. O homem relatou ainda ter tido uma arma apontada para a cabeça e ter sido coagido a fumar maconha sob ameaça.

Outra denúncia foi feita pela mãe de um ex-monitor da clínica. De acordo com ela, o filho teria sofrido agressões e tortura dentro da unidade antes de fugir para outro estado.

Questionada sobre os novos relatos, a defesa da clínica afirmou que ainda não teve acesso oficial às denúncias e, por isso, preferiu não comentar os casos. “Até o momento, o que existe são relatos que ainda precisam ser apurados. Cabe à Polícia Civil investigar os fatos antes que possamos prestar esclarecimentos”, declarou a advogada.

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Tags

Clínica de reabilitação dependente químico maus-tratos tortura

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